Governo Lula quer usar tarifaço de Trump para minar bolsonarismo

O deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) e o vereador de Belo Horizonte Vile Santos (PL) usam o boné do republicano Donald Trump no dia da posse do republicano nos EUA
O deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) e o vereador de Belo Horizonte Vile Santos (PL) usam o boné do republicano Donald Trump no dia da posse do republicano nos EUA Imagem: Divulgação/Vile Santos

Trump também passou a ser a esperança por parte do bolsonarismo para pressionar por anistias e para que o ex-presidente possa eventualmente voltar a ser candidato em 2026. Uma ingerência por parte do republicano na eleição brasileira é o grande objetivo de aliados de Bolsonaro.

Demonstrar a incoerência entre apoiar o norte-americano e ver setores inteiros da economia sendo afetados é a esperança do Planalto. Outro objetivo é conseguir que tanto parlamentares bolsonaristas como da base do governo sejam obrigados a se unir para dar respostas à ameaça a economia nacional.

De fato, isso já aconteceu na aprovação de um Projeto de Lei no Senado, permitindo que o Brasil tenha instrumentos para retaliar os EUA. Neste caso, senadores da base de Lula e do bolsonarismo atuaram do mesmo lado.

O governo brasileiro ainda analisa como os ataques de Trump contra outros países têm aumentado a popularidade de líderes que passaram a resistir ou responder ao americano, como no caso de Justin Trudeau no Canadá.

Negociação pós tarifas

Enquanto a guerra narrativa se prepara, o setor privado do Brasil vai tentar negociar uma redução de tarifas, cotas e isenções após anúncio de tarifas por parte de Donald Trump. Como o UOL revelou na segunda-feira, não existem esperanças por parte do governo Lula e nem do setor empresarial de que o Brasil possa ser poupado do “tarifaço”.

A aposta agora é por buscar um diálogo, uma brecha que o próprio governo americano sinalizou como opção.

Em recente viagem aos EUA, interlocutores brasileiros ouviram das autoridades americanas de que o pacote de tarifas fazia parte das promessas de campanha e da narrativa de Trump de transformar o país. Ele não teria, portanto, como recuar.

Um dos cenários é de que o Brasil seja taxado em 20% em todos seus produtos, assim como os demais países. O Itamaraty, por sua vez, considera que tem espaço legal para elevar as tarifas para os produtos americanos, sem violar os compromissos do país na OMC. Pelas regras, o Brasil poderia subir as taxas para até 35%, sem incorrer em uma ilegalidade nos tratados.

Mas, ainda que eventuais medidas de retaliações sejam adotadas, a Casa Branca informou a deputados republicanos que haveria espaço para negociações.

Num recente encontro entre o secretário do Tesouro, Scott Bessent, e deputados da base de Trump, os parlamentares foram informados de que o governo prevê negociações com cada um dos países a partir da próxima semana.

Trump promete anunciar sua nova política comercial na tarde de hoje, adotando a regra da reciprocidade entre os países. Para isso, portanto, adotará critérios de como os produtos americanos são taxados no exterior. A meta é a de começar a corrigir o déficit de US$ 1,2 trilhão que o país soma com o resto do mundo.

O Brasil, porém, não está entre os maiores responsáveis pelo déficit americano. De fato, por anos, foram os EUA que tiveram vantagem no comércio.

Ainda assim, nas conversas bilaterais, os americanos se queixaram de um tratamento injusto sobre o etanol dos EUA e barreiras como o sistema tributário.

Chanceler não fala com EUA e se reúne com Lula

Na semana passada, uma missão enviada pelo Brasil para Washington retornou ao país sem qualquer promessa de que os produtos nacionais seriam poupados. Na segunda-feira, o chanceler Mauro Vieira iria se reunir com as autoridades americanas por videoconferência, mas o encontro não aconteceu. O argumento foi a de incompatibilidade nas agendas.

Vieira esteve com o presidente Lula para tratar da resposta que o país poderá dar. A conclusão foi de que existem fortes indícios de que o Brasil fará parte da lista de países retaliados.

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