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Há certamente descontentamento com isso e aquilo, especialmente com a inflação, mas a histeria que se registra em certos setores da imprensa não está nas ruas. Mais: digamos que haja muitos desgostosos. Por enquanto, parece que dizem: “Posso estar bravo com o que está aí, mas essa gente não é uma alternativa”. Insista-se: organizaram-se em favor dos golpistas, pela elegibilidade de Bolsonaro, contra o STF e para esconjurar o governo Lula. Deu errado. Sendo assim, pior para a turma do golpe, incluindo o ex-presidente, e melhor para o Planalto e para o tribunal. Eles escolheram esse caminho e têm feito questão de colher derrotas em penca.
TARCÍSIO
Os fragmentos de discurso estão em todo canto. Atentemos para a fala de Tarcísio de Freitas, governador de São Paulo (Republicanos), que resolveu demonstrar que é, sim, bolsonarista da gema, embora tenha dispensado a camiseta amarela em favor de uma azul, também um dos uniformes da Seleção. É fato que, sobre o palanque, ele se destacava. Bolsonaro chegou a sugerir em conversa com a “Veja” que só esquenta lugar para o aliado; que conservará a sua candidatura até o limite possível para poupar o seu pupilo. Faz sentido? Até faz. O fato é que o ex-presidente fez um discurso meio abúlico, borocoxô, falando em prisão e morte — “Eu vou ser um problema para eles, preso ou morto” –, e seu aliado estava animadíssimo. Inclusive para se comportar como corte revisora do Supremo e para, ainda que indiretamente, difamar o Judiciário.
Na linha “um homem fiel”, afirmou:
“Estamos aqui hoje para lutar pela liberdade. A liberdade é uma árvore que dá frutos. E, no dia em que essa árvore morrer, os frutos vão embora. Vai embora o investimento, a segurança jurídica, a prosperidade e a própria democracia. Qual a razão de afastar Jair Bolsonaro das urnas? É medo de perder a eleição? Porque eles sabem que vão perder”.
A inelegibilidade de Bolsonaro está afeta aos tribunais: TSE hoje e STF no futuro, não há escapatória. O governador aponta aí, parece, um eixo de suposta conspiração, o que o coloca como mais um militante ativo contra os tribunais. As cortes estariam industriando suas decisões, em conluio com o governo federal, para tirar o ex-presidente do pleito. Mas prestem atenção à sutileza: “Eles sabem que vão perder”. Ainda que esteja convicto disso, é claro que ele sabe que seu aliado não será candidato. Tarcísio terá alguma sugestão sobre o nome que, acredita, pode vencer Lula? Huuummm…
Referindo-se aos condenados do 8 de janeiro de 2023, disse:
“O que eles fizeram? Usaram batom? Num país onde, todo dia, a gente assiste a traficantes indo para a rua; onde os caras que assaltaram o Brasil, que assaltaram a Petrobras, voltaram para a cena do crime, para a política, foram reabilitados, está certo isso? Parece haver justiça nisso? Então é correto que a gente garanta a anistia para aqueles inocentes que nada fizeram. Vamos lutar e garantir que esse projeto seja pautado e aprovado.”
Ele tem o direito de achar inocente quem bem entender. Mas é titular do governo de São Paulo, não um revisor de decisões do Judiciário, que, é inescapável concluir, ele resume a pessoas que “soltam traficantes”. Só para lembrar: o Brasil tem a terceira maior população carcerária do mundo, o que concorre para alimentar os partidos do crime, como o PCC — que, convenham, submeteu a Polícia de Tarcísio a múltiplas humilhações por ocasião do assassinato de Vinícius Gritzbach, delator e ex-colaborador da facção. Então o ataque brutal às respectivas sedes dos Três Poderes pode ser sintetizado assim: “pessoas que usaram batom?” Que coisa! O titular dos Bandeirantes fala em segurança jurídica, mas acha que o Congresso pode rever julgamentos do Supremo.
ZAGUEIRO E ATACANTE
Fingindo ainda atuar como zagueirão de Bolsonaro, Tarcísio enumerou supostos feitos da gestão do aliado: “criar o PIX”, “levar água para o Nordeste” e “garantir auxilio emergencial de R$ 600”. O modo de pagamento foi criado pelo BC ainda no governo Temer. Quando começou a operar, o cara não tinha noção do que era. Indagado a respeito por um seguidor, pensou tratar-se de algo ligado à aviação civil. Vejam um vídeo aqui. (https://www.youtube.com/watch?v=eXe4qHeyZlQ). Fato documentado na página do Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional (MIDR): quando Dilma deixou o governo, tinham sido concluídas 86,3% das obras de transposição do São Francisco. E o auxílio emergencial de R$ 600 foi uma decisão do Congresso.
A verdade é que o governador estava jogando no ataque em favor de si mesmo. Uma fala sua merece especial atenção porque se dirige a vários públicos. Vamos lá:
“A gente precisa passar isso a limpo para ter a pacificação, para que a gente possa se dedicar aos temas nacionais, discutir longevidade, envelhecimento da população, financiamento do SUS. Qual o grande problema? Ninguém aguenta mais inflação, porque tem um governo irresponsável que gasta mais do que deve. Ninguém aguenta mais o arroz caro, o feijão caro, a gasolina cara, o ovo caro. Prometeram picanha e não tem nem ovo. E se tá tudo caro, volta Bolsonaro”
Serei rápido num particular para ir ao que interessa: pacificar é condescender com o golpismo? Imaginem um trabalho de “pacificação” na segurança pública que passasse por um acordo entre a Polícia de São Paulo e o PCC… Sigamos.
Tarcísio sabe que Bolsonaro não vai voltar. A referência aos preços altos alude a uma das motivações do ato deste domingo: “Fora Lula 2026”, com a adesão que se viu. Não é burro e sabe que a inflação de alimentos nada tem a ver com um governo “que gasta mais do que deve”. Gasta onde? Ele poderia dizer onde quer fazer os cortes. Por que não se juntou a Fernando Haddad para impedir desonerações pornográficas? De qualquer modo, bateu no ponto fraco hoje do governo federal, pré-candidato que é. E o discurso, ainda que para público pequeno ontem, ecoa entre os mais pobres.
E há, ele sabe, como diria Padre Vieira, aquilo que os peixes pequenos não entendem, mas que os tubarões compreendem muito bem. Ao dizer que a “gente [precisa] se dedicar aos temas nacionais, discutir longevidade, envelhecimento da população, financiamento do SUS”, aí o governador já não fala com aquele que está preocupado com o preço do ovo, mas com os setores do mercado que defendem que se faça já uma nova reforma da Previdência e que se diminua substancialmente o custo do SUS.
MORTE E PRISÃO
Bolsonaro, pessoalmente, está pior hoje do que estava anteontem. Não haverá anistia. Quem quiser insistir, que vá adiante. O protesto também serviu para evidenciar que o descontentamento com o governo — e Lula era um dos alvos — só mobiliza para ato de rua o bolsonarismo radical. E Tarcísio, obviamente, é mais candidato do que nunca. Para os pobres, fala do ovo; para os nababos, de nova reforma da Previdência e de “financiamento (ou corte?) do SUS”.
“É proibido propor essas coisas?” Claro que não. Desde que se fale claramente.
Ah, sim: Bolsonaro precisa parar com essa conversa mole de “Eu vou ser um problema para eles, preso ou morto”. Hein? “Eles”, quem? Cuidado com esse raciocínio, senhor ex-presidente! Ele carrega a ideia de que sua morte geraria distúrbios produzidos pela extrema-direita, que o senhor representa, e que isso desestabilizaria seus inimigos. O senhor nunca assistiu a um filme em que conspiradores vitimam aliados para provocar o caos e, assim, obter benefícios? Não parta do princípio de que todos os que se beneficiam da sua pregação dariam a sua vida pelo senhor. Uma coisa é certa: se sua morte for útil a alguém, não será aos progressistas.
Que fique vivo e com saúde. Isso é o que se deve desejar a qualquer pessoa. Também a quem tem de acertar as suas contas com a Justiça. Quando estiver na cadeia, ficará claro: tentar desferir um golpe de estado traz graves consequências. A qualquer um. A peixes pequenos e a tubarões.

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