![]()
Precisamos dessa outra visão de futuro também porque o trabalho é a dimensão da vida que mais nos trai no cenário atual. Talvez já tenha ficado para trás o tempo em que se esperava a redenção pelo trabalho, a superação de todo infortúnio por meio laboral. Tem desaparecido a quimera do imigrante que chega ao país e constrói um império a partir de quase nada. Tem desaparecido até a noção de que se poderia abrir um pequeno negócio e vê-lo inesperadamente prosperar. Num mundo saturado e concorrido, num mundo de competição desigual, não parece existir esse espaço.
Há quem se indigne por isso com o governo da vez, quem queira mudar o rumo em qualquer direção, contanto que algo mude. Perde de vista que se trata de um problema mais vasto, que outros tantos já têm denunciado: é o esgotamento do próprio capitalismo, a concentrar cada vez mais riqueza e poder nas mãos de uns poucos, a se fazer assim cada vez mais exploratório. Daí justamente a luta contra a escala opressiva e o trabalho desregrado, luta essencial do novo século. É o combate direto contra aquilo que nos mói, aquilo que destrói tanto o corpo quanto o sonho, o pensamento, a ilusão, aquilo mesmo que tem gerado o desalento político que nos faz tão mal.
Trabalhar para viver, e não viver para trabalhar. Esse novo grito reordena os verbos, devolve uma palavra ao exato lugar que lhe cabe. Um escritor descobre as palavras inescapáveis de uma época pelo modo como elas insistem, e já há algum tempo tenho notado em cada texto que escrevo a recorrência do verbo “viver”, do substantivo “vida”, do adjetivo “vivo”. Não me surpreende, tornou-se quase um imperativo afirmar o desejo por mais vida na arte, mais vida na poesia, mais vida no trabalho, mais vida no tempo, mais vida na política. Nenhuma surpresa, assim, que a palavra vida tenha se tornado um largo horizonte de luta.
Em oposição a um projeto fundado na centralidade da vida, há uma política versada na morte. Quanto ficou marcada pela morte a passagem de Jair Bolsonaro na presidência? E quanto o próprio discurso de seu campo está marcado pela morte, pela vontade de metralhar seus inimigos, pela disseminação das armas e o direito de matar, pelo incentivo a desmatar que é uma forma de extermínio? E quanto esse projeto inventa também todo tipo de restrição à vida, às liberdades que sua moral desaprova, à vida do homem gay que é Rick, da mulher trans que é Erika. Nenhum acaso que essa direita seja tão bem descrita no conceito de necropolítica.
É contra a necropolítica que se faz a defesa enfática da vida. Foi contra a dissolução da vida por uma morte diária, lenta, quase despercebida e ainda assim opressiva, que se deu a vitória importante da última quarta-feira. Por uma vida além do trabalho, por uma vida afeita à vida, sim, é nessa tautologia que se afirma com insistência o nosso maior desejo.

Deixe um comentário