PF investiga R$ 1,4 bi em transações entre amigo de Flávio e site de aposta

Willer e Flávio Bolsonaro são amigos, viajaram juntos para o exterior algumas vezes nos últimos anos e mantêm convívio familiar. Como revelou o UOL, e-mails em posse da PF indicam que o candidato e o advogado dividiram uma conta no banco Santander. Ambos negam.

Indícios da relação de Willer com bets surgiram para a PF no curso de uma investigação sobre lavagem de dinheiro e evasão de divisas envolvendo plataformas de apostas. Willer sustenta ser viciado em jogo. Ele entrou com uma ação contra a Blaze para tentar reaver R$ 163 milhões que diz ter perdido em apostas por causa do suposto vício e de falhas da plataforma.

A investigação da PF se baseia em dados obtidos no iCloud do advogado -o serviço de armazenamento de arquivos da Apple-, e relatórios do Coaf (Conselho de Controle de Atividades Financeiras) que apontam movimentações consideradas suspeitas entre contas pessoais, empresas ligadas a Willer e plataformas de apostas. Entre as empresas analisadas, estão RioPag, Pixs, Embrasis, Cathedral Holdings e Alcazar Holdings.

Também chamaram a atenção dos investigadores movimentações de R$ 130 milhões na conta pessoal de Willer no banco digital Magnum Bank entre março e maio de 2025.

A PF identificou circulação de recursos entre diferentes contas e transferências fracionadas, o que costuma indicar uma tentativa de driblar a fiscalização das autoridades.

No relatório da Polícia Federal sobre as transações entre as empresas ligadas a Willer e a Blaze, há destaque para uma pulverização de valores em março de 2025.

Naquele mês, créditos de R$ 2,05 milhões, sendo R$ 1,05 milhão da Embrasis, entraram na conta pessoal de Willer no Magnum Bank e foram pulverizados em transferências sucessivas de R$ 100 mil para a Foggo, operadora da Blaze.

Para a PF, o caso repete um padrão de entrada de valores altos seguida de pulverização rápida, quando o dinheiro é dividido em várias transferências menores logo depois de chegar.

Da mesma conta no Magnum saíram também transferências únicas de cerca de R$ 500 mil, R$ 5 milhões, R$ 6 milhões e R$ 13 milhões. O dinheiro foi para a RioPag, que processa pagamentos de bets e pertence à Embrasis, e para outras contas do próprio Willer.

A PF suspeita que parte das empresas ligadas ao advogado não tenha atividade operacional efetiva, ou seja, seja somente de fachada.

Entre os sinais apontados estão empresas teoricamente independentes que usavam a mesma sala, tinham sites padronizados e foram abertas em datas próximas.

O relatório cita ainda a mesma diretora financeira em empresas diferentes e telefones compartilhados. Algumas não tinham estrutura física, empregados ou atividade comercial proporcional ao dinheiro que circulava.

“O fracionamento e a passagem dos valores por diferentes contas poderiam servir para reduzir a transparência do fluxo financeiro, criando camadas sucessivas de movimentação”, afirma a PF no relatório.

A PF registrou apostas altas de Willer desde 2023 e o uso de uma conta vinculada à mãe dele, Elza Tomaz de Souza. Em alguns dias, o volume movimentado em plataformas pela conta pessoal do advogado passou de R$ 35 milhões.

Para os investigadores, as transações com as bets tinham valores “aparentemente incompatíveis com a dinâmica ordinária de jogos reais”.

Os investigadores desconfiam que as apostas tenham sido utilizadas para fazer os mesmos recursos circularem repetidamente, gerando um volume elevado de transações sem a entrada equivalente de dinheiro novo.

A Polícia Federal levanta ainda a hipótese de que parte das perdas declaradas pelo advogado tenha sido aceita como custo dessa movimentação. A PF cita registros de saques no exterior como um dos elementos que reforçariam a suspeita.

“Apostas poderiam funcionar como um mecanismo de turnover, com a reaplicação sucessiva do mesmo capital dentro da plataforma e posterior retirada de parte dos valores já vinculados formalmente à atividade do jogo. Essa linha ganha relevância diante de registros de que Willer fez saques no exterior”, diz a PF.

Apesar de a movimentação toda de dinheiro identificada pelos investigadores terem somado R$ 1,4 bilhão, não é possível afirmar quanto o advogado investiu inicialmente na operação.

PF apura possível elo entre Willer e Blaze

A investigação também analisa o papel do empresário Edson Antônio Lenzi Filho, executivo da empresa de pagamentos PayBrokers, como um possível elo entre Willer e a Blaze.

Lenzi foi sócio da RioPag, empresa que processava pagamentos de plataformas de apostas credenciadas pela Loterj (Loteria do Estado do Rio de Janeiro).

A RioPag passou ao controle da Embrasis, ligada a Willer, em duas etapas: a aquisição de 50% em março de 2023 e dos outros 50% em fevereiro de 2024, conforme documentos da Junta Comercial do Paraná obtidos pelo ICL e pela Folha de S.Paulo.

Empresas administradas por Lenzi também utilizaram um endereço anteriormente associado à Foggo Entertainment em Curitiba.

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