Promotoria denuncia ‘empresários do crime’ e policiais aliados do PCC

O Ministério Público Estadual de São Paulo (MPE-SP) denunciou dois delegados, seis investigadores, dois empresários e um advogado e a mulher de um dos policiais em razão das investigações sobre a delação feita pelo corretor de imóveis Antônio Vinicius Lopes Gritzbach. Com a exceção de um delegado e de Danielle Bezerra dos Santos, todos estão presos.

Entre os denunciados está o delegado Alberto Pereira Matheus Júnior, que era o chefe da Delegacia Seccional de São José dos Campos. Matheus é um delegado classe especial, o mais alto estágio da carreira policial civil. Desde 2008 um delegado desse nível hierárquico não era denunciado criminalmente em São Paulo. Ele é acusado de corrupção passiva, lavagem de dinheiro e formação de quadrilha.

O Grupo de Atuação Especial e Repressão ao Crime Organizado (Gaeco), do MPE, pediu à Justiça que Matheus seja afastado de suas funções e seja impedido de manter contato com os demais acusados do caso. Deverá ainda ser proibido de frequentar delegacias de polícia e pagar fiança de R$ 100 mil a fim de responder ao eventual processo em liberdade. O Estadão não conseguiu localizar sua defesa.

Parte dos denunciados pelo Gaeco foi alvo da Operação Tacitus, da Polícia federal, deflagrada em 17 de dezembro de 2024, pouco mais de um mês do assassinato de Gritzbach, no Aeroporto Internacional de São Paulo, em Guarulhos, em 8 de novembro de 2024. Gritzbach acusava os policiais de terem recebido R$ 30 milhões em propinas para acobertar os crimes de bandidos do Comando da Capital (PCC).

A polícia prendeu três PMs como executores do crime e acusou dois traficantes do PCC como os mandantes do crime – eles acusavam Gritzbach de ter mandado matar o traficante Anselmo Bechelli Santa Fausto, o Cara Preta, um dos chefes do tráfico do PCC para quem Gritzbach lavava dinheiro em operações imobiliárias.

Entre os que foram presos durante a Operação Tacitus, o MPE denunciou os investigadores Marcelo Marques de Souza, o Bombom, e Marcelo Roberto Ruggieri, o Xará, por embaraçar investigações e lavagem de dinheiro. O investigador Eduardo Lopes Monteiro foi acusado de embaraçar investigações, lavagem de dinheiro, corrupção passiva, peculato e formação de quadrilha. O policial Rogério de Almeida Felício, o Rogerinho, e o delegado Fábio Baena Martin foram acusados de embaraçar investigação, lavagem de dinheiro, formação de quadrilha, corrupção passiva e peculato

Além deles, dois outros policiais também foram acusados de envolvimento na organização criminosa: Valdemir Paulo de Almeida, o Xixo, e Valmir Pinheiro, o Bolsonaro. Ambos já estavam presos em razão de outro caso de corrupção eles terem recebido R$ 800 mil do traficante internacional de drogas João Carlos Camisa Nova Júnior, o Don Corleone, preso após a Operação Calgary da PF. Xixo foi acusado de corrupção e embaraço às investigações. Bolsonaro foi denunciado pelo Gaeco por embaraçar as investigações sobre o PCC

Além dos policiais, os promotores do Gaeco pediram a prisão preventiva de Danielle Bezerra dos Santos, mulher de Rogerinho. Ela teria se envolvido com a lavagem de dinheiro obtido com a corrupção policial e com a organização criminosa. Segundo o Gaeco, “se trata de denunciada ligada a faccionados do alto escalão do PCC, que se utilizou de grave ameaça em suas condutas e que atuou diretamente para ocultar provas e objetos dos crimes ligados ao seu companheiro e também denunciado Rogério de Almeida Felício”.

Por fim, os promotores denunciaram os empresários Ademir Pereira de Andrade e Robinson Granger de Moura, o Molly, e o advogado Ahmed Hassan Saleh, o Mude. Todos são acusados de participar do esquema bilionário de lavagem de dinheiro do tráfico internacional de drogas na compra de imóveis de alto padrão, carros e empresas. Eles fariam, segundo os promotores, parte da organização criminosa que buscava o controle territorial a fim de gerenciar as atividades desenvolvidas pelos integrantes do PCC de forma eficaz. Para o Gaeco, Molly e Pereira são “os empresário do crime”.

De acordo com os promotores, a gravidade concreta das condutas dos acusados é “revelada pela íntima associação entre agentes públicos e particulares para o fim de se servirem da estrutura do Estado, de seus recursos materiais e humanos, fazendo dele um instrumento para obtença o de suas vantagens patrimoniais ilícitas”.

Os promotores prosseguiram, afirmando que, “por si só ja merecedor de reprovação, o conluio assume aspecto ainda mais grave ao se verificar que tem como partes, por um lado, servidores que atuam em órgãos de segurança pública, por outro, ‘empresários’ do crime, isto é, por um lado, falsos agentes da lei, por outro, homens de dinheiro”.

A denúncia do Gaeco afirma então que o caso se caracteriza pelo “uso espúrio de um órgão d o de Estado destinado à tutela da Segurança Pública, a Polícia Civil, por ocupantes de relevantes postos – seja de Delegado, seja de Investigador – que se aliam a particulares que enriqueceram com os frutos do crime e, estabelecendo relação simbiótica, logram obter vultosas vantagens patrimoniais, empregando, para tanto, quaisquer que sejam meios que se lhe afigurem eficazes”.

A cooptação dos policiais permitiria ao PCC a proteção de suas operações contra intervenções externas, sejam elas da polícia ou de outras organizações criminosas. Além disso, o PCC buscava o monopólio do crime no estado, “buscando impor barreiras à entrada de novos concorrentes, assegurando uma posição monopolista que maximiza a extração de renda e reduz a competição”.

Os promotores do Gaeco também afirmaram que a facção busca a diversificação de atividades no território controlado, Foi dentro dessa lógica que os promotores buscaram descrever o papel que cada dos denunciados desempenhou na “para promover a organização Primeiro Comando da Capital, cujas condutas guardam relação de complementaridade e convergência entre si, notadamente os diferentes vínculos ilícitos estabelecidos e explorados”.

O Estadão não conseguiu contato com as defesas do delegado Baena, dos investigadores Bombom, Xará, Rogerinho, Xixo, Bolsonaro e Monteiro. Também não conseguiu localizar a defesa de Danielle e dos empresários André e Molly bem como do advogado Mude. Durante seus interrogatórios, os acusados alegaram inocência e disseram ser vítimas de mentiras contadas por Gritzbach.

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