A taxação é sobre Trump; Bolsonaro segue sendo irrelevante, embora útil

Vale lembrar que Trump usou o Departamento de Justiça para processar toda uma Corte de juízes federais do estado de Maryland, porque ela impôs limites (constitucionais, diga-se de passagem) à sua política de deportação. Algo inédito na história política americana. Imagine ele aceitar um “não” de um juiz brasileiro.

Tudo aqui nesse debate da taxação é sobre Trump. A celebração de bolsonaristas que preferem enxergar um endosso romântico do presidente americano à causa do “amigo” capitão é típica da distopia bolsonarista.

Eu arriscaria dizer que só agora Donald Trump se deu conta da existência real de Jair Messias Bolsonaro, e que ele poderia lhe ser útil. Trump parece ter finalmente visto uma utilidade em Bolsonaro.

Ele finalmente lembrou da existência de um ex-presidente ultraconservador, afeito a ditaduras militares, que vivia bajulando-o quando era presidente. Esse capitão que, embora brasileiro, tinha a estranha mania de bater continência para a bandeira dos Estados Unidos.

Trump deve ter imaginado que retaliar uma decisão da Suprema Corte brasileira contra empresa sua, e de seus aliados, ficaria mais palatável se ela saísse não como um ataque deliberado à soberania do Brasil, mas como um gesto de apoio a um bajulador seu. Talvez denunciar uma “violação de direitos humanos”.

Afinal, quão importante teria sido uma simples postagem do homem mais poderoso do planeta dizendo que era um absurdo Bolsonaro ser impedido de estar na sua posse? Quão forte Bolsonaro não ficaria se Trump não tivesse dito “deixem Bolsonaro em paz” em março, quando ele virou réu?

Por que não postar que ele, Trump, acompanharia a transmissão do depoimento de Bolsonaro a Moraes, para saber como ele realmente foi tratado? Por que agora? Por que após o encontro dos Brics?

A taxação não é uma conversa entre —e sobre— Trump, Bolsonaro e Lula. A conversa é entre —e sobre— Trump e Lula. Bolsonaro segue sendo irrelevante. Ele não é herói, e Trump ainda ignora completamente seus “feitos”. A conversa entre Trump e Lula é que agora o tempo na geopolítica é outro.

Se, por um lado, há uma crise das organizações multilaterais, sobretudo diante da agressividade do governo Trump, do outro, e exatamente pelo mesmo motivo, há novos arranjos de conjuntura de alianças globais por interesses, liderança e defesa de soberania.

Queiram Trump, Bolsonaro e os bolsonaristas ou não, Lula ainda é uma das figuras políticas mais importantes do planeta. Ele é certamente a figura política mais importante do Sul Global. Nem Narenda Modi (Índia), nem Gabriel Boric (Chile), nem Cyril Ramaphosa (África do Sul), nem Javier Milei (Argentina), nem Claudia Sheinbaum (México).

E o fato de, em um ano e meio de governo, o Brasil receber um G20, um Brics, uma COP, além da presença de Lula no G7, não é trivial na conjuntura geopolítica atual. Trump sabe disso. Não porque respeita ou considera esses eventos importantes, mas porque desse protagonismo podem sair reações.

Em meio a tudo isso, nada mais patético do que a oposição bolsonarista celebrar a taxação de Donald Trump. Ver na taxação uma estratégia de responsabilizar e enfraquecer o governo é ou estratégia política suicida, ou mau caratismo.

Parece que a imaturidade e o descompromisso com o país ganha novos contornos quando o mais importante é atingir Lula, custe o que custar. A frase “a culpa é do Lula” parece uma birra de criança que torce para tombo do coleguinha para poder dizer “bem feito”.

Se Bolsonaro é irrelevante para Trump, imagina cada um deles e delas. Imagina conviver com a vergonha de aceitar e celebrar acriticamente qualquer decisão do presidente dos Estados Unidos, mesmo vendo o tamanho do estrago que ele pode causar, e achar isso o máximo.

É verdade, é difícil imaginar que o Brasil tenha força econômica e política o suficiente para fazer frente a um confronto tarifário direto com os Estados Unidos. Saber negociar e não cair em provocações vai ser preciso, e o governo brasileiro vai ter de ter calma e habilidade para isso. Mas, seja como for, a ignorância acrítica, ressentida e vergonhosa da oposição bolsonarista será histórica.

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