Com temor de alta do café e suco de laranja, empresas dos EUA se mobilizam

Ciente de que não tem alternativas, o governo Trump indicou em junho que iria abrir exceções nas tarifas para commodities consideradas como estratégicas. O café seria uma delas.

Mas, com a crise política com o Brasil, não há sinalizações por enquanto de que haja espaço para uma negociação.

O setor, portanto, já pensa no impacto que um fracasso nas negociações poderia ter. Ainda em abril, o CEO da Keurig Dr Pepper, Tim Cofer, admitiu que o café teria uma elevação de preços no segundo semestre. Mas ninguém imaginaria que a taxa sobre o Brasil seria de 50%.

Uma análise publicada pela TD Cowen indicou que a nova tarifa, caso entre em vigor em 1º de agosto, significaria um aumento de 0,5% no custo da Starbucks. 22% de seu café vem do Brasil. Alguns produtos poderiam ver um incremento de preço de 3,5%. No geral, as novas tarifas podem prejudicar os lucros da Starbucks em 1,4%.

Uma alternativa seria ampliar a importação do café do Vietnã, país que fechou um acordo com Trump. Mas os asiáticos abastecem apenas 8% do mercado americano.

Outro setor que começa a fazer os cálculos é o de laranja. Hoje, mais da metade do suco de laranja vendido nos EUA vem do Brasil e a nova taxa representaria um encarecimento imediato do produto nas prateleiras.

Jorge Viana, presidente da Apex, considera que as tarifas também teriam um efeito negativo para os americanos e cita justamente o segmento da laranja como exemplo. “A dependência [dos americanos] é absurda”, disse. Sua avaliação é de uma saída negociada terá de ser encontrada.

A tarifa contra a laranja brasileira ainda vem num momento ruim para o setor nos EUA. No começo do ano, o Departamento de Agricultura dos EUA previu que a colheita de laranja dos EUA atingiria o nível mais baixo em 88 anos. A produção de suco de laranja cairia para seu nível mais baixo em décadas.

A dependência americana aumentou nos últimos diante da queda acelerada da produção da Flórida, atingida por pestes e furacões.

Multinacionais americanas buscam saída para crise

As taxas também passaram a preocupar grandes empresas americanas com investimentos no Brasil. Uma coordenação entre algumas delas indicou que haverá uma mobilização para tentar convencer Trump a negociar.

Na carta enviada pelo presidente americano ao governo Lula, Trump vincula a barreira comercial ao processo judicial contra Jair Bolsonaro. A condição imposta pela Casa Branca foi considerada no governo brasileiro como um sinal de que não há nada que o país possa oferecer em termos tarifários que reverta a decisão.

Mas o governo brasileiro aposta que será uma reação negativa da sociedade brasileira e uma pressão empresários que poderá gerar uma mobilização nos interesses econômicos americanos, da mesma forma que ocorreu no Canadá. Para membros do Palácio do Planalto, esse seria o caminho que poderia flexibilizar a postura de Trump.

Na quinta-feira, empresas americanas e brasileiras se reuniram em caráter de emergência e foi constatado um consenso de que um canal de comunicação precisaria ser estabelecido.

Hoje, os americanos são o principal investidor estrangeiro no Brasil, com um estoque de que ultrapassa US$ 300 bilhões em 2024. Só em Em 2023, foram anunciados total de 126 projetos de investimentos de empresas americanas no Brasil, o maior número da última década.

Uma das decisões foi de que os escritórios dessas multinacionais no Brasil acionarão suas matrizes, nos EUA, pedindo apoio para que haja uma ação coordenada para convencer a Casa Branca a desistir da ideia.

O Brasil está disposto a continuar a negociar com os americanos. Mas desde que seja estritamente no plano comercial. Se houver qualquer tentativa de mencionar o Judiciário, democracia, eleição ou Jair Bolsonaro, a instrução é de que não haverá espaço para manter o processo. “Não existe a possibilidade de tratar desses temas”, disse um negociador.

O governo considera que não teria qualquer impacto oferecer uma concessão unilateral em setores econômicos, como reduzir tarifas para o etanol dos EUA. A avaliação é de que, o que os americanos querem, é vincular a uma exigência política e institucional. Portanto, só uma resposta política vai resolver.

“Essa é uma disputa política com a extrema direita, não comercial”, afirmou uma fonte do Palácio do Planalto. “O que está claro é que o centro é a eleição presidencial de 2026 e, se abdicarmos, é capitulação”, disse.

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