Psicóloga cria grupos de escuta para combater ansiedade nas eleições

A saída é pelo coletivo

Desde o começo da pandemia do novo coronavírus, Mariana abre espaços presenciais e online de escuta e cuidado coletivo para quem sente na cabeça e no corpo a pressão e as preocupações políticas desses tempos. E elas não são poucas.

“Cada pessoa acaba sentindo esse momento de uma forma”, explica a psicóloga. “Tem gente, por exemplo, que fica muito paralisada, num reflexo de susto. A respiração encurtada, com as ações enrijecidas”. Outras, observa, se jogam com tudo em grupos e movimentos na direção do que acreditam. Ou do que precisam defender. Seja um caminho, seja outro, o desgaste mental e emocional acontece.

Mariana explica que em situações como essa, o melhor caminho para se cultivar bem-estar e saúde emocional é sempre junto. Feito os encontros que têm puxado, que são em grupo. “Eu acredito muito que os espaços coletivos diluem um pouco as coisas em um comum e constroem uma comunidade, sabe”.

É que em roda, explica, as pessoas ganham um espaço seguro para nomear o que sentem, passam a se perceber não tão sozinhas assim em suas dores e preocupações. E é quando os sentimentos e sensações encontram, pouco a pouco, os seus tamanhos no mundo. Uma angústia trancada dentro de casa, ou dentro da gente, assusta porque não tem comparações. Porque não tem nada para botar do lado, para medir.

“Em grupo, acontecem processos de identificação e diferenciação. Eu posso me espelhar no outro, me diferenciar do outro, e isso vai fazendo com que as minhas problemáticas ganhem outros contornos”, defende Mariana. “É preciso desmontar esse corpo do susto para poder organizar essas sensações de outras maneiras”.

O papel das telas

A hiperdigitalização da vida, que só cresce, transforma tudo em pensamento. Sobra quase nada para o corpo físico, para as sensações. Soma-se a isso a enxurrada de estímulos recebidos diariamente em época de eleição e, pronto. A tempestade perfeita para tantos casos de ansiedade.

“O tempo inteiro as pessoas estão consumindo conteúdos e acho que isso puxa muito a gente para a racionalidade, para os olhos. Para uma cisão entre a mente e o corpo”, observa Mariana, que aponta uma desconexão cada vez maior entre o corpo físico e os sentidos, o que nos empurra cada vez mais para a nossa própria ansiedade.

“A gente acaba produzindo um corpo que só pensa, só repete, só faz. Um corpo que sente muito pouco daquilo que está vivendo”. Por isso, ela explica que em um dos grupos que puxa, o exercício nesse momento é justamente voltar à sensorialidade como maneira de se cuidar. Olhar para coisas como a própria respiração, por exemplo. Ou algum trabalho manual.

Há quem queira e consiga estar na linha de frente das manifestações, mas tudo bem, também, oferecer seu tempo para cortar a cartela de adesivos em defesa de direitos conquistados no suor de tantas lutas. Nos espaços de cuidado coletivo construídos por Mariana, aos poucos cada pessoa encontra seu caminho, a sua contribuição. Sem se atropelar emocionalmente até chegar lá.

“Ir à manifestação é produzir saúde, entrar no coletivo dos seus amigos é produzir saúde, criar lambe é produzir saúde”.

É tudo culpa do excesso de informação?

A experiência de Mariana aponta que não. Todo processo eleitoral envolve a disputa por um futuro que se deseja habitar. Alguns são excludentes, outros inclusivos. As escolhas de cada pessoa refletem as ideias de sociedade que ela gostaria de ver materializadas. Por isso, entre o voto e o resultado, a ansiedade também nasce dessa incerteza sobre os rumos que a sociedade vai tomar.

A psicóloga diz que “quando escolhemos caminhos políticos, a gente imagina um mundo em que a gente deseja estar”, o que traz muita insegurança para tantas pessoas que veem suas maneiras de ser e estar no mundo ameaçadas. Quando um dos lados diz que minorias políticas precisam se curvar a maiorias sociais, por exemplo. O que, aliás, vai contra toda e qualquer ideia de política como um espaço público de mediação e produção das melhores condições possíveis de vida para todos os seres.

“Tudo isso que estamos vivendo causa ansiedade porque é uma ameaça ao mundo que se conhece, né. Então a gente fica com medo de perder o que já tem e antecipa o processo de luto”, observa. É quando tem gente que corre para a rua, tem gente que corre para dentro de si mesma.

Da forma como tem sido feita por uma parte da sociedade nos últimos anos, “a política tem produzido muito sofrimento”, finaliza Mariana. Ainda bem que espaços como os criados por ela têm pavimentado um caminho contrário: construído com cuidado coletivo, esperança e jeitos de agir que respeitam os limites de cada uma.

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