Brasil lidera grupo para estudar biodiversidade do solo e embasar políticas ambientais

Um grupo de cientistas de todo o mundo, liderado por membros da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), propôs a criação de um observatório global unificado para monitorar a biodiversidade do solo, o Glosob (Global Soil Biodiversity Observatory).

A iniciativa sugere padronizar indicadores e unificar bancos de dados para aprimorar a capacidade de monitoramento de cada país, bem como apoiar a formulação de políticas públicas ambientais baseadas em evidências científicas, o que pode melhorar as avaliações em nível mundial, com impacto direto na agricultura.

Na proposta, os pesquisadores reforçam a importância do solo para a vida no planeta. Lembram que abriga 58% da biodiversidade mundial, mas é pouco monitorado e “altamente vulnerável às mudanças climáticas e ao mau uso da terra”. A preocupação é com o impacto sobre essa biodiversidade, que fornece serviços ecossistêmicos vitais para o ser humano, como a produção de alimentos, água limpa e o armazenamento de energia e nutrientes.

A partir do monitoramento padronizado da biodiversidade do solo, a expectativa é identificar as melhores práticas para a conservação e o uso sustentável dessa biodiversidade.

Indicadores desconsideram biodiversidade

A proposta foi publicada nesta segunda-feira (14/7) na revista Nature. Antes, havia sido aprovada em reunião da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO). Ao todo, 29 cientistas de nove países se uniram para propor do Observatório Global da Biodiversidade do Solo.

Os pesquisadores argumentam que, atualmente, dois indicadores nas convenções internacionais abordam os solos: um índice de agrobiodiversidade e outro de mudanças nos estoques de carbono. “Não consideram a biodiversidade nem as interações biológicas que regulam os ciclos biogeoquímicos e outras funções ecossistêmicas essenciais para a vida na terra”, afirma George Brown, pesquisador da Embrapa Florestas (PR).

Ao todo, 29 cientistas de nove países se uniram para propor do Observatório Global da Biodiversidade do Solo — Foto: Embrapa
Ao todo, 29 cientistas de nove países se uniram para propor do Observatório Global da Biodiversidade do Solo — Foto: Embrapa

Com o Glosob, o objetivo é identificar pontos críticos de biodiversidade do solo e áreas de monitoramento chave, para garantir a coleta de dados mais representativa e estratégica. E capacitar todos os países para contribuir com a pesquisa, independentemente de seus recursos técnicos e financeiros.

“Hoje, nem todos têm capacidade para monitorar os organismos do solo, e diversas análises globais revelam que muitas regiões permanecem subestimadas”, explicou a pesquisadora Maria Elizabeth Correia, da Embrapa Agrobiologia (RJ), que também assina o artigo no periódico.

A proposta prevê a estruturação do Glosob em cinco eixos:

  • Padronização dos métodos para medir os indicadores da biodiversidade do solo;
  • Integração da biodiversidade em levantamentos convencionais do solo e sistemas nacionais de informação do solo;
  • Aumento no apoio financeiro, institucional e de capacitação aos países;
  • Conscientização sobre o papel e o valor dos organismos do solo e suas funções para a prestação de serviços ecossistêmicos;
  • Melhora na interação sobre biodiversidade e indicadores, com informações sobre melhores práticas e modelos econômicos e estruturas políticas e legais projetadas para proteger e restaurar o ecossistema solo.

O monitoramento também deve permitir avaliações sobre a situação desses ecossistemas em todo o mundo, abrindo espaço para a construção de mapas globais de distribuição da biodiversidade e de um banco de dados unificado. A intenção também é ter a colaboração de povos indígenas, comunidades tradicionais, produtores rurais e especialistas técnicos.

O plano para colocar o Glosob em funcionamento envolve quatro etapas, com finalização prevista até 2030. Segundo a pesquisadora Cintia Carla Niva, da Embrapa Suínos e Aves (SC), a empresa brasileira pode ser importante aliada na escolha de locais de monitoramento no Brasil.

“Nosso país se destaca entre os de clima tropical com expertise em biodiversidade do solo, e vários dos cientistas especialistas são da Embrapa”, argumenta.

Dos 29 cientistas que assinam o artigo publicado na revista, estão pesquisadores de quatro unidades da Embrapa:

  • George Gardner Brown, Lucília Maria Parron Vargas e Talita Ferreira (Embrapa Florestas);
  • Maria Elizabeth Fernandes Correia, Ederson Conceição Jesus, Márcia Reed Coelho, Guilherme Montandon Chaer e Luiz Fernando de Souza Antunes (Embrapa Agrobiologia);
  • Ieda Mendes, Juaci Malaquias, Ozanival Dario Silva e Maria Inês Oliveira (Embrapa Cerrados);
  • Cintia Carla Niva (Embrapa Suínos e Aves);

A intenção é lançar a proposta do Glosob oficialmente na próxima Conferência das Nações Unidas sobre Biodiversidade (COP 17), em 2026, para quando há a expectativa de que os países apresentem propostas de como irão implementar as decisões relacionadas à iniciativa da biodiversidade do solo.

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