Tarcísio fica entre traidor da pátria ou do bolsonarismo, diz professor

Um dia após sair em defesa do presidente dos EUA, Donald Trump, que anunciou 50% de tarifas sobre produtos brasileiros, o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos) adotou tom mais ameno ao que se reuniu com o enviado norte-americano ao Brasil.

Para o cientista político da FGV (Fundação Getúlio Vargas) Marco Antônio Teixeira, o apadrinhado de Bolsonaro perde apoio da direita radical que não flerta com o golpismo.

Teixeira afirma que o governador de São Paulo está numa encruzilhada. Ele poderá ser chamado de “traidor do país” pelo campo da esquerda por ter endossado a ameaça trumpista ou poderá ser chamado de “traidor do bolsonarismo”, caso decida trabalhar por um acordo contra a implementação das tarifas sobre a economia brasileira.

O cientista político avalia que o anúncio de Trump e a reação da família Bolsonaro deu ao governo um mote “ainda mais forte” para as eleições de 2026: a defesa da soberania nacional. Na avaliação de Teixeira, a ameaça do tarifaço melhorou a posição do governo tanto no Congresso Nacional quanto para a opinião pública.

Tarcísio apoia Trump e sofre desgaste

A imagem de Tarcísio com o boné usado por Trump durante a campanha americana com a inscrição “Make America Great Again”, [em português, “Faça a América Grande de Novo”] virou munição contra o governador paulista. Com o posicionamento, Tarcísio deixa explícito o alinhamento com a direita radical.

A imagem é devastadora. Não é a morte dele porque ele tem ano e meio para as eleições e pode tentar reverter as coisas, mas vai ser mais difícil porque para se mover em direção ao centro ele precisa fazer um acordo com o bolsonarismo ou desagradar o bolsonarismo e ser chamado de traidor.

Ou Tarcísio desagrada ao bolsonarismo e é chamado de traidor, ou então, do outro lado, será chamado de traidor do Brasil, traidor da pátria. Ele tem mais a ganhar se se recolher do que continuar se expondo da forma que está.

A tonalidade que aquela foto assumiu é muito mais negativa depois do dia 9 de julho [dia do tarifaço] e causa um prejuízo muito maior do que o uso dela inicialmente. Isso se reflete nesse deslocamento que Tarcísio pretendia ao centro. Ele fica limitado daqui para frente.

Marco Antônio Teixeira, cientista político da FGV
Marco Antônio Teixeira, cientista político da FGV Imagem: Divulgação

Centro mais distante

O cientista político afirma que com o apoio a anúncio de Trump e o ataque a Lula, Tarcísio deixa de lado a estratégia de guinada ao centro. Na avaliação de Teixeira, a figura centrista e moderada do governador, que encarnava o político capaz de unificar o país, “desapareceu” momentaneamente.

Tarcísio estava pisando em ovos, ora acenava para Bolsonaro, ora se preocupava em não criar atrito com o Supremo. Ele era quase um canal de conversa do bolsonarismo com o [ministro do STF] Alexandre Moraes. Ao que parece, a relação de confiança com o chamado centro democrático não golpista foi afetada.

Se realmente Tarcísio tivesse uma estratégia consolidada de buscar o centro, ele não teria feito isso [viajado ao encontro de Bolsonaro]. O discurso da família Bolsonaro de exaltar e agradecer ao Trump, só se acentuou após o dia 9. Tarcísio ficou muito marcado com esse discurso também.

Tentativa de se mover ao centro era frágil porque não era de um grupo, era muito mais do Tarcísio e do entorno que acreditam na candidatura dele. Essa tentativa tinha o bolsonarismo de um lado como obstáculo e de outro tinha toda uma movimentação para evitar que as declarações dele afetassem o bolsonarismo.

Tarcísio passa a ser alguém mais compromissado com a defesa do Bolsonaro.

Relação perde-ganha para Tarcísio

São Paulo é o estado nacional que mais exporta produtos para os Estados Unidos. Em 2024, foram US$ 13,8 bilhões, segundo os dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços. A Embaixada do Brasil nos EUA informou que o estado é o que possui maior concentração de investimento americano no país. Isso faz com que o prejuízo econômico seja significativo para São Paulo. Além do impacto econômico, Teixeira vê prejuízos políticos para Tarcísio.

Adversários do governador, que foram muito eficientes na crítica contundente a ele, vão estar ali no encalço dele. Tarcísio, que já não tinha uma vida tranquila entre o Gilberto Kassab (PSD) e Bolsonaro, terá mais dificuldade pela frente. Não sei quem ele vai escutar daqui para frente.

Se o Tarcísio escutar mais o Kassab, ele vai se deslocar para o centro. Provavelmente ele não escutou o Kassab para falar o que falou. Do contrário, teria ficado quieto ou esperado a situação tomar uma direção mais clara para se posicionar.

No início, Tarcísio não deu importância econômica, depois ajustou o discurso. A posição do vice-governador, Felício Ramuth (PSD) foi contrária à do governador. Ele se pronunciou no sentido de que o anúncio foi um erro dos EUA. Não há uma visão homogênea neste momento dentro do governo.

Tarcísio ganha a confiança dos Bolsonaro, que estava em baixa ultimamente, mas perde a confiança da direita não golpista.

Ele pode criticar o Lula, mas não pode criticar o Bolsonaro. Por isso, muitas vezes ele prefere ficar quieto do que falar demais.

Governadores bolsonaristas

Os governadores Ronaldo Caiado (União), de Goiás, Romeu Zema (Novo), de Minas, que têm ambição presidencial, correram para se posicionar a favor do presidente dos EUA e atacar o presidente Lula. Mas, na avaliação do cientista político, Tarcísio foi mais exposto à crise entre Brasil e EUA, já que ele é o provável nome que herdará o capital político de Bolsonaro na disputa presidencial de 2026.

Os governadores que mais se expuseram foram aqueles que têm pretensões eleitorais para o ano que vem e que mais fazem embate diretamente com o governo federal.

A taxação afeta, sobretudo, os lugares em que mais se concentra o eleitorado do próprio Bolsonaro. São estados com a economia baseada, majoritariamente, no agronegócio, no aço e na mineração.

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