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Membros do governo Lula (PT) dizem que o anúncio da taxação do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, contra o Brasil, em apoio ao ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), pode acabar virando um “tiro no pé” dos próprios bolsonaristas. A avaliação é que o aumento “desproporcional” trouxe reações mais favoráveis à pauta governista do que contra ela.
O que aconteceu
Após o susto inicial, a avaliação no Planalto é que politicamente o governo não se enfraqueceu. Pelo contrário: aliados citam setores historicamente refratários a Lula que se posicionaram contra as posturas de Trump e dos bolsonaristas como um indicativo de que a ação terá um efeito interno negativo, assim como o endosso a ela.
As comemorações só piorariam a situação, dizem aliados de Lula. O deputado licenciado Eduardo Bolsonaro (PL-SP) deixou claro que ajudou a intermediar as ações, o presidente do PP, ex-ministro bolsonarista Ciro Nogueira, colocou o ônus sobre Lula e o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), afirmou que o presidente colocou “ideologia acima de economia”.
Impulsionados pelo debate recente sobre taxação de super-ricos, governistas e petistas já abraçaram a briga. Ontem mesmo, petistas já usaram as comemorações de Tarcísio e Eduardo Bolsonaro como munição contra eles mesmos, dois possíveis presidenciáveis da direita.
A cúpula do governo tem vindo a público. “É curioso: liderar a maior economia do país e, ao mesmo tempo, apoiar medidas que encarecem produtos e prejudicam a economia nacional”, publicou hoje o ministro-chefe da Casa Civil, Rui Costa, sobre as falas de Tarcísio.
A ministra das Relações Institucionais, Gleisi Hoffmann, também se pronunciou. “Pensam apenas no proveito político que esperam tirar da chantagem do presidente do EUA”, acusou a ministra.
Lamento que o governador de São Paulo defenda uma tarifa de 50%, imposta pelo governo dos EUA, que, a partir de 1º de agosto, penalizará a indústria e a agroindústria paulista, em vez de defender a população do seu estado e do Brasil como nação. É curioso: liderar a maior?
— Rui Costa (@costa_rui) July 10, 2025
O objetivo —e o desafio— é tentar simplificar a pauta. Em vez de tratar de tarifas, algo abstrato para a população em geral, setores de comunicação do governo e do PT tentarão traduzir em como a possível taxação de Trump pode impactar nos preços no dia a dia e até ameaçar empregos, como sugeriu o setor de comércio.
A Secom (Secretaria de Comunicação) de Lula já explora também a “soberania nacional”. No mesmo tom que o presidente tem repetido ao refutar as ameaças de Trump contra os Brics, as contas Gov.BR já estão compartilhando artes com a frase “Respeita o Brasil”.
A aposta é que o argumento pega. Memes, charges e figurinhas com ironias sobre o “patriotismo bolsonarista” com bandeiras dos Estados Unidos e o boné de Trump (“Torne a América grande de novo”, em tradução livre) já circulam em grupos petistas.
Aumento desproporcional
A cifra alta ajudou na repercussão. Governistas avaliam que, se fosse um acréscimo de 10% e para setores específicos, por exemplo, poderia ter o efeito contrário e pesar para o governo, sob a análise usada pela oposição de que as falas de Lula teriam forçado Trump a isso.
Como foi “totalmente desproporcional”, dizem, a narrativa bolsonarista não pegou. Segundo funcionários que trabalham na interlocução com setores produtivos, isso foi constatado ao notarem que a reação imediata não foi de repreensão, mas de endosso ao governo, em nome da proteção do mercado nacional.
Para a equipe econômica, as notas públicas endossam isso. A CNI (Confederação Nacional da Indústria) afirmou que “não há fato econômico que justifique” os 50%, a FPA (Frente Parlamentar da Agropecuária) defendeu uma resposta “firme e estratégica” e a Fiesp (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo) pediu insistência na negociação diplomática.
São instituições e setores geralmente refratários ao governo e próximos a Bolsonaro. Petistas argumentam que, por mais que o medo de que a crise impacte diretamente na produção seja a força motriz dos posicionamentos, as manifestações, geralmente repletas de críticas a Lula, indicam que o bolsonarismo ficou ilhado neste caso. Se “até eles” notaram o “absurdo”, como bolsonaristas não?, questionam.
Membros da equipe econômica dizem ainda que os bolsonaristas devem ficar rendidos na discussão. Uma ala do governo vê as ameaças de Trump com uma forma de confrontar e enfraquecer os Brics, que têm avançado na proposta de extinguir o dólar nas transações internas, e não como um endosso a Bolsonaro.
Por mais que os dois tenham proximidade, governistas veem uso da pauta política como desculpa para prejudicar o crescimento de outras potências globais. Ou seja, na análise de interlocutores do Planalto, se resolver a questão econômica —e ninguém diz saber se será resolvida—, a questão política será abandonada.

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