Frente ampla de Lula encolheu

Em grande medida, Lula deve seu terceiro mandato à frente suprapartidária que se formou contra a reeleição de Bolsonaro e aos eleitores que, mesmo sem aderir ao petismo, votaram pela mudança de governo. No palanque, Lula havia prometido governar para todos. Em outubro de 2022, num ato no Teatro da PUC-SP, o Tuca, Lula prometeu: “Se eleito, farei um governo para além do PT”. A plateia incluía personagens como os economistas Persio Arida, um dos formuladores do Plano Real, e Henrique Meirelles, ex-ministro da Fazenda de Michel Temer.

Os ataques do 8 de janeiro foram um aperitivo do que estava por vir. Lula assumiu o Planalto com um pedaço da população pedindo intervenção militar na porta dos quartéis. A conspiração sobreviveu às urnas.

De volta ao Planalto, Lula se deparou com a evidência de que Bolsonaro normalizara o golpismo. Fez dois gols. Ambos contra. Num, potencializou a polarização. Noutro, esvaziou a frente ampla. Esqueceu que a vitória de 2022 veio por pequena margem — apenas 1,8 ponto percentual. Desperdiçou a possibilidade de ampliar sua base de apoio. Afugentou cedo demais parte dos que haviam apoiado sua candidatura não por adesão ao petismo, mas para impedir a continuidade de Bolsonaro.

Hoje, alguns empresários que deram peso à frente de Lula em 2022 preferem a proximidade com o filho de Bolsonaro. Economistas como Pedro Malan, Pérsio Arida e Edmar Bacha, pais do real, optaram pelo silêncio. O encolhimento da frente ampla é notável. A oito dias do segundo turno, o manifesto que se opõe à volta da família Bolsonaro ao Planalto atraiu um contingente que cabe em três Fuscas.

Vai abaixo a íntegra do manifesto divulgado neste sábado:

Pela democracia, pela estabilidade, pelo desenvolvimento com justiça social e ambiental e pelo Brasil.

Uma declaração de apoio à reeleição de Lula e Alckmin.

Neste segundo turno, o Brasil está diante de uma escolha que ultrapassa diferenças partidárias e preferências ideológicas. Está em jogo a capacidade do país de preservar a estabilidade institucional, o equilíbrio entre os Poderes, as liberdades democráticas; de enfrentar a crise climática, cuidar de nossos biomas, dos povos indígenas, das comunidades tradicionais e de toda a população sacrificada pela acentuada desigualdade social. Está em risco um caminho capaz de levar ao desenvolvimento econômico com justiça social, soberania e paz.

Nós, que temos distintas origens, trajetórias e visões sobre muitos dos desafios nacionais, entendemos que, sobretudo nos momentos de maior polarização, a democracia é o nosso norte comum, e ela exige responsabilidade, respeito às instituições e compromisso inequívoco com a Constituição.

Consideramos que a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva oferece ao país melhores condições para assegurar esse equilíbrio institucional, preservar direitos e liberdades, manter canais de diálogo entre diferentes setores da sociedade e com espaço geopolítico global, e evitar retrocessos institucionais, preservando conquistas sociais, trabalhistas, educacionais, na saúde pública e na proteção ambiental. Ao mesmo tempo vemos, no projeto representado por Flávio Bolsonaro, ameaças a esses princípios, intenções de desarticular patamares de conquistas sociais já consolidados e riscos à interlocução internacional multilateral consagrada pelo Brasil.

O Brasil precisa crescer, gerar empregos, estimular a inovação, recuperar sua capacidade industrial, estimular a agricultura de baixo carbono, avançar na educação, criar oportunidades para seus cidadãos e corrigir erros, onde isso se fizer necessário.

Esse desenvolvimento deve estar associado à estabilidade econômica, à ciência, à tecnologia e à responsabilidade ambiental, com a preservação de nossas riquezas naturais. Florestas, água, biodiversidade e minerais estratégicos são parte da soberania brasileira e devem contribuir para o desenvolvimento do país, com uso responsável desses recursos e compromisso com as futuras gerações.

Também consideramos indispensável que o próximo governo respeite a diversidade da sociedade brasileira, proteja direitos fundamentais, sem transformar adversários políticos, instituições públicas, universidades, imprensa ou organizações da sociedade civil em inimigos.

Muitos de nós temos diferenças com o presidente Lula e críticas a seu governo, e preservaremos nossa independência para expressá-las. É justamente por valorizarmos o pluralismo que fazemos esta escolha. Antes de apoio a um nome, esta manifestação é de apoio ao Brasil, ao nosso espaço nacional e aos seus valores fundamentais comuns.

Assinam este documento:

Aloysio Nunes Ferreira

Beatriz Bracher

Beatriz Cardoso

Carlos Nobre

Claudia Costin

Eduardo Giannetti

Fabio Feldman

Floriano Pesaro

José Carlos Carvalho

Fonte


Publicado

em

por

Tags:

Comentários

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *