Advogado sobrinho do governador do Tocantins disse que vazou ao tio inquérito sigiloso do STJ

Preso nesta terça-feira, 18, em um desdobramento da Operação Sisamnes, que investiga o comércio de decisões e informações de processos do Superior Tribunal de Justiça (STJ), o advogado Thiago Marcos Barbosa de Carvalho, sobrinho do governador do Tocantins Wanderlei Barbosa (Republicanos), afirmou em uma conversa obtida pela Polícia Federal que vazou um inquérito sigiloso ao governador.

Wanderlei Barbosa não foi alvo da operação da PF. Procurado, o governador negou ter recebido informações privilegiadas. Ele alega que sua defesa teve acesso regular ao inquérito mencionado nas mensagens. “Eventuais desdobramentos são de exclusiva responsabilidade dos investigados, não cabendo qualquer tentativa de vinculação ao governador por atos individuais de terceiros”, afirma (leia a íntegra da manifestação ao final da matéria).

O Estadão busca contato com a defesa do advogado.

Em diálogo com o desembargador Helvécio de Brito Maia Oliveira, do Tribunal de Justiça do Tocantins, em junho de 2024, o advogado afirma que teve acesso ao inquérito nº 1650, autuado no Superior Tribunal de Justiça um ano antes, por meio de “pessoas que têm ligações fortíssimas no STJ”.

A investigação, segundo Thiago, teria relação com contratos para a compra de cestas básicas e envolveria o acordo de colaboração premiada de um dos fornecedores do governo do Tocantins.

Thiago afirma que foi até para Brasília para conseguir uma cópia da investigação e que compartilhou o material com o governador para “ajudar” e “tomar alguma providência se for necessária”.

“Eu estive em Brasília, eu fui exclusivamente pra ver esse inquérito. No que eu vi esse inquérito, consegui o acesso a ele, voltei, mostrei pra tio Wanderlei. Falei tio Wanderlei: ‘deixa eu te explicar um negócio, quando a gente fala as coisas pra o senhor, quando a gente tá mostrando as coisas pra o senhor, a gente tem é o interesse é de ajudar, não é de passar nenhum medo, é pra tomar alguma providência se for necessária’.”

O advogado afirma ainda que Walderlei Barbosa passou a “cuidar” do assunto. “Moral da história, ele agora está passando a cuidar disso, agora está assim. De vez em quando até manda umas mensagens, ele está vindo de Portugal, disse que quer conversar comigo. Eu acredito que seja sobre isso, ele quer que eu pegue mais algumas informações.”

O advogado é assessor do procurador de Justiça Ricardo Vicente da Silva, do Ministério Público do Tocantins, que também é investigado. O Estadão busca contato com as defesas.

A operação foi autorizada pelo ministro Cristiano Zanin, do Supremo Tribunal Federal (STF). Em sua decisão, o ministro classificou como “indispensável” a prisão de Thiago e mencionou o vínculo com o governador.

“O investigado, parente próximo do governador e entremeado a figuras de poder na estrutura judiciária local, com influência sobre Tribunal Superior, denota possibilidade elevada de reiteração da prática delitiva, em seu próprio benefício”, justificou Zanin.

O ministro também afastou Thiago das funções no gabinete do procurador Ricardo Vicente da Silva.

COM A PALAVRA, O GOVERNADOR DO TOCANTINS

A defesa do Governador Wanderlei Barbosa esclarece que desde o dia 15 de abril de 2024 ele foi formalmente habilitado no inquérito da FAMES-19 junto com seus advogados, tendo, desde então, acesso regular ao processo por meio dos trâmites legais.

Dessa forma, não houve qualquer recebimento de informação privilegiada um vez que a conversa mencionada na investigação da Operação Sisamnes, encontrada no WhatsApp dos suspeitos, data de 28 de junho de 2024, quase três meses desde que a defesa do governador já possuía acesso integral ao processo.

Reforçamos que o Governador Wanderlei Barbosa não é alvo da investigação e nem foi citado no processo. Eventuais desdobramentos são de exclusiva responsabilidade dos investigados, não cabendo qualquer tentativa de vinculação ao governador por atos individuais de terceiros.

Destacamos ainda que Thiago Barbosa e Goianyr Barbosa, citados na investigação, não possuem qualquer vínculo com o Governo do Tocantins. Thiago era assessor do Ministério Público Estadual (MPE), e seu pai, Goianyr Barbosa, não ocupa cargo na administração estadual.

A defesa reitera sua confiança nas instituições e no devido processo legal, assegurando o direito constitucional ao contraditório e à ampla defesa.

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