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Quase metade dos novos filiados e dirigentes ligados a partidos políticos demonstra maior inclinação a valores antidemocráticos, com cerca de 43% acreditando que a democracia pode funcionar sem as siglas partidárias e o Congresso Nacional. A conclusão faz parte de uma pesquisa inédita realizada por cientistas políticos da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) e da Universidade de São Paulo (USP), que aponta o avanço de um movimento antissistêmico, intensificado pelo crescente descrédito nas instituições democráticas — um cenário que ameaça a estabilidade política do Brasil.
Para os cientistas políticos ouvidos pelo Estadão, os resultados indicam o enfraquecimento do sistema democrático e reforçam a necessidade de reformas institucionais. A pesquisa de abrangência nacional, realizada nos anos de 2020, 2022 e 2024, com 32 partidos, enviou questionários com 52 perguntas para filiados e dirigentes partidários, com o objetivo de descobrir o engajamento partidário e os desafios enfrentados por organizações partidárias no Brasil. Foram consideradas as respostas de 3.266 integrantes dessas legendas que responderam o questionário inteiro. A pesquisa tem margem de erro de 2% e grau de confiança de 95%.
“O resultado é contra-intuitivo, já que, em tese, espera-se que aqueles inseridos no sistema político tenham maior confiança nele. No entanto, o estudo revela o oposto: uma fatia significativa dos novos filiados adota uma postura mais antissistêmica e acredita que a democracia pode funcionar sem os partidos e o Congresso — pilares fundamentais do sistema democrático. O crescimento desse fenômeno, intensificado pela polarização e pelo avanço do populismo, representa um risco real para a estabilidade democrática no Brasil”, avalia Vinicius Alves, pesquisador da UFSCar e professor de ciência política do IDP.
O estudo aponta que 43% dos novos filiados — aqueles que se associaram a partir de 2003 — acreditam que a democracia pode funcionar sem partidos políticos ou o Congresso. Já entre os membros mais antigos, que ingressaram antes de 2003, o índice cai para 14,8%, o que indica uma maior resistência a valores antidemocráticos e menor receptividade a discursos que questionam a legitimidade dessas instituições.
Para Alves, o contexto histórico e político no momento da filiação partidária influencia diretamente o perfil dos membros. Enquanto a primeira geração de filiados ingressou nos partidos no período pós-ditadura militar, o que reforçou o apreço pelos valores democráticos, aqueles que aderiram às siglas nos últimos anos o fizeram em meio a escândalos de corrupção, como o Mensalão e a Lava Jato, ampliando o descrédito em relação ao sistema político tradicional.
O avanço desse fenômeno, explica Alves, não é exclusivo do Brasil. Nos Estados Unidos, Reino Unido e Alemanha, outsiders e grupos políticos populistas e antissistêmicos têm se aproveitado do descrédito nas instituições para ampliar sua influência e desafiar a ordem democrática.
Um exemplo desse processo no País é a ascensão de lideranças partidárias que defendem pautas antissistêmicas, como o candidato à Prefeitura de São Paulo em 2024, Pablo Marçal. Outros exemplos incluem políticos que se projetaram sem vínculo direto com legendas tradicionais, como o movimento bolsonarista, que mobilizou um eleitorado contra o “sistema” e desestruturou mediações partidárias e institucionais.
Na prática, o pesquisador explica que uma das consequências desse cenário é que esses novos filiados podem “corroer” as instituições democráticas “por dentro”, com o avanço de propostas que buscam reduzir e enfraquecer mecanismos de controle institucional e limitar o papel de instituições democráticas. Alves explica que esse perfil de membro atua dentro dos próprios partidos para tensionar o sistema democrático, fragilizando órgãos de fiscalização e transparência e promovendo pautas que reduzem a autonomia do Judiciário e do Legislativo.
“Isso pode levar partidos a adotarem discursos mais radicalizados para atender a essa nova base de filiados e líderes partidários. O resultado é um aumento dos ataques às instituições e o enfraquecimento dos consensos democráticos. Esse cenário se agrava quando observamos que muitos filiados aderem a partidos não por identificação com propostas políticas, mas pelo engajamento do ódio ao adversário”, diz.
A primeira parte da pesquisa, divulgada pelo Estadão em 2024, revelou que, apesar do aumento da desconfiança em relação aos partidos políticos, a filiação partidária tem crescido no País, impulsionada pela rejeição aos adversários políticos. Cerca de 70% dos filiados consideram, em algum grau, a aversão e o ódio ao rival como fatores relevantes para aderir a uma legenda — fenômeno que os pesquisadores denominaram “engajamento do ódio”.
O pesquisador e cientista político da USP Pedro Assis também aponta que esse processo fortalece movimentos que buscam deslegitimar partidos e instituições democráticas, como a defesa do “voto impresso auditável”, promovida por setores que, sem apresentar provas, alegam fraudes no sistema eleitoral.
Assis aponta ainda que, com o crescimento da polarização e da radicalização dentro dos próprios partidos, o Brasil pode enfrentar riscos de instabilidade política, impulsionados pelo avanço do radicalismo entre os filiados e pelo aumento do descrédito no sistema democrático.
“Se essa tendência continuar, podemos ver um aumento do número de partidos sendo capturados por setores antissistêmicos, o que ampliaria as tensões políticas e comprometeria ainda mais a governabilidade no País. Sem medidas para conter esse movimento, há o risco de uma escalada que fragilize o próprio funcionamento do sistema democrático”, afirma.
Entre as saídas apontadas pelos pesquisadores estão o fortalecimento das instituições democráticas, o aumento da transparência no funcionamento das siglas, a promoção da educação política e a criação de mecanismos para reforçar a confiança nas instituições representativas. Alves também destaca a importância de uma renovação partidária que vá além da simples troca de nomes, promovendo mudanças estruturais que tornem os partidos mais democráticos internamente e alinhados às demandas da sociedade.
“O desafio é criar mecanismos que impeçam que essa desconfiança generalizada corroa a democracia. A renovação precisa ser mais profunda e estrutural, ou veremos uma erosão contínua das instituições políticas”, completa Alves.

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