
E olhem que falta esclarecer o imbróglio das emendas, um cipoal incompreensível para a larga maioria, que ignora que mais de R$ 50 bilhões serão drenados do caixa neste ano, sem que se saiba direito para onde vai o dinheiro. Nestes últimos dias, diga-se, com o debate pegando fogo, houve uma enxurrada das tais emendas de comissão, que não obedecem às exigências constitucionais da transparência. Mas volto.
A verdade é que o Centrão decidiu misturar o seu papo-furado contra os impostos, atendendo a lobistas poderosos — afinal, o Seu Zé e a Dona Maria do salário mínimo e das filas do SUS não oferecem jantares —, para dar uma cartada eleitoral: a toda hora havia colunas de notas anunciando a deserção dos ministros da base. Não pesquisei, mas alguém deve ter apelado àquela metáfora antiga para se referir a Lula: “ninguém escreve ao coronel” para simbolizar a sua solidão… Que digo eu? Isso é do tempo em que referências assim ainda faziam algum sentido.
E há muito mais a revelar sobre as entranhas do Congresso. É claro que é um Poder legítimo. Mas não pode recorrer a práticas ilegítimas e ilegais, rasgando a Constituição, assaltando o Orçamento, empregando-o como quer, ao arrepio das exigências da transparência. Também não pode chamar o lobby dos nababos, este de que fala Guedes, de “interesse público”.
Restou a Lula e ao governo fazer esse debate. Ou faz ou acaba. “Mas Lula será reeleito assim?” Isso não é comigo. Não sou “coach”, conselheiro ou vidente. O que tenho cobrado desde que essa conversa de gastos começou é que se responda à questão óbvia: “cortar onde?” Eu sei que os ricos no Brasil “não aguentam mais pagar impostos”. E quem aguenta? Os pobres? Não se trata de guerra contra os endinheirados. Ninguém tem ódio aos bacanas. Sua vida e seus hábitos, com alguma frequência, são exibidos ou nas redes ou nas publicações especializadas além do limite do ridículo. Mesmo assim, despertam admiração. Não somos um país de anacoretas. Quem não gostaria de viver melhor? Mas em pagar imposto?
ARRANCA-RABO DE CLASSES
Não se trata de promover um arranca-rabo de classes — já que a “luta” é da natureza do sistema e não tem essa de querer ou não querer que exista. O que se defende é uma tributação justa. Como disse Guedes, “você não tem de ter vergonha de ser rico; você tem de ter vergonha é de não pagar imposto. Se um funcionário seu paga 27,5%, por que que você paga zero?”.
E é o Congresso quem toma essas decisões. A propósito: cobre sempre do defensor do “corte de gastos” que aponte onde cortar. Até em redação do Enem se cobra que os adolescentes apresentem uma solução para problemas. Não permita que profissionais do mercado financeiro, disfarçados de oradores, façam a sua litania do ajuste sem dizer quem paga a conta. Se cair nas costas do pobre e se vocês concordarem, o próximo passou é sair por aí a chutar morador de rua: “Vai trabalhar”. Ou conceder entrevistas dizendo que o Bolsa Família deixa o brasileiro preguiçoso e empurra a mão de obra para a informalidade. Depois é só botar um ovo de Colombo.
TRUMP E O ATAQUE À SOBERANIA DO BRASIL
A crítica que o presidente dos EUA, Donald Trump, fez ao Brasil sob o pretexto de defender Jair Bolsonaro constitui um evidente ataque à autodeterminação do país e pedia aquilo que se viu: uma resposta de Lula. Esperavam o quê? Na política, como na vida, sempre há os quereres, mas estes se dão nas circunstâncias, não é?
Sei lá o que Trump pensa em fazer — e há os comentaristas excitadíssimos, esperando, talvez, que mande um destacamento do Comando Sul para prender Alexandre de Moraes —, mas uma coisa é certa: o entusiasmo da direita e da extrema direita, que já não haviam criticado as tarifas, com um chefe de Estado estrangeiro que faz ameaças ao nosso país impõe ao presidente que disputa a reeleição uma pauta poderosa: a defesa da soberania nacional contra uma ameaça estrangeira. Mais: essa ameaça é patrocinada por brasileiros.
É inegável que, no território do bolsonarismo, Eduardo Bolsonaro põe o pescoço à frente. Escrevi ontem a respeito. Jair, seu pai, não parece muito disposto a passar seu butim para Tarcísio de Freitas porque antevê uma traição ou algo que soaria como. Lembro meu artigo: é claro que Tarcísio comunga dos mesmos valores de seu padrinho político, mas a direita econômica viu nele um líder mais amplo do que Bolsonaro, mais pragmático e menos ideológico. Bolsonaro percebeu que se tenta fazer a sucessão também no território da direita.
Tarcísio resolveu desfazer a pecha ou de traidor ou de ambíguo. Foi para o X chutar o Supremo. Escreveu:
“Com a palavra, presidente @realDonaldTrump. @jairbolsonaro deve ser julgado somente pelo povo brasileiro, durante as eleições. Forçam, presidente”.
É a velha história: não sou “coach” de Tarcísio, e isto não é um conselho. Mas noto que muitos bolsonaristas confiam a cada dia menos nele porque avaliam que tenta parecer moderado aos moderados e centristas e radical aos radicais e extremistas. João Amoedo, expulso do Novo com todas as honras e méritos, mandou a real: “O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, entende que a lei deve ser igual para todos. Na sua avaliação, o cidadão deve ser julgado pela Justiça. Já o político, pelo povo”. Na mosca!
CAMINHANDO PARA O ENCERRAMENTO
Em três semanas, a paisagem mudou completamente. O ministro Fernando Haddad só estava tentando fazer com que as contas coubessem no arcabouço e acertou tudo com a cúpula do Congresso no dia 8 de julho, ocasião em que Hugo Motta viu uma “noite histórica”. No dia 24, o presidente da Câmara pautou o PDL às 23h40 para ser votado no dia 25. O resto é realmente história.
A investida de Trump contra a soberania leva Lula à defesa da soberania, pauta que era apenas lateral. Ainda que Tarcísio tente pegar carona no episódio, a marca vai, nos territórios do bolsonarismo, para a coronha, usando metáfora a gosto, de Eduardo. É insano, mas é assim: lutar para que o país sofra uma sanção de um governo estrangeiro se tornou um ativo eleitoral por lá.
Sei que há gente que não acredita nestas coisas, mas o fato é a história sempre se lembra de acontecer. As certezas de há três semanas se desmancharam no ar. E o que vem pela frente é “luta renhida”, como escreveu o poeta. “Viver é lutar”.
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