O macho de onça-pintada Gaspar fez uma jornada épica entre o Cerrado e Amazônia, caminhando quase 10 quilômetros diariamente, por 381 dias sem parar.
A distância percorrida pelo felino totalizou 2,1 mil km de distância, um recorde da espécie que fez o animal ser tema de um estudo científico liderado pelo Instituto Onça-Pintada e publicado na revista Ecology.

O estudo, conduzido por pesquisadores brasileiros e estrangeiros e coordenado pelo diretor do Instituto, Leandro Silveira, contém informações de extrema importância não só para o conhecimento da rotina de Gaspar na natureza, mas para a conservação da espécie de forma geral.
Conforme os dados, a onça-pintada percorreu florestas, campos, fazendas de gado, plantações e estradas, deixando um “rastro” sobre o comportamento dos felinos e os desafios enfrentados por eles na vida selvagem.
Gaspar foi capturado em novembro de 2024 por membros do Instituto, quando recebeu um colar com GPS possibilitando o rastreamento desde então. As localizações exatas percorridas não foram divulgadas no estudo.
De acordo com Silveira, o chamado Corredor do Rio Araguaia, região analisada no estudo, é estratégico para a conservação da espécie n Brasil, por conectar os biomas.
A estimativa da equipe é que 70% do corredor esteja em áreas de reserva legal de propriedades rurais ou em unidades de conservação. Ao todo, são 57 áreas protegidas, além de fazendas e plantações.
Quando foi capturado, os pesquisadores estimaram que Gaspar tinha cerca de 8 anos. Era um macho de meia-idade, pesava 92 kg, considerado porte médio para uma onça-pintada, e permaneceu inicialmente na área onde foi capturado, em Goiás. Na região, ele ocupou um território de 697 km² às margens do Rio Araguaia.
Os cientistas não sabem onde ele nasceu, mas acreditam que a área da captura fosse seu território, embora não necessariamente seu local de origem.
O que explica o deslocamento?
Ainda conforme Leandro Silveira, a jornada de Gaspar pode ser explicada pelo comportamento de migração dos machos de onça-pintada em busca de novos territórios e oportunidades de reprodução da espécie.
A extensão desse deslocamento depende da paisagem, da disponibilidade de presas e de fêmeas, além da presença de outros machos.
A maior parte dos estudos monitora as onças dentro de seus territórios, e não durante esses deslocamentos, que costumam atingir cerca de 120 quilômetros. Pesquisas realizadas no Brasil e na Argentina estimam que o território de uma onça-pintada varie entre 120 km² e 1.200 km².
Colar de Gaspar deixou de emitir sinais
A explicação para a distância percorrida por Gaspar ainda não foi encontrada. O último sinal do colar do animal chegou aos cientistas em novembro do ano passado.
O coautor do estudo, Jon Morant, da University College Dublin, na Irlanda, afirmou à revista New Scientist que a coleira do felino deixou de emitir sinais desde novembro do ano passado e que, agora, o paradeiro dele é um mistério.
Morant trabalha com as possibilidades de que Gaspar possa ter sido caçado, baleado em retaliação ou atropelado. Por outro lado, o pesquisador também avalia que o animal possa ter se estabelecido em alguma região de floresta entre os trechos que percorreu.