Foto: Wilton Junior/EstadaoBRASÍLIA – O novo presidente da Frente Parlamentar Evangélica (FPE), deputado Gilberto Nascimento (PSD-SP), afirmou em entrevista ao Estadão que não vai fazer oposição ao governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Nascimento, porém, disse que os evangélicos sofrem com a situação econômica e criticou mudanças de posição por parte do Executivo.
Gilberto Nascimento foi eleito líder da bancada evangélica nesta terça-feira, 25, ao vencer o deputado Otoni de Paula (MDB-RJ) em meio a racha na Frente. Ele foi apoiado pelo ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), mas evitou falar sobre a denúncia da Procuradoria-Geral da República (PGR) e a anistia aos condenados pelos atos de 8 de Janeiro, temas caros ao ex-chefe do Executivo.
Nascimento se apresenta como um “conciliador”, que vai transformar a Frente em uma bancada propositiva após polêmicas de gestões anteriores, como o projeto de lei que equipara o aborto ao crime de homicídio. O novo presidente afirma, porém, que a FPE vai continuar com pautas de costume prioritárias.
Nascimento disse ainda que o pastor evangélico Silas Malafaia, aliado de Bolsonaro, que foi um dos fiadores da campanha dele à presidência da bancada, não vai ter influência sobre as decisões futuras. Ele também vai passar o bastão, no ano que vem, à deputada Greyce Elias (Avante-MG), que era candidata ao pleito, mas desistiu em favor do deputado do PSD e se tornou vice-presidente da FPE.
Leia mais
Quais vão ser as pautas prioritárias da frente nesta nova gestão?
Continua as mesmas pautas que estão aí. Hoje nós somos contra o aborto, entendemos que a legislação que está aí já protege dentro da legalidade. Em que pese nós somos a favor da vida desde a sua concepção e nós somos contra a liberação dos jogos de azar e a flexibilização da Lei Antidrogas e contra o feminicídio. Mas a Frente não pode ficar somente nessas pautas, nós queremos como Frente discutir o Brasil, discutir a economia do Brasil que, na minha forma de ver, tem muitas dificuldades hoje. Os membros da Frente Parlamentar também tem ideias para isso. Nós achamos um absurdo a questão da dívida interna, que está virando impagável, e os juros que pagamos todos os dias.
Os últimos presidentes da FPE fizeram oposição ao governo Lula. O senhor vai fazer?
Não. Eu acho que a Frente Parlamentar Evangélica não deve ser uma frente de oposição ou de governo, ela tem que ser uma frente propositiva, que discuta o Brasil e os seus pontos de vista. A Frente Parlamentar tem todas as tendências, desde o PSOL até o PL. Você pode fazer oposição sistemática dentro dos partidos. Então que façam dentro dos seus partidos porque a Frente vai ser do diálogo e propositiva.
Qual vai ser a posição da bancada evangélica sobre a anistia?
A anistia é uma questão partidária. Não é uma coisa que a Frente vai discutir, eu acho que cada partido vai discutir e, logicamente, os deputados vão estar na posição dos seus partidos. Não é uma coisa que tem a ver com a Frente Parlamentar.
E a posição pessoal do senhor sobre a anistia?
Eu não gostaria de falar aqui. Eu sou presidente da Frente, e como presidente da Frente, eu preciso me preservar quanto a isso.
Sobre a denúncia do ex-presidente Jair Bolsonaro e os outros 33 denunciados pela PGR? Qual a posição do senhor e da Frente?
A Frente como Frente defende a ampla defesa, o contraditório, e o devido processo legal. Não podemos nos posicionar como partidos. É natural que o posicionamento dos parlamentares seja feito por meio dos partidos. Os partidos é que tem que ter esse papel.
Mas e a opinião do senhor? Porque ele foi um fiador da sua campanha…
Eu acho que tive, graças a Deus, o apoio de várias correntes. Como presidente da Frente, eu entendo que essa denúncia tem que ser analisada. Espero que se faça justiça, com ampla defesa e contraditório.
Vai haver um revezamento com a deputada Greyce Elias?
Eu fui eleito para um mandato de dois anos, portanto não cabe a minha parte uma renúncia. Eu a convidei para ser a minha vice. Eu vou, se Deus quiser, a partir de março do ano que vem, me licenciar da presidência da Frente e ela vai assumir.
O que aconteceu com a Frente que foi necessária uma votação ao invés de uma eleição por aclamação?
Quando não se devia tomar algumas decisões políticas, foram tomados como Frente e isso acabou causando exatamente esse desacordo. A Frente tem várias correntes, e o fato de tomar posições como “eu estou aqui, eu sou contra aqui e sou favor aqui” acabou levando a isso.
Então o senhor vai corrigir esses erros?
Eu vou tentar fazer com que a Frente tenha uma posição de muito equilíbrio, respeitando as posições de cada partido.
Um outro fiador da sua campanha foi o pastor Silas Malafaia. Qual foi a atuação dele na campanha? Ele vai ter um papel na condução da Frente?
É meu amigo de longa data. Ele tem a forma dele de fazer a análise dos fatos. Não é aquela coisa de influenciar ou não vai influenciar. É claro que ele é uma voz que todo mundo ouve. Ele entende que existem os partidos.
O senhor vai fazer algum movimento para desengavetar o PL do Aborto?
Eu só vi comentários a respeito do projeto, eu não conheço o projeto ainda. Eu acho que hoje, a questão do aborto tem uma legislação que dá proteção, como a questão do estupro e uma série de quesitos. A lei que está aí já atende bem a sociedade. O que a gente não pode fazer é incentivar essas questões.
As pesquisas mostram uma crescente desaprovação do governo Lula entre os evangélicos. Os evangélicos se sentem beneficiados pelo governo Lula ou não?
Os evangélicos são uma parcela da população. Então, 30% da população são evangélicos. Enquanto os 70% sofrem com determinadas situações, os outros 30% sofrem também. Na hora que você vai ao supermercado, o supermercado não tem um preço para o evangélico e do não evangélico. Então todos estão sentindo os mesmos problemas. O preço dos produtos vão subindo, a inflação vai se descontrolando. Quando a pessoa vai pagar a escola do filho dela, já ficou mais caro. Quando vai pôr gasolina, ficou mais caro. Então é natural que as pessoas tenham o mesmo sentimento de desaprovação.
O senhor acha que o governo toma posições em pautas caras como o aborto, mas depois volta atrás? Como por exemplo o presidente ter dito que é contra o aborto mas ter havido uma nota técnica do Ministério da Saúde buscando ampliar o procedimento…
Eu vejo isso com uma certa preocupação sim. Existem situações assim. Eu até acho que o governo não devia se mexer com essas coisas. Eu acho que o governo deveria se preocupar com questões de inflação, segurança pública e tantas outras questões. Essas pautas dividem muito a sociedade, então para que mexer nisso?
Então essa gestão não vai ter polêmicas como as anteriores?
Eu espero, depende do que o governo mandar para cá e as posições que o governo se colocar. Se o governo decidir, por exemplo, ampliar a criação de cassinos, é claro que a Frente vai se posicionar, e de forma direta, porque fere diretamente a gente. Se criar mais liberações para o aborto, nós vamos nos posicionar sim. Então, tudo aquilo que nós formos provocados a fazer, nós vamos estar muito atentos a fazer.
O senhor pretende se reunir com o presidente Lula?
Não, nunca me passou isso, até porque a Frente talvez não tenha essa necessidade.




Deixe um comentário