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Nada de autocontenção. Nem sinal de autocorreção. O Supremo fez opção preferencial pela autocombustão. Para blindar Dias Toffoli, os colegas rodaram as togas contra a Polícia Federal a portas fechadas. Agora, faíscam de raiva numa caçada ao traidor que acendeu a luz da reunião secreta. Disseminou-se a percepção de que a perfídia do vazamento partiu do próprio Toffoli. Ele nega.
Bem feito, quem mandou ignorar a lição de transparência de Louis Brandeis? Juiz lendário da Suprema Corte dos Estados Unidos, Brandeis ensinou: “A luz do Sol é o melhor detergente”. Alguma coisa está muito errada quando ministros supremos se aborrecem mais com a claridade do que com o escuro.
Os comentários feitos pelos ministros no escurinho migraram para a ribalta graças a uma reportagem do site Poder360. A notícia revelou que os investigadores apanharam indefesos na reunião secreta. Nunes Marques desqualificou o relatório em que a PF expõe as relações promíscuas entre Toffoli e Daniel Vorcaro: “Para mim, é isso é um nada jurídico”. Mais cáustico, Flávio Dino, declarou que as 200 páginas do documento “são um lixo jurídico.”
Gilmar Mendes afirmou que “a Polícia Federal quis revidar”, pois ficou abespinhada com decisões tomadas por Toffoli como relator do caso Master. Atribuiu-se a Moraes, sem aspas, a avaliação segundo a qual a PF teve um comportamento sujo ao investigar Toffoli. Considerou o relatório nulo. Cristiano Zanin adotou a mesma linha: “Isso aqui é tudo nulo”.
Luiz Fux levou a mão ao fogo pelo colega: “O ministro Toffoli para mim tem fé pública. Meu voto é a favor dele.” Foi ecoado por André Mendonça: “Como disse o ministro Fux, a palavra do ministro Toffoli tem fé pública.” Ficou entendido que, para a maioria dos ministros do Supremo, a palavra da PF é um “nada”, um “lixo”, um “revide”, “tudo nulo”.
Edson Fachin, o presidente do Supremo, precisa submeter o relatório da PF ao teste da luz do Sol —senão por dever institucional, ao menos por piedade dos brasileiros. Quem financia a bilheteria, pagando os salários dos ministros, tem o direito de conhecer o enredo ensaiado nos bastidores do picadeiro supremo.
Antes da chegada do relatório da PF às mãos de Fachin, Toffoli perambulava pelo noticiário seminu. Pegou carona em jatinho particular na companhia de um advogado do Master. Tirou o inquérito sobre as fraudes financeiras do banco de Vorcaro da primeira instância do Judiciário.
Ao assumir o controle, impôs sigilo absoluto às investigações. Imiscui-se no trabalho dos investigadores . Depois que a PF entregou seu documento ao Supremo, Toffoli migrou dos fundões do seu gabinete para a vitrine. Ficou com os glúteos à mostra para quem passa defronte da fachada da Suprema Corte.
A estátua da Justiça, aquela senhora de pedra que guarda a entrada do prédio, obra do escultor Alfredo Ceschiatti, não vê nem ouve. Uma venda cobre-lhe os olhos, poupando-a de assistir à conflagração que se arma dentro do edifício. Mas os ministros que frequentam o plenário dentro da Corte não deveriam fechar os olhos e os ouvidos para as emboscadas da sorte.
Os fatos não deixam de existir porque os ministros do Supremo os ignoram. Constrangido pelas relações esmiuçadas pela PF, Toffoli foi compelido a admitir pela primeira vez ser sócio da empresa Maridt, que vendeu uma participação no resort Tayayá para um fundo ligado ao Banco Master.
O nome do fundo é Arleen. Seu gestor é o pastor Fabiano Zettel, cunhado e operador financeiro de Daniel Vorcaro. O fundo era mantido na Reag, uma gestora liquidada pelo Banco Central por envolvimento no escândalo do Master e na Operação Carbono Oculto.
Toffoli alegou que as cotas de sua empresa no resort Tayayá foram transferidas para a pirâmide do Master em 2021. Faltou explicar por que a PF encontrou no celular apreendido de Daniel Vorcaro mensagens de maio de 2024, nas quais o dono do Banco Master cobra do cunhado Fabiano Zettel pagamentos pendentes da transação do Tayayá.
As mensagens tóxicas vieram à luz neste sábado. Numa delas, Vorcaro revela-se irritado com a demora nos pagamentos ao resort. “Cara, me deu um puta problema. Onde tá a grana?”. E Zettel: “No fundo dono do Tayayá. Transfiro as cotas dele”. Vorcaro pede esclarecimentos sobre o montante. Zettel expões as cifras: “Pagamos 20 milhões lá atrás. Agora mais 15 milhões.” Quer dizer: Toffoli tem 35 milhões de razões para fugir e uma investigação criminal esboçada no relatório da PF como incontornável.
Na contramão das evidências, o Supremo ofereceu blindagem a Toffoli na reunião secreta de quinta-feira. Entre uma pancada e outra na PF, fabricou-se nesse encontro uma saída de Tofffoli da relatoria do inquérito sobre o Master “a pedido”.
A pantomima foi ornamentada com um comunicado oficial muito parecido com um escudo. Nele, os ministros descartaram, por unanimidade, a suspeição. Deram “apoio pessoal” a Toffoli. E enalteceram os “altos interesses institucionais” e a “dignidade de Sua Excelência.”
Todo brasileiro ficou desobrigado de fazer sentido depois da divulgação desse informe do Supremo. Antes do vale-tudo semântico, quando o Brasil ainda era um país lógico, investigador era aquele que investiga. Mas a maioria dos ministros acha que a Polícia Federal foi longe demais ao cumprir com a sua obrigação.
Tomado pela coreografia, o Supremo desconsidera a hipótese de autorizar a Polícia Federal a investigar Toffoli. Sugere que a PF, depois de constatar o obvio, tropece no óbvio, de bom dia ao óbvio e siga em frente, fingindo que o óbvio não é o óbvio. Os ministros parecem ignorar que, na época em que as palavras ainda tinham algum significado, a “dignidade” que atribuem a Toffoli era uma expressão comparável à virgindade. Perdeu está perdida. Não dá segunda safra.


