Práticas de conservação garantem benefícios no acesso ao seguro rural a produtores do Paraná

As práticas de conservação e proteção do solo adotadas por produtores paranaenses começaram a gerar benefícios a eles no acesso ao seguro rural com subvenção federal em 2025. O Estado foi escolhido para experimentar o projeto-piloto do Ministério da Agricultura, que mescla as indicações do Zoneamento Agrícola de Risco Climático em Níveis de Manejo com o Programa de Subvenção ao Prêmio do Seguro Rural (PSR), que premia quem incrementa um pouco mais os cuidados com a terra.

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Uma área de 2,4 mil hectares, composta por 29 talhões diferentes de lavouras de soja no Paraná, foi contemplada na iniciativa criada neste ano. Quanto melhor o nível de manejo do solo, maior a subvenção do governo federal no seguro da safra 2025/26.

O agricultor José Henrique Orsini, de Floresta (PR), costuma utilizar braquiária logo após a colheita da soja como forma de melhorar o solo e ter palhada em abundância para o plantio direto na safra de verão seguinte. Neste ano, por não ter feito o consórcio milho e braquiária, o produtor conseguiu acessar o Níveis de Manejo 2 do projeto-piloto do seguro rural e terá direito a uma subvenção de 25%. Se tivesse feito o consórcio, chegaria ao nível 3 e a subvenção seria de 30%. A subvenção tradicional para a soja é de apenas 20%.

“Faltava um seguro assim para reconhecer o trabalho do produtor que faz um bom manejo do solo”, disse Orsini, que é cooperado da Cocamar.

O projeto usa a metodologia desenvolvida pela Embrapa para classificar os talhões das lavouras em quatro níveis de manejo, baseada em indicadores objetivos, verificáveis e auditáveis. A técnica permite verificar o quanto a adoção de boas práticas pode reduzir os riscos potenciais de perdas da produção por seca.

O modelo considera seis indicadores: tempo sem revolvimento do solo, porcentagem de cobertura do solo em pré-semeadura (palhada), diversificação de cultura nos três últimos anos agrícolas, percentual de saturação por bases, teor de cálcio e percentual de saturação por alumínio.

Cerca de 5% da área total do projeto-piloto foi classificada com o nível quatro, o melhor da escala do Zarc Níveis de Manejo, e que resulta em uma subvenção de 35% no valor do prêmio do seguro rural. Do restante, 27% da área foi classificada no nível de manejo 3, com subvenção de 30%; 57% no nível 2, com 25% de subvenção da apólice; e 11% da área ficou com o nível 1, mantendo os 20% de subvenção padrão do PSR.

O produtor José Rogério Volpato alcançou classificação NM3. “Importante diferenciar os produtores que investem no manejo sustentável do solo. É um reconhecimento que serve de incentivo para outros”, ressaltou. Ele cultiva solos arenosos em Ourizona e em Presidente Castelo Branco, onde implementa o programa de integração lavoura-pecuária (ILP) e o consórcio milho e braquiária como opção de inverno.

A braquiária, com um enraizamento “agressivo”, rompe a camada de compactação e abre pequenos canais que facilitam a infiltração das águas das chuvas, o que evita enxurradas e contém a erosão. Além de aumentar o volume de matéria orgânica no solo, o capim cicla nutrientes das camadas mais profundas e, com a palhada, inibe o surgimento de ervas daninhas.

Governo reservou R$ 8 milhões

No projeto-piloto, os agricultores paranaenses submeteram seus projetos às seguradoras e agentes financeiros, indicaram o talhão a ser analisado, passaram as informações solicitadas e as análises de solo feitas em laboratórios credenciados. Os dados são cruzados com informações de sensoriamento remoto para cálculo e classificação dos níveis de manejo.

“Apesar de vizinhas, as classificações [das áreas] podem ser bem diferentes. A área erodida não obteria classificação maior que NM1. Isso mostra a importância de um sistema de verificação independente e bem estruturado para ser capaz de observar esses detalhes de forma automatizada à medida que ganha escala e o número de operações chega aos milhares”, afirmou o pesquisador da Embrapa Agricultura Digital e coordenador da Rede Zarc de Pesquisa, Eduardo Monteiro.

Nesta safra, o governo reservou R$ 8 milhões do orçamento para o projeto. Esse é o único dinheiro liberado para subvenção de seguro rural para soja em 2025 até agora. O restante previsto segue bloqueado.

O diretor do Departamento de Gestão de Riscos do Ministério da Agricultura, Diego Almeida, disse que o novo modelo de subvenção deve se tornar permanente. A expectativa é ampliar o programa para outros Estados e, posteriormente, incluir a cultura do milho. Segundo a Pasta, a metodologia do Zarc Níveis de Manejo contribui para reduzir um problema recorrente do seguro rural que é a “necessidade da quantificação mais individualizada do risco, por gleba ou talhão, conforme o manejo de cada área”.

Práticas de manejo capazes de aumentar a disponibilidade de água no solo são fundamentais pra reduzir os riscos de perdas por conta das estiagens cada vez mais frequentes, apontou o pesquisador José Renato Bouças Farias, da Embrapa Soja. “O aprimoramento do manejo do solo leva a um aumento significativo na produtividade das culturas, à redução do risco de perdas causadas por condições de seca e ao aumento da fixação de carbono no solo”.

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