Reação de Tarcísio a tarifaço faz dele alvo da esquerda e do bolsonarismo

No dia anterior, Fernando Haddad chamou Tarcísio de vassalo. O ministro da Fazenda reclamou de o governador culpar Lula pelo tarifaço. “Não há espaço no Brasil para vassalagem, desde 1822 [ano da independência brasileira] isso acabou.”

Houve também pressão de empresários paulistas. Agronegócio e indústria exigem que o governador defenda os interesses do estado. São Paulo exportou R$ 13,6 bilhões para os Estados Unidos ano passado.

A artilharia fez o governador abandonar São Paulo e ir a Brasília na sexta. Houve até encontro com Jair Bolsonaro. Mas ao invés de acalmar a fervura, a viagem acirrou os ânimos com o bolsonarismo.

Motivos das críticas bolsonaristas

Tarcísio está inserido num campo político que não aceita equilíbrio. Um exemplo é ele ser criticado por não atacar o STF durante seu discurso no último ato da direita em São Paulo, realizado em junho.

O tarifaço dos Estados Unidos diminuiu ainda mais a margem para moderação. A família Bolsonaro e seus aliados não aceitam solução para sobretaxa sem a contrapartida de livrar Jair Bolsonaro da cadeia.

Desde antes da posse, Eduardo enxerga em Trump uma possibilidade de virar o jogo. Em entrevista ao UOL em junho do ano passado, ele disse: “Se os Estados Unidos, que são o farol da região, mudarem, vai asfaltar o caminho para muita coisa”.

Tarcísio é criticado por não incluir a anistia na solução do tarifaço. Na avaliação da ala radical bolsonarista, esta posição do governador ficou clara quando o governador tomou a iniciativa de procurar a diplomacia americana.

As críticas também partem dos satélites da família Bolsonaro. Ex-comentarista da Jovem Pan e pessoa que acompanhou Eduardo nas reuniões pedindo sanção ao Brasil, Paulo Figueiredo comentou que Tarcísio “atrapalha”.

O blogueiro Allan dos Santos chamou Tarcísio de “ensaboado”. O adjetivo faz menção ao que a ala radical bolsonarista classifica de perfil centrão do governador.

A corrida eleitoral também está no contexto da briga. O centrão considera a moderação de Tarcísio um trunfo. O bolsonarismo fareja traição e entende que o governador quer assumir as rédeas da direita, deixando a família Bolsonaro em segundo plano. Além disso, Eduardo deseja ser candidato.

A foto de Tarcísio com boné da campanha de Trump se tornou símbolo dos ataques da esquerda
A foto de Tarcísio com boné da campanha de Trump se tornou símbolo dos ataques da esquerda Imagem: Reprodução – 3.abr.2024/Instagram

Esquerda não titubeia em atacar

A esquerda não demorou nem meia hora para criticar o governador. Líder do PT na Câmara, Lindbergh Farias (RJ) convocou uma coletiva logo que o tarifaço foi anunciado na quarta. Ele atacou Tarcísio antes mesmo de falar mal de Eduardo Bolsonaro.

Na sequência, deu entrevista a todas as televisões para reclamar do governador. A imagem de Tarcísio com o boné usado por Trump na campanha americana era mencionada buscando ligar o adversário a ideia de traidor da pátria.

No dia seguinte, Haddad criticou o Tarcísio. O ministro da Fazenda afirmou que não há argumentos técnicos para a sobretaxa porque os Estados Unidos vendem mais do que compram do Brasil. Ele acusou o governador de “ajoelhar diante de uma atitude unilateral, sem nenhum fundamento econômico”.

O PT admite que inclui Tarcísio nas declarações mirando 2026. Ele é considerado provável rival de Lula na corrida presidencial e sobretaxa americana é vista como forma de escancarar uma contradição na postura do governador.

Ninguém reclamou que a nota do Congresso não defendeu o Judiciário
Ninguém reclamou que a nota do Congresso não defendeu o Judiciário Imagem: Ton Molina/STF

Sem saída

O Congresso demorou 24 horas para se pronunciar e se colocou em defesa do Brasil. “Estaremos prontos para agir com equilíbrio e firmeza em defesa da nossa economia, do nosso setor produtivo e da proteção dos empregos dos brasileiros”

Diferente de outros atores políticos, Tarcísio não tem tempo para avaliar posicionamentos e nem direito a se omitir. Em litígio com o STF por causa das emendas, o Congresso não defendeu o Supremo em sua nota. A postura foi tomada mesmo com Trump apontado o Judiciário como um dos motivos do tarifaço. Não houve cobrança à Câmara e nem ao Senado.

O governador está numa encruzilhada. Precisa responder à pressão de empresários paulistas sem desagradar a ala radical do bolsonarismo e fazendo disputa política com a esquerda.

Mas não significa que ele está sozinho. Integrantes da cúpula do PL negaram que Tarcísio tenha procurado o STF sugerindo autorizar Bolsonaro a viajar aos Estados Unidos para negociar com Trump.

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