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Uma confusão no diretório do PT de Minas Gerais ontem atrapalhou as eleições do partido e adiou o resultado nacional, previsto para hoje, Petistas dizem, contudo, que a definição do novo presidente já é certa.
O que aconteceu
Uma judicialização da deputada Dandara Tonantzin (PT-MG) travou a votação no estado. A Justiça concedeu o direito de ela concorrer ao diretório estadual no sábado à noite, véspera da abertura das urnas, o que fez com que o partido suspendesse o pleito localmente.
O diretório nacional realiza uma nova reunião amanhã para marcar uma nova data em Minas. Segundo o partido, a votação ocorreu normalmente nos outros 25 estados e no Distrito Federal, mas nenhuma prévia deverá ser divulgada até que a situação de Minas seja resolvida.
A expectativa é que seja já no próximo final de semana, também no domingo. A questão em debate segue sendo a mesma da suspensão, ontem: a logística para garantir a votação nos mais de 700 locais de votação no estado. Segundo a direção, todas as cédulas já tinham sido impressas sem o nome de Dandara.
Confusão escancara disputa política em MG
A deputada entrou na Justiça para que pudesse concorrer à presidência do diretório estadual. O registro da candidatura foi recusado em junho por atraso na contribuição partidária, segundo o diretório nacional, um pré-requisito para qualquer candidatura interna. Ela estaria devendo até R$ 130 mil, dado que a colaboração é calculada com base no salário de cada filiado.
Na ação, Dandara mostra comprovantes de quitação da dívida, em dois boletos. Ainda assim, o diretório argumentou que ela havia perdido o prazo para realizar o pagamento. No sábado à noite, a 17ª Vara Cível de Brasília entendeu que ela havia, sim, cumprido com as obrigações e concedeu tutela de urgência.
A disputa escancara a briga pelo poder em Minas, dizem petistas. Dandara é próxima do deputado Reginaldo Lopes (PT-MG), uma das lideranças do estado, ao passo que a deputada estadual Leninha é apadrinhada pelo deputado Rogério Correia (PT-MG). Os dois grupos disputam a hegemonia do estado, de olho em 2026.
Como em Minas, muitos estados entraram em combustão de olho no comando local do partido na provável última eleição que o presidente Lula (PT) disputará. Petistas lembram que controlar o diretório estadual nas eleições majoritárias é controlar o caixa do partido e ter influência forte nas indicações às disputas majoritárias (governo e Senado), embora, ponderem, estas escolhas passem em grande parte pelo diretório nacional e pelo próprio Lula.
Publicamente, o partido diz que se trata de uma questão legal. Membros do diretório dizem que cerca de 400 candidaturas foram indeferidas em todo o país pelo mesmo motivo de Dandara e que todos os casos foram avaliados com o mesmo parâmetro.
A decisão da deputada e de seu grupo político gerou ruído. Membros da alta cúpula do PT dizem entender que houve uma “sacanagem” na rigidez ao negar a candidatura, dado que Dandara é uma liderança expoente do PT-MG, tem a simpatia de Lula e era favorita ao pleito, mas reclamam da forma como tudo foi conduzido.
A avaliação é que, no fim, é ruim para o PT. A judicialização expõe os rachas internos bem em um momento em que o partido busca mostrar coerência em torno do governo, que abre outros precedentes e que só acabou por adiar a decisão nacional, que é a mais importante.
Além da data para o pleito, este deverá ser um dos assuntos a serem tratados pelo diretório nacional amanhã. A reunião, marcada para as 17h, deverá discutir se é possível armar algum tipo de entrave para evitar com que decisões chamadas “unilaterais” atrapalhem o andamento do partido como um todo.
Resultado já é certo, avaliam petistas
Apesar de adiado, petistas dizem que o resultado em prol do ex-ministro Edinho Silva deverá ser confirmado. Ele é o nome da corrente CNB (Construindo um Novo Brasil), da qual o presidente Lula faz parte, que representa quase 50% dos votos de filiados.
Seu principal adversário é o deputado federal Rui Falcão (PT-SP), que já dirigiu a sigla anteriormente e se lançou como independente. Os petistas históricos Romênio Pereira e Valter Pomar correm por fora.
O PT encara um debate sobre como se posicionar frente ao crescimento da direita. De volta ao poder depois de seis anos, petistas dizem que o pior já passou, mas também avaliam que esperavam estar numa situação “mais estável”.
A discussão, não exatamente uma novidade no PT, se dá entre aumentar o diálogo ao centro ou esticar a corda à esquerda. Edinho, conhecido como conciliador, defende a primeira estratégia, enquanto Falcão é adepto de retornar às origens.
Recheada de governistas, como o ministro Fernando Haddad (Fazenda), Gleisi e o líder do PT na Câmara, José Guimarães (CE), a CNB optou pela suavização. Membros da corrente defendem que o partido conseguiu seus maiores êxitos quando dialogou com siglas ao centro e com setores mais distantes do tradicional discurso petista (bancos e mercado financeiro, por exemplo), como ocorreu nos primeiros mandatos de Lula e na eleição de 2022.
O ponto do grupo, defendido por Edinho, é que a população já está dividida e que as chances maiores de crescimento estão no consenso. Não à toa, este é o tom que mais se aproxima do governo. Ministros defendem que o partido tenha posicionamento independente, mas “é preferível” que some com o discurso de Lula, não que antagonize a ele —até o ex-ministro José Dirceu, liderança importante, aderiu a este discurso e declarou apoio público a Edinho.
A oficialização deverá ficar para o final de semana ou para a semana que vem. Os votos dos outros diretórios devem ir sendo contado, mas não divulgados, o que só deverá ocorrer em conjunto, após a votação mineira.

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