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Um canal policial citado na investigação da Polícia Federal sobre a Abin paralela voltou a funcionar em maio, após dois anos sem publicar vídeos. Um dos administradores é acusado de receber propina.
O que aconteceu
O canal Diário da Honra faz entrevistas com policiais e militares no YouTube desde 2011 e tem 97 mil inscritos. O perfil não publicava nada desde 27 de dezembro de 2022, mas foi reativado em 23 de maio de 2025, poucos dias antes do fim das investigações sobre a “Abin paralela”.
Segundo a PF, o Diário da Honra é administrado por Felipe Arlotta Freitas. Ele é policial federal e foi assessor especial do então diretor geral da Abin, Alexandre Ramagem, entre setembro de 2019 e junho de 2022.
Arlotta ocultou participação na administração do canal, diz a PF. A investigação aponta que ele criou uma empresa no nome da mãe em 2022, a DH Web Conteúdo e Mídia Social, para gerenciar as atividades financeiras do Diário da Honra.
A DH Web recebia pagamentos mensais de empresas contratadas pela Abin. O relatório descreve que a gestão de Ramagem assinou contratos com a Berkana Tecnologia em Segurança no valor de R$ 9,6 milhões em 2020. A empresa de segurança pagava R$ 5.000 mil a DH Web supostamente em troca de divulgação no Diário da Honra.
PF diz que Arlotta usava empresa para lavar dinheiro. “Ao receber os R$ 5.000 mensais através da pessoa jurídica DH WEB, Felipe Arlotta buscava conferir aparência de legalidade a recursos de origem criminosa, incorrendo, em tese, no crime de lavagem de capitais,” diz o relatório.
Outras empresas pagavam R$ 3 mil mensais ao Diário da Honra: a Websis Tecnologia e a MKS Gestão de Resíduos. A PF, no entanto, não encontrou propaganda das companhias nos vídeos do canal. Ambas tinham negócios com a Abin.
O apresentador do Diário da Honra, João Luiz Chaves Júnior, anunciou o retorno em maio. “Amanhã escreveremos uma nova página em nosso diário. Se você está com a gente desde o começo, você não pode perder”, disse em um vídeo.
Canal entrevistou Ramagem em 12 de março de 2022. Foi pouco antes de ele deixar o comando da Abin para se candidatar a deputado federal. O secretário de Segurança de São Paulo, Guilherme Derrite, também foi entrevistado pelo Diário da Honra em 2021.
Um dos entrevistados mais recentes foi o coronel Montenegro. Ele é veterano das Forças Especiais do Exército e conhecido nas redes sociais como “kid preto”.
Participação de Arlotta no canal
A legislação brasileira proíbe que servidores públicos federais participem da gerência ou administração de empresas privadas. “As evidências comprovaram, de forma inequívoca, que Felipe Arlotta Freitas era administrador e gestor da referida pessoa jurídica”, diz o relatório da PF.
A PF encontrou agenda pessoal do assessor com dados da empresa. O caderno tinha dados cadastrais dos sócios, senhas de acesso ao canal no YouTube, Instagram e outras plataformas relacionadas ao negócio.
Arlotta foi indiciado pela PF no caso da Abin paralela. O relatório final da investigação diz que ele “ordenou e participou de ações clandestinas para fins privados, atuou diretamente na tentativa de encobrir ilícitos mediante a falsificação de documentos, comandou operações de inteligência sem amparo institucional, participou de atividades político-partidárias durante o exercício da função”.
O apresentador do canal se referia a ele como sócio. O assessor de Ramagem também aparece em um vídeo publicado pelo canal em dezembro de 2021.
Arlotta não respondeu aos contatos feitos pelo UOL por telefone e por mensagem. A reportagem também enviou um e-mail ao canal e questionou se Arlotta ainda faz parte da administração, mas ainda não teve retorno.

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