Os estudos sobre o comportamento reprodutivo do pirarucu, o maior peixe da Amazônia, ganharam o reforço da inteligência artificial. No trabalho, que a Embrapa Pesca e Aquicultura, de Tocantins, desenvolve em parceria com a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), os pesquisadores adaptaram técnicas de análise comportamental de roedores para simular a realidade da espécie amazônica. O objetivo dos pesquisadores é tornar a reprodução da espécie mais previsível e abrir caminhos para a adoção de novas tecnologias na criação de peixes.
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A Embrapa já concluiu a etapa de testes e, agora, prevê para 2026 o início do processo de experimentações, no qual a ferramenta entrará em operação para extrair dados e informações biológicas dos peixes. “Essa ferramenta vem para auxiliar na coleta de dados para pesquisa”, resume Lucas Torati, pesquisador da Embrapa Pesca e Aquicultura.
A inteligência artificial fará gravações de vídeos dos peixes de forma ininterrupta e rastreará seus movimentos para reunir dados sobre deslocamento, tempo de atividade, interações, estado de saúde e também sobre o ambiente de cultivo, entre outras informações. A ideia é que a tecnologia permita a substituição de observações humanas por dados padronizados.
“Ficar observando à beira do viveiro é trabalhoso e subjetivo”, diz Torati. “Além disso, o pirarucu percebe as pessoas ao redor e muda seu comportamento”.
A Embrapa utiliza 12 câmeras em 12 viveiros escavados, que filmam das 6h às 18h, quando há incidência de luz solar. A inteligência artificial detecta o animal e marca um ponto na imagem do viveiro sempre que o pirarucu retorna à superfície — a espécie usa brânquias para respirar na água, mas também tem respiração aérea, que significa que o pirarucu precisa voltar constantemente à superfície para absorver o ar da atmosfera.
Identificar o padrão da subida do pirarucu para a superfície é importante para observar uma série de comportamentos, afirma Torati. Isso inclui, por exemplo, saber se o peixe vai fazer um ninho e em qual parte do viveiro.
Mapear a formação de um ninho é fundamental para quem atua na criação da espécie — os produtores preferem recolher os alevinos o mais cedo possível, conta o pesquisador. “O produtor implanta hormônio nos peixes, que, depois disso, se reproduzem e formam o ninho, onde a fêmea vai depositar ovos, a serem fertilizados pelo macho”, relata.
Na sequência, os pirarucus atuam no cuidado parental, um comportamento típico da espécie, no qual fêmea e macho ficam no mesmo lugar e não buscam mais comida. O estudo sugere que um sinal captado pela inteligência artificial pode evitar a perda de milhares de alevinos.
“A coleta de ovos recém-fertilizados certamente aumentaria a taxa de sobrevivência. Os produtores costumam ter uma perda grande por causa da demora em retirá-los do viveiro”, observa o pesquisador.
Torati afirma que o uso da inteligência artificial não ficará restrito aos estudos sobre a reprodução do pirarucu. Segundo ele, os resultados indicam que também é possível avaliar de forma automática, sem necessidade de contagem manual, fatores como a eficiência alimentar dos peixes.
“Quem sabe, em um futuro próximo, consigamos usar fotos para calcular automaticamente, a partir da biometria, a biomassa desses animais”, diz Torati. Pirarucus de grande porte chegam a pesar mais de 100 quilos.
O fator mais importante do estudo é o desenvolvimento de “redes neurais profundas”, diz Cleiton Aguiar, professor da UFMG e parceiro do projeto. Ele explica que essas redes, modelos computacionais que têm várias camadas de processamento, “aprendem” representações complexas. O funcionamento do cérebro foi a inspiração para a criação do modelo.

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