A proximidade da assinatura do Acordo de Livre Comércio entre Mercosul e União Europeia (UE) gera preocupação e medo crescentes entre agricultores e pecuaristas europeus. Consultados durante a Agritechnica 2025, na Alemanha, produtores rurais de quatro países europeus foram unânimes em se posicionar contra a abertura do comércio entre os blocos para produtos agrícolas.
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Ainda assim, a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, e o presidente Lula afirmaram recentemente que o documento final deve ser assinado em 20 de dezembro, na reunião de cúpula do Mercosul, no Rio de Janeiro.
Enquanto setores industriais e de exportação europeus veem oportunidades no pacto, o campo enxerga uma ameaça direta. A percepção comum é que o acordo poderia colocar em risco a sobrevivência de milhares de agricultores e pecuaristas do continente.
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“Precisamos produzir mais aqui, porque não somos autossuficientes em nada. Se vier mais produto de fora, o preço vai baixar ainda mais e teremos de vender a fazenda”, afirma o pecuarista sueco Andreas Johanson.
O produtor de grãos Paul Tauschmann, da Áustria, compartilha o mesmo receio. Segundo ele, o acordo é injusto por colocar frente à frente economias com estruturas produtivas e de custos incomparáveis.
Ele acrescenta que o impacto pode não ser imediato, mas tende a se intensificar com o tempo, levando muitos produtores a desistirem da atividade.
Já o suinocultor finlandês Johnny Kronqvist vê o acordo como um risco sanitário e ambiental. “Os produtores do Mercosul não seguem as mesmas regras que nós. Aqui, temos muito mais controles. Isso cria uma concorrência desigual”, critica.
Para ele, o pacto pode beneficiar setores como o automotivo e o de vinhos, mas prejudicará diretamente a pecuária europeia. “Para nós, produtores de carne, não é bom. Corremos um grande risco. Estou muito preocupado”, opina.
O alemão Felix Engel, produtor de grãos, também destaca a disparidade de regras e padrões. Ele lembra que cultivos geneticamente modificados, como a soja, são proibidos na Alemanha, o que limita a competitividade.
Engel defende o livre comércio apenas se houver igualdade de condições entre as partes. Ele também culpa o comportamento do consumidor, e observa que, embora muitos europeus afirmem preferir produtos com diferenciais produtivos, na prática a maioria escolhe o mais barato.
“Mesmo com selos de qualidade e notas de sustentabilidade, o preço ainda é o que manda. Isso nos coloca em desvantagem”, diz.
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Pesquisadora: ‘Eles não precisam ficar tão preocupados’
Para Janine Pelikan, pesquisadora do Instituto Thünen para Análise de Mercado (Thünen-Institut für Marktanalyse, em alemão), o impacto do acordo Mercosul–União Europeia sobre os produtores europeus tende a ser limitado.
“Os agricultores europeus “não precisam ficar tão preocupados”, afirma a especialista que palestrou no painel “Tarifas de importação como instrumento protecionista: qual o papel dos acordos de livre comércio no agro?”, realizado durante a Agritechnica.
Janine explica que, embora o tratado preveja cotas de importação para produtos sensíveis, como a carne bovina, os volumes são pequenos diante do tamanho do mercado europeu.
“A cota é de apenas 99 mil toneladas. E como o cálculo é feito sobre o peso com osso, o volume efetivo cai para cerca de 27 mil toneladas de carne desossada. É muito pouco diante da demanda do continente”, observa.
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Segundo ela, estudos indicam que os preços devem cair menos de 2%, e a produção, menos de 1%, na Europa. “É um impacto mínimo sobre o produtor europeu de carne bovina, por exemplo”, afirma.
No caso da soja, também não há motivo de apreensão. Diferentemente da carne, o grão já entra livre de tarifas na UE e é considerado um insumo essencial para as cadeias de produção animal.
“O Brasil é altamente competitivo na soja, mas, nesse caso, ela não concorre diretamente com a produção europeia — é uma matéria-prima que abastece nossas indústrias. Na prática, nada muda para a soja. O comércio segue aberto como sempre foi”, concluiu.
Ela ressalta ainda que há fortes barreiras tarifárias e salvaguardas para conter qualquer desequilíbrio. Fora das cotas, as tarifas continuarão entre 50% e 60%, o que mantém a competitividade da América do Sul dentro de limites controlados.
“Além disso, o acordo prevê cláusulas de proteção que permitem à União Europeia reverter ou ajustar cotas caso haja um aumento súbito nas exportações”, finaliza.
*O jornalista viajou a convite da DLG, organizadora da feira

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