Mensagens extraídas do celular do vereador Chico 2000, apreendido durante a Operação Perfídia, colocaram o parlamentar no centro de um suposto esquema de retorno de dinheiro público e embasaram a decisão judicial que resultou em seu afastamento na Operação Gorjeta. As conversas revelam o envio de comprovante de PIX, no valor de R$ 20 mil, para uma conta indicada pelo próprio parlamentar, ligada a um pedreiro que realizava obras particulares em um imóvel associado a ele.
De acordo com a decisão judicial que culminou na operação deflagrada nesta terça-feira (27), a investigação identificou um fluxo financeiro estruturado envolvendo emendas parlamentares destinadas por Chico ao Instituto Brasil Central (IBRACE) e a empresa Chiroli Esportes, de propriedade de João Nery Chiroli. Os indícios são de que parte dos recursos teria retornado ao vereador por vias indiretas.

Levantamentos realizados no Portal da Transparência, entre 2022 e 2025, Chico 2000 destinou cerca de R$ 3,65 milhões em emendas parlamentares ao Instituto. Os recursos seriam utilizados para a realização de corridas de rua como a Corrida do Legislativo e a Corrida do Bom Jesus de Cuiabá.
Instituto como intermediário
A investigação aponta que o IBRACE, presidido por Alex Jony Silva, teria atuado apenas como intermediário formal dos repasses. Em abril de 2025, após receber R$ 1,35 milhão em emendas, o instituto transferiu 95% do valor (R$ 1,293 milhão) à empresa de Chirolli, indicada como executora real dos eventos esportivos financiados com dinheiro público.
Para a Justiça, a rapidez e o percentual elevado do repasse reforçam a tese de que o instituto funcionava como uma “entidade de passagem”, sem autonomia efetiva sobre a execução dos projetos.

PIX para pedreiro liga recursos a interesse privado
Um dos pontos mais sensíveis da decisão envolve uma transferência realizada no dia seguinte ao recebimento dos valores pela empresa de Chiroli. Em 9 de abril de 2025, foi efetuado um PIX de R$ 20 mil para Jovani José de Almeida, pedreiro que executava obras na Estância Águas da Chapada, imóvel atribuído ao vereador Chico 2000.
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Segundo os autos, a transação foi intermediada pelo chefe de gabinete do vereador, Rubens Vuolo Júnior, que encaminhou o comprovante ao parlamentar com a legenda “na conta”. Para o juízo, a mensagem evidencia a ciência e o controle do vereador sobre o repasse, caracterizando indício de retorno indevido de recursos públicos para benefício privado, prática conhecida como kickback.
Saques fracionados e lavagem
A decisão também se apoia em um Relatório de Inteligência Financeira (RIF) que identificou saques fracionados em espécie, técnica conhecida como smurfing, realizados por João Nery Chiroli. As retiradas somaram R$ 295 mil, além de transferências para o próprio presidente do IBRACE, Alex Jony Silva, ampliando as suspeitas de lavagem de dinheiro e ocultação da origem dos valores.
Base para o afastamento
Para a Justiça, o conjunto de provas, especialmente as mensagens de WhatsApp e os comprovantes de transferência, demonstra um padrão de atuação organizado, com indícios de peculato, associação criminosa e lavagem de dinheiro. O material foi decisivo para a decretação de medidas cautelares, incluindo o afastamento do vereador Chico 2000 do cargo, a fim de preservar a investigação e evitar interferências na produção de provas.
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As investigações seguem em andamento, com análise aprofundada dos fluxos financeiros e do conteúdo apreendido, e não estão descartados novos desdobramentos no caso.

A Operação
Além do vereador Chico 2000 (PL) e do o empresário João Nery Chirol, a Operação Gorjeta, deflagrada pela Polícia Civil nesta terça-feira (27), também tem como alvos o servidor da Câmara Municipal de Cuiabá Alex Jones Silva, o chefe de gabinete de Chico 2000, Rubens Vuolo Júnior, Joaci Conceição Silva, lotado no gabinete do vereador Mario Nadaf, e Magali Gauna Felismino Chiroli. Conforme o Parlamento Municipal, os dois servidores foram exonerados.

No total, foram cumpridas 75 ordens judiciais e busca desmontar um suposto arranjo criminoso que, segundo a Polícia Civil, envolvia agentes públicos, empresários e entidades privadas na destinação e no retorno irregular de recursos públicos.