O americano também afirmou ter ficado “surpreso” que, em meio a uma agenda política intensa, Trump tenha encontrado tempo para publicar o que qualificou como a “declaração mais contundente do segundo mandato” em defesa a alguém. Na manhã de ontem, o presidente dos EUA postou uma mensagem de apoio a Bolsonaro em sua rede social Truth, alegando que ele estaria sendo “perseguido” e acusando o processo legal de ser “uma caça às bruxas” de teor político contra o ex-presidente brasileiro.
“Acho que isso [o post de Trump] mostra que o que Moraes está fazendo é ultrajante para as pessoas que acreditam na liberdade. E então o presidente Trump diz: ‘Ei, ele perdeu a eleição, mas vocês estão tentando julgá-lo para que ele não possa concorrer novamente quando está vencendo nas pesquisas’”, afirmou Bannon.
Somos grandes apoiadores do movimento Bolsonaro desde que o conhecemos em 2017. E acho que a manifestação mostra que o presidente Trump está totalmente ciente do que está acontecendo. Ele está muito aborrecido com isso. E eu acredito que haverá severas sanções financeiras contra Moraes. Há dezenas de pessoas trabalhando nisso, tanto no Executivo quanto no Congresso, e veremos o resultado em algumas semanas
Bannon, em entrevista telefônica ao UOL
Perguntado se as sanções a que se referia são as previstas na Lei Global Magnitsky, Bannon confirmou, mas ressaltou que “não fala por Trump”. A legislação prevê o bloqueio de acesso ao território americano e o impedimento de manter contas ou fazer transações financeiras com instituições bancárias que operem nos EUA.
No fim de maio, o Secretário de Estado de Trump, Marco Rubio, disse no Congresso que havia “grande possibilidade” de que o ministro fosse alvo da medida. O UOL apurou que Bannon conversou com Rubio diretamente sobre o assunto. Recentemente, ele também esteve com o presidente dos EUA em um almoço em que voltou a falar sobre a situação de Bolsonaro.
Antes de publicado, o post de Trump não passou pelo Departamento de Estado, o órgão diplomático dos EUA. O UOL pediu esclarecimentos sobre o assunto à diplomacia americana, mas ainda não obteve resposta.
“O post do presidente Trump realmente coloca o judiciário de Moraes em alerta de que os Estados Unidos, no mais alto nível do nosso governo, estão observando isso de perto e Trump está totalmente comprometido”, afirma Bannon, que prossegue: “Trump jogou com força. Ele disse: ‘Isso é totalmente inaceitável’. E se você quer enfrentar Bolsonaro, deve fazer na eleição. Lute nas urnas, mas não use os tribunais para tentar prender um homem”, diz.
O governo Lula tem dito que sanções ao ministro do STF seria um ataque direto à soberania do Brasil. Bannon rebate: “Isso é ridículo, amamos o Brasil e queremos ajudar”.
Punição a Moraes é foco de bolsonaristas nos EUA
Bolsonaristas nos EUA, especialmente o deputado federal licenciado Eduardo Bolsonaro e o comentarista político Paulo Figueiredo, trabalham há meses por punição a Moraes. Eles argumentam que o ex-presidente e seus apoiadores têm sido alvo de perseguição e de um processo de silenciamento nas redes sociais, o que o ministro Alexandre de Moraes e Supremo Tribunal Federal rechaçam.
Desde que chegou à Casa Branca, Trump não havia feito menção aos problemas de Bolsonaro na Justiça, nem dado manifestação tão clara de engajamento político – o que levantou questões sobre o real apoio dos bolsonaristas em Washington. Questionado sobre por que as sanções contra Moraes têm sido cogitadas, mas não se concretizaram, e o que explicaria o longo silêncio de Trump, Bannon contemporizou:
“Veja, temos a guerra na Ucrânia se expandindo, [o primeiro-ministro israelense, Benjamin] Netanyahu está na cidade, falando sobre a guerra na Pérsia. Você viu Los Angeles, uma situação importante com as deportações. Nós nunca vimos um ambiente tão intenso política ou economicamente nos Estados Unidos. Acabamos de aprovar o One Big Beautiful Bill (Lei Orçamentária de Trump). O presidente Trump está agora no meio de uma tentativa de impedir o início de uma Terceira Guerra Mundial”, disse.
Ainda conforme Bannon, ainda que falte prioridade para o Brasil neste momento, o país é central para a gestão Trump e a direita global que ele representa.
“O Brasil é uma das grandes potências mundiais. É uma das economias mais importantes do mundo, culturalmente é tão importante, a vitalidade do povo, sua apresentação agora no cenário mundial, isso é totalmente óbvio tanto para o Presidente Trump quanto para o movimento MAGA [Make America Great Again]. É simplesmente um crime o que está acontecendo neste Tribunal. E esse cara [Moraes] não vai escapar impune. Simplesmente não vai escapar impune”, diz Bannon, citando o ministro do Supremo, a quem chamou também de “vilão do Batman”.
Candidatura Eduardo dependeria de sanção

Eduardo Bolsonaro e Paulo Figueiredo tinham a expectativa de um anúncio sobre Moraes da Casa Branca acontecesse na segunda semana de junho – mesma em que Israel lançou seu primeiro bombardeio contra o Irã, iniciando em uma guerra que durou 12 dias e na qual os EUA se envolveram diretamente.
Mas o conflito teria abortado qualquer manifestação de Trump sobre o Brasil. Os bolsonaristas voltaram à carga após a negociação do cessar-fogo, e retomaram a estratégia iniciada meses antes, e que levou Eduardo a se licenciar da Câmara. O próprio Bannon se diz favorável à permanência dele nos EUA – o que chamou de “exílio”.
A concretização das sanções contra Moraes também guiam as ambições políticas de Eduardo, que quer ser líder da chapa presidencial da direita em 2026. Para bolsonaristas radicados nos EUA, se obtiver a punição a Moraes, o filho do ex-presidente seria visto como o “algoz do gigante”.
Assim, ele voltaria ao Brasil com condições de disputar a vaga contra o governador de São Paulo e o preferido do Centrão, Tarcísio de Freitas (Republicanos). Já Trump sabe que seria conveniente para a Casa Branca ter na presidência do Brasil alguém que lhe deva favores nesse nível.
Ciente da disputa, Bannon diz que apoia “100%” o filho de Bolsonaro. Ele também cita o otimismo de bolsonaristas com algumas pesquisas eleitorais, mas os estudos mais confiáveis ainda mostram Eduardo um patamar abaixo do pai e de Tarcísio.
Lula “velho como Biden”
Para Bannon, Lula já “não está mais na sua melhor fase”. Ele enviou uma equipe de seu show, o War Room, para observar as reuniões do Brics no Rio de Janeiro. O encontro do bloco também foi alvo de atenção de Trump, que chegou a ameaçar 10% de tarifas adicionais a quem se alinhasse aos Brics.
“O Lula, sem ofensa, está tendo uma performance fora de nível mundial. (…) Ele é como o Biden, que se manteve no poder por muito tempo”, afirma Bannon, citando o ex-presidente democrata, que teve questões de saúde ao fim do mandato e não buscou a reeleição. Lula terá 80 anos na eleição do ano que vem, e garante ter condições de saúde para buscar o quarto mandato.

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