Virada, se vier, será de jovem que não votou no 1º turno, diz especialista

A sondagem aponta que, em 2018, 82% dos eleitores que votaram em Bolsonaro no 1º turno fizeram o mesmo no 2º. Em 2022, o patamar foi ainda mais elevado: 92% de taxa de retenção. Como efeito de comparação, a taxa de retenção da direita tradicional (representada pelo PSDB entre 2002 e 2014) oscilou entre 63% e 76%. “Em 2026, é provável que Flávio Bolsonaro também consiga sustentar uma taxa de retenção de votos bastante elevada”, afirma o cientista político Thiago Moreira, professor da UFMG e um dos autores do estudo.

Fim de jogo? Não. Para Moreira, diretor do Centro de Estudos de Comportamento Político (Cecomp), as possibilidades de uma virada passam pela ativação dos eleitores que se abstiveram no 1º turno, especialmente os jovens. “Eles são um contingente numeroso e tiveram a maior abstenção entre o contigente de voto obrigatório [de 18 a 70 anos], da ordem de 25%”. Na 4a feira (14), Moreira conversou com a coluna por videochamada. Veja os principais destaques da conversa.

Seu estudo aponta que Jair Bolsonaro atingiu uma retenção de 92% no 2º turno de 2022. Esses dados refletem a chamada “calcificação” do eleitor brasileiro?
Thiago Moreira O que a gente tem visto é que o bolsonarismo consegue uma alta taxa de retenção do 1º para o 2º turno e também de uma eleição para outra. Quem votou em Jair Bolsonaro em 2018 tendeu a votar em Flávio em 2022. Tudo aponta para isso [a calcificação]: que existe de fato uma maior identidade do eleitor ultimamente e que a volatilidade provavelmente diminuiu. O que os estudos apontam é que se trata de uma polarização mais afetiva do que ideológica. A natureza dessa calcificação é muito mais identitária do que propriamente programática.

As demandas dos eleitores estão se transformando?
Thiago Moreira
O que a gente vê é que bolsonarismo está conseguindo tornar o eleitor brasileiro mais conservador. Pouca gente fala disso: a oferta pode criar demanda. Em 2018, os eleitores nem eram tão conservadores, mas na medida em que eles votaram no Bolsonaro, eles se tornam mais conservadores porque ajustam suas preferências às do líder. O brasileiro está se tornando mais conservador cada vez mais por um ajuste da demanda à oferta. O candidato fala tanto daquilo que o eleitor se ajusta. Ele vira conservador em determinados tópicos basicamente seguindo a oferta.

Diante da rigidez do eleitorado, qual é a probabilidade de haver uma virada no 2º turno?
Thiago Moreira
As possibilidades passam muito mais pela ativação do voto do que pela conversão. O que é ativação? É mais possível você converter aquelas pessoas que não foram votar, mas que têm alguma predisposição de votar no Lula, ou contra o bolsonarismo, ou pela democracia, do que você trazer uma pessoa de direita para votar na esquerda. Isso é muito raro de acontecer. Converter vai ser muito difícil. A principal chance está na ativação.

Por que uma eventual virada vai depender da ativação dos jovens que não votaram no primeiro turno?
Thiago Moreira
Porque os jovens são um grupo numeroso e tiveram a maior abstenção entre o contigente de voto obrigatório [de 18 a 70 anos], da ordem de 25%. Se tem muita gente se abstendo, é basicamente pegar esse voto da abstenção e somar com o voto que ele [Lula] já teve. O caminho da mobilização dos estudantes em várias cidades é um sinal nesse sentido, porque esses jovens podem convencer outros jovens a ativar o voto de pessoas que não estão calcificadas.

Um grande escândalo político na reta final teria o poder de descalcificar o voto do eleitorado e alterar o resultado do 2º turno?
Thiago Moreira
Descalcificar, não. O que está decidindo as eleições é aquele eleitor mais independente. O que move a eleição são os 10 a 15% que vão dar a vitória para um ou para o outro candidato. Esses podem ser impactados.

Em relação ao cenário para 2026 com Flávio Bolsonaro representando a direita, a avaliação é que a retenção de votos observados com Jair Bolsonaro se manterá?
Thiago Moreira
Sim. Ele [Flávio Bolsonaro] está conseguindo de alguma forma alinhar um eleitorado mobilizado afetivamente. O PSDB não conseguiu. O bolsonarismo é de alguma forma mais bem sucedido do que o PSDB nesse sentido de fidelizar mais as pessoas para as preferências das lideranças. Nosso estudo aponta que esse fenômeno, que é o bolsonarismo, vai ser duradouro. Não vai perder e ir para casa. O que a gente pode estar vendo agora é que a polarização afetiva pode, no médio prazo, produzir uma polarização ideológica.

Fonte


Publicado

em

por

Tags:

Comentários

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *