A Fundação IDH e o Banco do Nordeste (BNB) firmaram um acordo de cooperação que promete alterar a dinâmica de acesso ao crédito rural na Caatinga — uma região onde, historicamente, a inclusão financeira esbarrou em desafios de documentação, informalidade e baixa assistência técnica.
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A parceria, articulada no âmbito do Programa Raízes da Caatinga, busca reverter um quadro persistente: apenas 4,5% dos agricultores familiares do bioma acessam o Pronaf, enquanto a maior parte dos recursos segue concentrada nas regiões Sul e Sudeste.
O movimento começou a ganhar tração com a entrada dos Centros de Atendimento ao Produtor (CAPs), criados pela Fundação IDH nos territórios do Sertão do Pajeú (PE), Cariri Ocidental (PB) e Sertão do Apodi (RN). A partir da oferta de documentação, orientação técnica e apoio à elaboração de projetos de financiamento, os CAPs passaram a destravar, na prática, a porta de entrada para o crédito rural.
Segundo Grazielle Cardoso, gerente do Programa Raízes da Caatinga, o diagnóstico inicial foi contundente. “Encontramos produtores que não tinham CAR atualizado, não tinham regularização fundiária, haviam perdido documentos pessoais ou nem sabiam por onde começar. Isso travava o acesso ao Pronaf e a outros programas. Os CAPs nasceram justamente para dar esse suporte básico, mas decisivo”, afirma.
Os resultados ajudaram a chamar a atenção do Banco do Nordeste, que passou a integrar formalmente a estratégia. No Sertão do Apodi, onde o primeiro CAP foi lançado, o impacto foi imediato: em 2023, 791 agricultores acessaram crédito rural. Após a chegada do CAP, esse número cresceu 127% e alcançou 1.796 operações entre 2024 e 2025. O volume financiado saltou de R$ 13 milhões para R$ 31,9 milhões, alta de 145%.
Grazielle explica que a parceria supre uma lacuna histórica. “O banco sempre dizia que tinha recurso — o problema era que não chegava na ponta. Quando o agricultor passa pelo CAP, ele chega ao banco mais preparado, com documentação em dia, com projeto mais robusto e com maior segurança para assumir o investimento. Isso reduz risco e acelera a aprovação”, diz.
Além da preparação técnica, a iniciativa tem contribuído para romper barreiras culturais. O medo do endividamento e a dificuldade em enxergar a propriedade como empreendimento produtivo eram desafios recorrentes.
“Há agricultores com dez hectares produzindo apenas em um, por falta de orientação ou receio de investir. Nosso trabalho envolve apoiar a gestão, orientar melhor uso dos recursos e mostrar que crédito, quando bem aplicado, transforma”, explica a gerente.
A experiência da produtora Vitória Tavares, do Sertão do Apodi, ilustra essa mudança. Ela buscou o CAP em busca de regularização documental e acabou acessando crédito para ampliar sua produção.
Com o financiamento, pôde investir em infraestrutura. “Esse dinheiro me permitiu construir dois chiqueiros, um armazém e ainda fazer o seguro safra”, diz.
Para ela, a instalação do CAP na região encerrou um ciclo de deslocamentos longos e burocracias complexas. “Antes, a gente precisava ir a outros municípios para resolver tudo. Com o CAP ficou bem melhor, porque conseguimos apoio e as informações necessárias para resolver muita coisa e conseguir financiamentos”, afirma.
Os CAPs também estão funcionando como hubs de articulação territorial, conectando produtores a políticas públicas como Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE) e Programa de Aquisição de Alimentos (PAA), além de mercados privados, incluindo cadeias que demandam algodão agroecológico.
A estratégia também prevê fortalecimento de cooperativas, incentivo ao cooperativismo financeiro e orientação sobre práticas agroecológicas.
Segundo Grazielle, a adoção de práticas mais sustentáveis ocorre de forma natural. “Eles já são, de fato, produtores de baixa emissão. Não têm acesso regular a insumos químicos caros. Nosso papel é indicar caminhos produtivos mais resilientes, fomentar agroecologia e conectar isso a mercados que reconhecem esse valor”, afirma.
A expectativa, agora, é aprofundar os mecanismos de monitoramento dos impactos socioeconômicos e ambientais, e ampliar oportunidades de investimento para pequenos produtores da Caatinga.
“O Pronaf é uma joia, mas não chegava na ponta. Estamos diante de uma virada de chave. É a primeira iniciativa desse tipo, mas seria extremamente valioso ter modelos semelhantes espalhados pelo Brasil”, avalia Grazielle.

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