Governo vê Trump convencido de causa bolsonarista e teme novas sanções

A percepção desses diplomatas brasileiros é que, se já houve resistência na administração Trump em relação ao discurso do deputado federal licenciado Eduardo Bolsonaro e do comentarista político Paulo Figueiredo, a essa altura ambos conseguiram convencer a máquina da Casa Branca de que os Bolsonaros são vítimas de perseguição política e de que o judiciário brasileiro foi instrumentalizado.

A interpretação coincide com a visão dos próprios bolsonaristas, que admitem ter enfrentado certa hesitação do Tesouro dos EUA em relação a sanções financeiras contra Moraes em maio, o que já teria sido superado, segundo eles, e o clima na última visita de ambos a Casa Branca, há 3 dias, teria sido de “portas abertas”.

“Todas as opções estão na mesa do presidente Trump, mas ninguém sabe o que ele vai fazer”, afirma o comentarista político Paulo Figueiredo que nos últimos 6 meses liderou, ao lado de Eduardo uma campanha de convencimento da gestão republicana por sanções ao Brasil.

Embora não descartassem tarifas, ambos priorizavam medidas punitivas individuais às autoridades do país – como o uso das sanções financeiras da Lei Magnitsky. Trump decidiu diferente e, aparentemente convencido de que Jair Bolsonaro espelha o seu próprio périplo judicial e ocaso político no período fora do poder, aplicou ao país a solução que também adotou contra outros aliados que têm pressionado: tarifas.

Na última sexta, o senador Flávio Bolsonaro explicitou a situação: em uma postagem, pediu que Trump trocasse as tarifas por sanções individuais. Depois apagou o post. Ao colunista Igor Gadelha, do Metrópoles, Flávio afirmou que “é o tipo da coisa que não está no nosso controle. O Trump faz o que tá na cabeça dele”.

A relação entre Brasil e EUA enfrenta uma vertiginosa sequência de atos nos últimos 12 dias que não encontra paralelo na história da parceria entre os dois países.

No último dia 7, Trump foi às redes sociais se posicionar a favor de Jair Bolsonaro, réu em um processo judicial por tentativa de golpe de Estado que Trump qualifica como “uma caça às bruxas”.

No dia seguinte, o Departamento de Estado acusou o Brasil de “perseguir” Bolsonaro e chamou a situação de “vergonha internacional”. No dia 9, Trump repetiu seus argumentos pró-Bolsonaro e contra o Supremo Tribunal Federal em uma carta em que anunciava tarifas de 50% sobre o Brasil e ordenava que o julgamento do ex-presidente fosse interrompido “imediatamente”. Uma semana mais tarde, caberia ao Representante de Comércio dos EUA (USTR, na sigla em inglês) abrir uma ampla investigação contra o Brasil por supostas práticas desleais de comércio.

É a décima vez desde 1974 que o Brasil enfrenta um inquérito do tipo, e dessa vez está na mira até mesmo o PIX, serviço de pagamento do Banco Central. Finalmente, três dias depois, na última sexta, o Departamento de Estado anunciou a restrição a visto e entrada no país ao ministro do STF Alexandre de Moraes e “aos seus aliados da Corte”. Embora o Departamento de Estado não confirme oficialmente, a coluna apurou que, além de Moraes, mais sete ministros do STF foram sancionados, assim como o procurador-geral da República Paulo Gonet.

Embora não tenha definido ainda sua resposta em termos de tarifas e tenha pedido por negociações comerciais – sem ter resposta dos EUA – o Brasil também se moveu. Cobrou em duas ocasiões explicações do encarregado de negócios dos EUA em Brasília, Gabriel Escobar, e afirmou que não negociaria com a soberania nacional. Em uma entrevista à CNN Internacional Lula disse que “se o Trump morasse no Brasil e tentasse fazer aqui o que ele fez no Capitólio, certamente seria julgado e poderia ser preso”.

O republicano enfrentava ações judiciais pela insurreição trumpista no congresso americano em 6 de janeiro de 2021, mas os processos foram trancados após sua vitória eleitoral – e ele garantiu anistia total aos apoiadores condenados na Justiça ainda no primeiro dia de seu segundo mandato.

Já no STF, o ministro Alexandre de Moraes deu novas ordens a redes sociais americanas, como a Rumble, para retirada de conteúdos do ar – exatamente o que Trump tinha criticado em uma de suas cartas. Também determinou medidas cautelares a Jair Bolsonaro, como uso de tornozeleira eletrônica e recolhimento domiciliar noturno, como resultado das atividades de Eduardo nos EUA, às quais Moraes chamou de “campanha criminosa”. Eduardo é investigado por obstrução de justiça, entre outros crimes.

As cautelares contra Jair enfureceram expoentes do círculo de Trump. Seu ex-porta-voz, Jason Miller, compartilhou em suas redes sociais a informação de que Bolsonaro seria impedido de falar com o filho Eduardo. Já Alex Bruesewitz chamou de “perversa” a decisão de Moraes. Ambos comemoraram o anúncio do banimento de visto às autoridades brasileiras mais tarde no mesmo dia.

Em Brasília, embora haja vozes dissonantes, parece ganhar força entre os auxiliares de Lula a ideia de que ao Brasil interessaria adotar cautela e um compasso de espera antes de tomar novas medidas. Além da nota de Lula de solidariedade aos ministros do STF, nenhum grande ato deve ser tomado. Ao menos até a próxima segunda-feira.

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