DA REDAÇÃO
O Tribunal do Júri condenou, na noite desta quinta-feira (14), o investigador da Polícia Civil Mário Wilson Vieira da Silva Gonçalves a dois anos de prisão, em regime aberto, pelo homicídio do policial militar Thiago de Souza Ruiz, ocorrido em 2023, em Cuiabá.

Pra não morrer. Eu atirei pra não morrer. Ele estava me enforcando pelas costas
Os jurados desclassificaram o crime de homicídio doloso, quando há intenção de matar, para homicídio culposo, quando não há intenção.
Ao ler a sentença, o juiz Marcos Faleiros determinou que a pena seja substituída por duas restrições de direitos e também revogou as medidas cautelares impostas ao policial, entre elas o uso de tornozeleira eletrônica.
O promotor de Justiça Vinícius Gahyva Martins já interpôs recurso contra a decisão do júri popular.
O julgamento, realizado no Fórum de Cuiabá, durou três dias e foi marcado por intensos debates entre defesa e acusação desde a manhã de terça-feira (12).
Thiago Ruiz foi morto no dia 27 de abril de 2023, dentro da conveniência de um posto de combustível localizado em frente à Praça 8 de Abril, na Capital.
Durante depoimento em plenário, Mário Wilson afirmou que atirou no PM para não morrer.
“Pra não morrer. Eu atirei pra não morrer. Ele estava me enforcando pelas costas”, declarou ao ser questionado pelo advogado de defesa Renan Canto sobre a motivação dos disparos.
Segundo o investigador, ele foi até o local para comprar cigarro e, ao chegar, encontrou o também policial civil Walfredo Raimundo Adorno Mourão Junior, que estava acompanhado da vítima.
De acordo com seu relato, ambos se apresentaram como policiais, mas ele disse ter duvidado da identidade de Thiago. Após a abordagem inicial, entrou na conveniência, sentou-se e foi seguido pelo PM.
Alair Ribeiro/TJ-MT

O advogado Cláudio Dalledone e o promotor de Justiça Vinícius Gahyva Martins
Imagens do caso mostram que os dois estavam sentados à mesa, acompanhados de Walfredo e do advogado Gilson Vasconcelos Tibaldi de Amorim Silva, amigo do réu. Em seguida, Walfredo se afastou, permanecendo apenas os três.
Conforme já relatado no processo, Thiago teria levantado a camiseta para mostrar uma cicatriz próxima à costela, momento em que o revólver que carregava na cintura ficou visível.
O réu afirmou que retirou a arma da vítima por suspeitar da legalidade e disse que acionaria o Centro Integrado de Operações de Segurança Pública (Ciosp). Na sequência, conforme mostram as imagens, a vítima avançou em direção ao investigador, iniciando uma luta corporal. Durante a briga, Mário Wilson foi derrubado ao chão.
O advogado Gilson chegou a retirar o revólver das mãos dos dois, mas, segundo o depoimento, Thiago passou a aplicar um estrangulamento pelas costas. Foi nesse momento que o investigador efetuou os disparos.
Após ser atingido, o policial militar se afastou correndo, enquanto os tiros continuaram. Ele morreu pouco depois de ser socorrido.
Tese do MPE
Durante os debates, o promotor de Justiça Vinícius Gahyva Martins destacou a quantidade de disparos efetuados pelo réu, ressaltando que Mário Wilson atirou dez vezes contra o policial militar. O representante do Ministério Público Estadual (MPE) também relembrou o depoimento de uma funcionária do posto de combustível, que afirmou que o investigador teria feito declarações antes do desentendimento.
De acordo com a testemunha D.C.N., de 30 anos, o investigador afirmou, momentos antes da escalada da situação: “Eu sou policial! Em uma situação de confronto, eu passaria por cima de qualquer um! Eu não consideraria amizade. Passaria por cima de qualquer um”.
Ela relatou que o investigador e a vítima discutiam sobre uma possível atuação em situação de confronto. Ainda conforme o depoimento, ao perceber o aumento da tensão, a funcionária afirmou que passou a observar a situação com mais atenção e, pouco depois, viu Mário Wilson com duas armas nas mãos.
Com medo, ela deixou o local acompanhada de uma colega e, em seguida, ouviu diversos disparos de arma de fogo.
Bate-bocas
As provocações entre o advogado de defesa, Cláudio Dalledone, e o promotor de Justiça começaram ainda durante o depoimento da primeira testemunha, a investigadora Walkíria Filipaldi Corrêa, ex-companheira do PM, e se repetiram ao longo das sessões.
Em um dos momentos, Dalledone afirmou que o promotor tentava “ensinar” a atuação da defesa e disse que “abominava” a forma como ele trabalhava.
Em outra ocasião, após uma interrupção, o advogado ironizou o representante do Ministério Público, afirmando que ele seria seu “fã” e “comentarista favorito”, além de sugerir que o seguisse nas redes sociais. O promotor respondeu que essa seria a única forma de o advogado “engajar”.
O ápice de um dos bate-bocas ocorreu durante o depoimento de Gilson Vasconcelos Tibaldi de Amorim Silva, amigo do réu e ouvido como testemunha comum de acusação e defesa. Após questionamentos do MPE, a defesa iniciou a inquirição, quando o promotor se opôs a uma das perguntas, gerando nova discussão.
Dalledone se levantou e foi até o juiz-presidente Marcos Faleiros da Silva para reclamar da conduta do promotor e insinuou que poderia causar “tumulto” no plenário. Em resposta, o representante do MPE afirmou: “O senhor já conseguiu o afastamento da juíza. Agora está ameaçando o juiz-presidente”.
Os advogados negaram qualquer ameaça e, após a troca de acusações, o magistrado determinou que não houvesse novas interrupções sem autorização.
Já no terceiro dia de julgamento, uma nova discussão foi registrada durante a oitiva de um sargento da Polícia Militar chamado apenas para análise técnica da arma. Na ocasião, após o promotor dizer “senta, senta” a um dos defensores, Dalledone reagiu em tom elevado.
“Como é que é? ‘Senta, senta’? Você não venha tratar assim advogado. Coloque-se no seu lugar. […] Tá lidando com quem? Tu é muito folgado, viu?”, disse.
O promotor rebateu: “Vocês estão criando situação para abandonar o plenário”.
Dalledone ironizou em seguida: “O senhor acha que com isso aqui eu vou abandonar o plenário? Eu não sou de abandonar plenário. Eu sou tocado de plenário”.
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