Lotes de carne bovina brasileira que chegaram à União Europeia foram alvo de recall determinado pela Comissão Europeia, após a detecção nas cargas de resquícios de estradiol, um hormônio reprodutivo utilizado na fertilização de fêmeas e que é proibido no bloco.
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A carne teve a retirada do varejo solicitada em meados de novembro e permanece com a comercialização impedida, conforme apurou o Valor. Os produtos eram provenientes de uma unidade da JBS localizada em Campo Grande (MS).
O Ministério da Agricultura do Brasil enviou ofícios ao Serviço de Inspeção de Produtos de Origem Animal (Sipoa) de Campo Grande, indicando que recebeu notificações de Itália, Holanda e Espanha de suspeitas de carga com resíduos do hormônio.
“Recebemos, por meio da notificação (…) a comunicação de suspeita de carga de carne congelada de bovino sem osso de animais tratados (com estradiol) produzida pelo estabelecimento JBS S/A, sob SIF 1662”, dizem os documento aos quais o Valor teve acesso.
O ministério ainda ressaltou que a notificação europeia tem relação com falha observada pelos auditores europeus em recente auditoria realizada no Brasil.
“Solicitamos ao Sipoa que demande ao estabelecimento investigação que identifique a causa do desvio notificado, as medidas corretivas de caráter imediato e permanente, as medidas preventivas e os prazos para a implantação das medidas de controle, com obrigatório preenchimento do Relatório de Investigação, Avaliação de Causa/Efeito e Plano de ação”, afirma o ministério no ofício.
Uma fonte com conhecimento sobre o assunto disse que as medidas estão “dentro dos protocolos oficiais internacionais das autoridades sanitárias competentes”.
Sem dar detalhes, outra fonte ressaltou que o volume de carne que faz parte do recall é ínfimo, perto da quantidade exportada pelo país, abaixo de 1%.
Procurados pela reportagem, a JBS e o Ministério da Agricultura não responderam a pedidos de comentários até a publicação deste texto. A Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec) não comentou o assunto.
Alguns dos países da UE afetados pelo recall da carne são Áustria, Bélgica, Chipre, Croácia, República Tcheca, Alemanha, Grécia, Itália, Holanda e Eslováquia.
O Reino Unido (incluindo a Irlanda do Norte) também está entre os países afetados, informou a RTÉ, órgão oficial de comunicação da Irlanda.
Controle sanitário
A Associação de Agricultores Irlandeses (IFA, na sigla em inglês) afirmou ao RTÉ que o recall de carne bovina brasileira levanta questões sobre os controles sanitários do Brasil.
O presidente da IFA, Francie Gorman, disse que o caso de recall deve servir de alerta aos parlamentares que defendem aprovar o acordo comercial entre União Europeia e Mercosul. Para ele, o acordo traria benefícios à indústria, mas em detrimento dos agricultores europeus.
Em geral, o agronegócio da UE é contrário a flexibilizações de comércio entre os dois blocos.
A diretora da consultoria Agrifatto, Lygia Pimentel, lembrou que, no ano passado, também houve um debate sobre o estradiol, que é um hormônio reprodutivo utilizado na fertilização de fêmeas.
Ela observou que a carga residual de estradiol em carnes exportadas costuma ser ínfima, do ponto de vista de impacto para a saúde, porque o abate ocorre muito após sua aplicação, que só acontece com o animal em idade reprodutiva. Além disso, não se trata de um hormônio promotor de crescimento.
A legislação brasileira, por meio da Instrução Normativa nº 17/2004 do Mapa, veta o uso de promotores de crescimento (hormônios) na produção animal brasileira.
Lígia Pimentel também ressaltou que o Brasil já passou por outros eventos relativos a resíduos antes, que não envolviam hormônios promotores de crescimento, uma vez seu uso é proibido no Brasil.
“Ainda neste ano a China levantou preocupações após identificar fluazuron nas cargas, mas esse não é um hormônio, e sim um ectocida (carrapaticida)”, disse.

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