Trump acertou em cheio Tarcísio, o

O governador perdeu o senso depois do vomitório que Trump endereçou a Lula, anunciando sanções ao Brasil. A suposta perseguição a Bolsonaro aparece, sabemos, como uma das três alegações para a taxação estúpida. Se as medidas forem implementadas, São Paulo será o Estado mais atingido. O titular do Palácio dos Bandeirantes, de imediato, achou que era uma boa ideia atacar Lula — que nada tem a ver com os processos que colhem Bolsonaro — e poupar o presidente norte-americano.

A elite empresarial se espantou. “Esperem aí… Então é esse o líder em que estamos apostando? Diante de uma óbvia agressão aos interesses econômicos do país — e isso quer dizer, também e principalmente, dos nossos interesses —, ele ignora o ataque do agressor e prefere fazer uma crítica política rasteira a quem nem mesmo é responsável pelos processos que colhem Bolsonaro? Esse que aparece frequentemente na mídia como o emplastro que cura até melancolia (para lembrar Machado de Assis) não é capaz de se livrar da canga de seu chefe político nem para defender os brasileiros”?

Sim, caros, por mais que a expressão “interesse nacional” soe estranho num país de tantas iniquidades, o dito-cujo existe. A taxação que o Agente Laranja quer impor ao país, por exemplo, é ruim para todo mundo — ainda que em graus distintos. Qual seria mesmo o lema? “O Brasil acima de tudo; Deus acima de todos, e Bolsonaro acima de Deus”?

Mas atenção! Até esse ponto, Tarcísio ainda não é I Juca Pirama. Estava queimando o filme com aqueles que o veem como a grande resposta a essa bobagem chamada “polarização”, que passou a ser uma categoria de pensamento, também na imprensa, que explica tudo, menos o que importa.

A péssima repercussão de sua fala o desorientou de vez. E aí é possível que algum mau gênio tenha saída da garrafa com uma resposta rápida e fulminante, buscando realimentar a notável competência que ele tem de criar a fama de que é competente. E a “grande ideia” surgiu: “Vá se encontrar com um representante da embaixada norte-americana no Brasil e lance lá no STF uma ideia que, bem…, só um gênio pode ter: sugira que se devolva o passaporte a Bolsonaro para que ele vá aos EUA negociar diretamente com Trump”. Uau!

O governador da “fazeção” estaria, assim, a demonstrar que, enquanto Lula protesta contra a taxação, ele busca resolver, como se houvesse alguma instância de negociação entre São Paulo e Washington. Sabem como é… Coisas do “marquetingue”. Então o tribunal atacado por Trump franquearia a Bolsonaro a chance de conversar sabe-se-lá-o-quê com aquele Senhor, que usou justamente os processos contra o ex-presidente e outros julgados sobre as redes sociais como justificativa para as sanções? Alguém tem algum ligeira ideia de qual seria a negociação? Esses entes espirituais que dominam o Brasil — “Azelites” e “Uzmercáduz” — ficaram ainda mais espantados.

A REAÇÃO DO NÚCLEO DURO DO BOLSONARISMO
Mas aí veio a outra lapada, a do núcleo duro do bolsonarismo, capitaneada por Eduardo: não há negociação possível, diz essa turma, sem a anistia a todos os condenados, a extinção dos processos e a punição a ministros do Supremo — sim, talvez se contentassem apenas com a cabeça de Alexandre…

Esses setores do bolsonarismo — e o próprio Bolsonaro se manifestou ontem nesse sentido — viram no encontro do governador com o representante da embaixada uma tentativa de amenizar as sanções ao Brasil sem resolver a questão que consideram central. E aí, de fato, Tarcísio ficou como a personagem de Gonçalves Dias, “sem arrimo, sem pátria, vagando”. Nesse ponto, passou a ser “rejeitado da morte na guerra, rejeitado dos homens na paz”. Consolidou-se a imagem do “moderado para moderados” e do “radical para radicais”, como num jogo de esperteza que busca trapacear os dois lados.

É O FIM DO PRÉ-CANDIDATO TARCÍSIO?
Reitero: no Brasil e no mundo, nos últimos tempos, o passado já anda muito incerto. Quem diz quer sabe o que vai acontecer está mal-informado. A política pode comportar arranjos e soluções aparentemente despropositadas — quase sempre há uma causa que as explica.

Tarcísio é inequivocamente o nome do dinheiro graúdo. Seus “pensadores” acreditam que ele pode trazer o bolsonarismo para a moderação, baixando substancialmente o seu teor ideológico, acenando para setores que são refratários ao “capitão”. Seria uma conciliação pelo caminho de um reacionarismo mais educado.

Pois é… Faltou combinar com os russos — nota: não há registro de que Garrincha tenha dito isso ao técnico Feola quando este deu instruções sobre como furar a defesa adversária. Já escrevi nesta coluna e relembro: governo e comando da oposição são lugares de poder. Não parece que os Bolsonaros estejam dispostos a passar o bastão da direita e da extrema direita a Tarcísio.

A natureza do jogo nos diz que, se isso acontecesse, seria ele a liderar a direita, construindo o bolsonarismo sem Bolsonaro. “Ué, mas então você deve achar que isso seria bom, não é, Reinaldo, já que vive criticando os caras?”. Não seria. Em qualquer vertente, defendo que essa corrente, ou como queiram chamar, seja combatida e vencida. Não vejo “menos pior” nesse caso. Estou a dizer como as coisas se dão naquelas paragens.

A ala “autêntica” do bolsonarismo sabe que Tarcísio, hoje, quer usá-la como instrumento de negociação com os “moderados”, como a dizer: “Eu controlo essa turma”. E esta parece disposta a dizer que não aceita esse comando. Se vai resistir à pressão do tal dinheiro graúdo, bem, também isso eu não sei.

CONCLUO
De toda sorte, a reputação de Tarcísio como prestidigitador da política sofreu um severo abalo. Em certa medida, ele acabou se tornando a principal vítima da maluquice de Trump. Mas é claro que não desistiu de disputar a Presidência. Bastaria, já escrevi aqui, que assinasse uma carta pública: “não disputo e ponto”. Já há bolsonaristas fazendo essa cobrança nas redes. Acho que ele ainda não desistiu de oferecer na bandeja o bolsonarismo radical para os moderados e os moderados para o bolsonarismo radical. Esse é o sonho do “extremismo de centro”, que também se desmoralizou. São os valentes que veem polarização até entre a mão direita e a esquerda; entre o polegar e os demais dedos. Não é um pensamento político. Trata-se apenas de uma marquetagem eleitoreira.

A “Teoria da Polarização” é a outra grande vítima política das taxas de Trump.

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