A possível nomeação do deputado federal Guilherme Boulos (PSOL-SP) como um dos ministros do governo Lula não é algo sensato, avaliou o escritor e filósofo Vladimir Safatle em entrevista ao UOL News nesta quarta. Filiado ao PSOL, ele considera que o racha no partido explicita um problema estrutural da sigla.
A discussão sobre o apoio incondicional do PSOL ao governo Lula criou um desentendimento entre membros do partido. Em entrevistas ao UOL, os deputados se referiram a colegas de bancada com ofensas, como “mentiroso”, “palhaço” e “imaturo”.
O partido tinha uma posição muito clara que não entraria no governo e que Sônia Guajajara [ministra dos Povos Indígenas] era uma exceção. Uma discussão como essa deveria ser objeto de uma discussão ampla, inclusive com os filiados. Não é só uma pessoa entrar no ministério; é assumir de uma vez por todas ser sócio majoritário do governo. Se o governo naufragar, você vai junto, sem a possibilidade de impor outra pauta e ter autonomia.
Perde-se completamente a clarificação e você se torna uma espécie de extensão do governo. Não vejo isso [entrada de Boulos no ministério] sequer como uma coisa sensata do ponto de vista partidário. Serão dois partidos correndo do mesmo lado. Isso não faz o menor sentido do ponto de vista partidário. Vladimir Safatle, escritor e filósofo
A falta de um debate mais amplo sobre a participação do PSOL no governo Lula evidencia problemas antigos no partido, na visão de Safatle.
Estou no PSOL há mais de dez anos, tempo maior do que o de algumas pessoas na direção. Essa questão só explicita um problema estrutural do partido, que não diz respeito só à adesão ou não ao governo, mas como trabalharemos a construção de uma alternativa para a esquerda brasileira. Esse é um problema que já vem de longa data.
Poderíamos resolver isso de outra forma. Reconhecendo que o pessoal tem muitas divergências a esse respeito, seria muito natural que em uma situação como essa os filiados e a militância fossem chamados e se fizesse um debate aberto e transparente com todo mundo, para sairmos com uma posição um pouco mais construída e consolidada.
Houve uma eleição da qual o partido não saiu bem. Perdemos cinco prefeituras e diminuímos o número de vereadores. Ou seja: há problemas. Estamos com um governo com baixa popularidade. Ninguém está negligenciando a importância de vencer a extrema-direita, mas há estratégias e estratégias. Há quem entenda que simplesmente fazer apoio completo ao governo não adiantará nada. Vladimir Safatle, escritor e filósofo
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