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Nesta sexta-feira, ao iniciar a votação, a delegação brasileiro pediu que os demais países da OEA (Organização dos Estados Americanos) dessem seu voto ao mexicano e indicou que o próprio governo brasileiro não votaria por seu candidato, mas por Caballero Ochoa.
O resultado final terminou com 23 votos para o mexicano, cinco votos brancos e três votos para Sá e Silva.
Um dos argumentos da diplomacia brasileira era de que existiria um risco de um empate e da continuação de um impasse. Nos bastidores, o governo sustentava a tese de que isso seria instrumentalizado pela extrema direita, com ambições cada vez mais claras na Comissão.
A eleição no órgão escolheria três dos sete membros da Comissão. Há duas semanas, os EUA conseguiram votos suficientes para garantir um dos lugares, numa manobra que deixou ativistas e países preocupados com a influência da Casa Branca no futuro do debate de direitos humanos na região e sua instrumentalização para pressionar governos. A eleição também garantiu uma segunda vaga para Marion Bethel, de Bahamas.
Mas a terceira vaga para a Comissão ficou pendente. Pelas regras, os candidatos precisam ter pelo menos 18 votos de 32 países para serem eleitos. No primeiro pleito, o brasileiro ficou com 16 apoios e foi superado pelo mexicano por apenas um apoio.
Pelas normas, os dois latino-americanos disputariam o terceiro lugar. Mas, numa segunda rodada de votações, o resultado foi 15 votos para o Brasil e 14 para o México. O mesmo cenário se repetiu numa terceira votação. Já na quarta votação, o brasileiro conseguiu somar um voto, com um resultado de 16 a 15, com uma cédula ainda em branco.
Diante da incapacidade dos candidatos de chegarem a 18 votos, a opção dos governos foi a de suspender a eleição e permitir que Brasil e México voltem a disputar apoios pela região, o que ocorreu nesta sexta-feira.
No último fim de semana, uma reunião entre as diplomacias dos dois países tratou do impasse. Os mexicanos defenderam que o Brasil abrisse mão de seu candidato, com a promessa de que o país receberia o apoio em dois anos, na próxima eleição.
Dentro do governo e em alas dos movimentos sociais, a notícia de um possível acordo gerou preocupação.
Um dos aspectos seria de que, apesar de fazer sentido diplomático, a medida por parte do Palácio do Planalto seria explorada pela oposição como uma debilidade de Lula na região.
Outro argumento era de Sá e Silva superou o mexicano, em votos. Também se considera que o México tem seu representante na Comissão há 16 anos ininterruptos e que, com a nova eleição, completaria duas décadas. Neste mesmo período, o Brasil apenas elegeu dois membros, e mesmo assim sem reeleição.
O que ambos os países sabem é que precisam se unir para frear o avanço da extrema direita na OEA e na Comissão Interamericana.
Nesta eleição, o risco era de que, pela primeira vez, o órgão tivesse ultraconservadores e representantes da Casa Branca como maioria, o que mudaria de forma profunda a visão dos direitos humanos na região.
Não por acaso, a votação era considerada estratégica, tanto para a extrema direita que queria assumir o controle do órgão regional, quanto para ativistas de direitos humanos.
O temor dos progressistas era de que a ala conservadora ficasse com um total de quatro assentos, o que formaria maioria para tomar decisões e implementar uma agenda de direitos humanos que atenda aos interesses de movimentos populistas e de políticos como Donald Trump, Javier Milei ou Jair Bolsonaro.
Comissão como antessala de Marco Rubio na região
A vitória da candidatura liderada pelos EUA acendeu um alerta. Apoiada pelo movimento de extrema direita, a Casa Branca apresentou Rosa Maria Payá, filha de um dissidente cubano, para uma das três vagas na Comissão e fez intensa pressão sobre os governos da região.
Ela chegou em primeiro lugar, com 20 votos dos 32 possíveis. Entre os brasileiros, a visão é de que Payá será uma potencial articuladora da extrema direita e representará o governo Trump dentro da CIDH. O governo americano, portanto, ampliará sua capacidade de influência dela dentro do órgão regional, que também depende financeiramente os EUA para algumas de suas missões.
O UOL apurou que as gestões dos EUA envolveram articulações com países, principalmente os mais vulneráveis, e ameaças de cortes de recursos para programas, caso governos optassem por evitar a candidata do governo Trump.
Um experiente observador em Washington admitiu que a vitória de Payá é uma “péssima notícia” para a região. Ela será a representante do maior doador e pode acabar tendo uma voz “desproporcional” na entidade. “A Comissão corre o risco de se tornar a antessala de Marco Rubio”, disse outro delegado, numa referência ao secretário de Estado norte-americano.
Rubio, de fato, foi um dos primeiros a comemorar. “A voz e o incansável trabalho de Payá em defesa da liberdade, da democracia e dos direitos humanos em nossa região são necessários agora mais do que nunca”, afirmou, em suas redes sociais.

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