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A imprensa também, quase uníssona, saiu em defesa do interesse brasileiro em seus editoriais, algo que o país aprendeu a resguardar após anos de desgaste democrático, e do plano descoberto para promover um golpe de Estado que está sendo julgado agora no STF (Supremo Tribunal Federal). Não é todo dia que se vê uma união tão rápida em torno de uma causa neste imenso Brasil.
A sintonia no rechaço, na sequência do anúncio de Trump, deixou mais evidente quem destoava dessa ideia. Os afoitos que correram para celebrar a decisão americana, de olho nos votos do ex-presidente em 2026, chamaram para si um alvo que cobrará um preço. E quanto mais alta a pretensão, maior o erro de cálculo. Os governadores Ronaldo Caiado (União Brasil), Romeu Zema (Novo) e Tarcísio de Freitas (Republicanos), que não escondem a ambição presidencial, correram para se posicionar a favor do mandatário dos EUA e atacar o presidente Lula.
Eles sabem, mais do que qualquer eleitor que pretendem conquistar, que a reação de Trump foi desmedida, e tem mais a ver com a disputa com a China, sócia do Brasil no Brics, do que com seu súbito interesse em comprar uma briga pela eleição de 2026.
Num país de dimensões continentais, ninguém se elege só com os votos de um espectro político. E quem viu os governadores se colocarem nessa posição não vão “desver” a cena. Ficou na retina, e na memória.
O governador mineiro ainda ensaiou um ajuste de sua posição. Na quarta-feira, ele correu para o X e colocou a conta do tarifaço no colo de Lula, do STF e da primeira-dama, Janja. Ontem, voltou às redes para atacar Lula, mas também para condenar o tarifaço. “Defender a liberdade não pode significar atacar quem trabalha e produz no Brasil”, disse ele.
Chamuscados pela guerra de vídeos nas redes sociais que os colocaram no centro da guerra contra a derrubada do IOF, os presidente do Congresso, Davi Alcolumbre e Hugo Motta, foram mais hábeis desta vez. Esperaram a fervura abaixar para dar sua posição, quase 24 horas depois do anúncio do tarifaço, em uma nota conjunta, citando a “soberania” e a “lei de reciprocidade”, assinada pelo próprio Congresso. “Um mecanismo que dá condições ao nosso país, ao nosso povo, de proteger a nossa soberania. Estaremos prontos para agir com equilíbrio e firmeza em defesa da nossa economia, do nosso setor produtivo e da proteção dos empregos dos brasileiros”, escreveram eles.
O tarifaço chegou sem avisar, mas todos sabiam que havia um risco grande de que ele chegasse ao Brasil, como chegou ao mundo todo, até para aliados tradicionais dos EUA. É direito de Trump implementar as tarifas e fechar seu mercado, embora atropele acordos e quebre (ainda mais) a confiança nos EUA, vital para fechar negócios em qualquer lugar do mundo.
O problema foi sugerir que estava fazendo isso em defesa de Bolsonaro, insinuando que o Brasil deveria deixar de julgar o ex-presidente para então reduzir tarifas. É o que os filhos do ex-presidente propõem, usar a situação do pai como “poder de barganha” numa negociação com Trump.
Para o jurista Lênio Streck, o bolsonarismo criou uma situação para si de colocar o Brasil como vítima de um sequestro. “Parecem negociar a liberdade de um refém”, diz ele. Mas no caso, o refém não é Bolsonaro, e sim o Brasil. A tese, defendida pelo deputado Eduardo Bolsonaro (PL-SP), e pelo senador Flavio Bolsonaro (PL-RJ), não traria as tarifas anteriores de volta, avalia Michelle Ratton, professora da FGV Direito SP, especialista em direito internacional.”É preciso colocar o tarifaço no contexto global. Não é relativo ao Brasil ou a Bolsonaro, é como os EUA usam as tarifas em relação a todos os países desde que assumiu a presidência”, diz Michelle.
Há algo incabível no gesto de Trump, uma vez que Bolsonaro não foi condenado, avalia o jurista Pedro Serrano. “Ele é um cidadão submetido à Justiça. Está vivendo um processo. Trump está reivindicando um privilégio ao amigo dele, num momento em que nos EUA há inocentes sendo processados e o Brasil não fala nada sobre isso”, diz Serrano.
O mundo gira e ouvir além da própria bolha continua a ser o melhor antídoto para quem sonha alto. A sociedade está mais calejada e dá sinais de que está mais madura quando o assunto é democracia. De mais a mais, a situação criada cai no embalo popular de uma regra extremamente familiar a qualquer cidadão. Assim como só os filhos podem falar mal de uma mãe, ninguém pode atacar um país a não ser seu próprio povo.

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