Chuvas fortes e volumosas nos últimos dias voltaram a assustar produtores rurais no Sul do país. No Paraná e em Santa Catarina, áreas agrícolas e estruturas em propriedades foram destruídas e no Rio Grande Sul as chuvas interromperam a colheita de trigo.
Equipes de prefeituras e da Defesa Civil trabalham para estimar os estragos deixados pelos temporais e queda de granizo do último fim de semana em 38 cidades do Paraná. Conforme dados preliminares, lavouras de soja, criações de aves e suínos e produção de hortaliças foram as atividades agrícolas mais atingidas, principalmente no noroeste, centro-oeste e norte do Estado.
“Foi rápido, mas devastador”, diz Leonardo Romero, prefeito de Quinta do Sol, no norte.
João Cláudio Romero, produtor em Quinta do Sol, estima que teve prejuízo de cerca de R$ 2 milhões. “Pode ser ainda mais, foi um estrago bem considerável”. Segundo ele, quatro granjas de aves foram atingidas pelos fortes ventos, que superaram 90 km por hora, e pelo granizo. Em uma delas, a destruição chegou a 80% e em torno de 30 mil pintainhos morreram.
“Caíram pedras do tamanho de um ovo de galinha”, comparou ele, que disse ter seguro que cobre apenas uma parte do prejuízo. Barracões e painéis de energia solar também foram danificados.
Em outra fazenda da família, a lavoura de soja foi atingida. Dos 2,3 mil hectares da área plantada, em torno de 720 hectares tiveram perda total. Em outros talhões, houve perda parcial. Será necessário fazer replantio em algumas áreas, segundo Romero.
O produtor Paulo de Freitas Mendonça, também de Quinta do Sol, estima que até 70% da área dos 820 hectares de soja que plantou tenha sido atingida. Nesta semana, ele fará uma avaliação da lavoura para definir quanto será necessário replantar. “Essa situação afeta os compromissos firmados e todo o ciclo da lavoura até a safrinha [de milho], para a qual já tenho financiamento e insumos comprados”, disse.
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Daniel Antonio Moro, secretário de Agricultura e Abastecimento Rural de Santa Helena, na costa oeste do Paraná, conta que em uma das localidades da área rural, em torno de 80% da comunidade teve prejuízos.
O governo do Paraná autorizou ontem o repasse de R$ 50 milhões do Tesouro Estadual ao Fundo Estadual para Calamidades Públicas (Fecap), medida que visa garantir apoio aos municípios atingidos pelos temporais. O Valor entrou em contato com a Secretaria de Estado da Agricultura para detalhar as ações de apoio aos produtores, mas não houve retorno até o fechamento desta reportagem.
Nesta terça-feira (4/11), o volume de chuvas deve diminuir no Estado, conforme o Sistema de Tecnologia e Monitoramento Ambiental do Paraná (Simepar). Mas, na quarta-feira, a chuva deve voltar com força. “A formação de um novo sistema de baixa pressão sobre o Paraguai deve provocar chuvas intensas no oeste paranaense, que avançam em direção às demais regiões ao longo do dia, perdendo força gradualmente”, detalhou Bianca de Ângelo, meteorologista do órgão.
Em Santa Catarina, as chuvas com granizo afetaram pomares de maçã na cidade de Bom Jardim da Serra. A propriedade de Douglas Padilha foi uma das atingidas. Segundo ele, o episódio durou apenas 10 minutos, mas o tempo foi suficiente para danificar os frutos, que estavam em desenvolvimento, e causar a queda das folhas na área com 1 mil macieiras.
“Foi uma chuva que veio sem ninguém esperar e com bastante granizo. Ainda não sei quanto terei de prejuízo, mas já sabemos que a safra foi prejudicada. Agora vou acionar o seguro”, disse.
Segundo a Empresa de Pesquisa Agropecuária e Extensão Rural de Santa Catarina (Epagri), o granizo foi registrado em outros dois municípios da região serrana destaques no cultivo de maçã: São Joaquim e Urubici. “Podem ter ocorrido prejuízos individuais mais significativos, mas acredito não ser de forma generalizada. Precisamos de tempo para ter informações mais concretas”, afirmou Marlon Francisco Couto, da gerência regional de São Joaquim.
No Rio Grande do Sul, as chuvas das últimas semanas levaram à interrupção da colheita de trigo. “Eu esperava colher, mas não tem como entrar na lavoura”, lamentou Hamilton Jardim, produtor de trigo no Rio Grande do Sul e coordenador da Comissão do Trigo e Culturas de Inverno da Farsul. A colheita no Estado alcança 27% da área estimada, segundo a Emater/RS. Mas a dificuldade em fazer a atividade avançar pode comprometer a qualidade dos grãos.
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Segundo Luiz Carlos Pacheco, da TF Consultoria Agroeconômica, a produção de trigo gaúcha apresentava boas condições até duas semanas atrás. Mas, com as chuvas, perdeu qualidade. “Está dando muito DON [micotoxina Desoxinivalenol, produzida pelo fusarium], que condena o trigo para consumo humano. O trigo é vendido a R$ 1,2 mil por tonelada. Com o DON, é vendido a R$ 900, porque só serve para ração”.
Jardim afirmou que o clima tem se mostrado atípico no Estado. Embora se esperasse um ano de La Niña, quando há um menor volume de chuvas no Sul, “ tem chovido praticamente todos os dias e, inclusive, temperatura baixa que quando chove impede o trabalho de entrada nas lavouras, pois o solo fica muito úmido”.
(Colaborou Cibelle Bouças, de Belo Horizonte)

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