Após tarifaço, Tarcísio evita entrevista na capital e foca no interior

Tarcísio de Freitas (Republicanos) completa hoje 20 dias sem dar entrevistas coletivas na cidade de São Paulo (SP). Desde o anúncio das tarifas de 50% para produtos brasileiros pelos EUA, o governador de São Paulo só falou com jornalistas em encontros no interior do estado.

O que aconteceu

Última fala de Tarcísio com a imprensa na capital aconteceu no dia 10. Na recepção ao primeiro trem da Linha 6-Laranja, o governador afirmou que o tarifaço é “deletério” (ruim para o país), que o ministro da Fazenda Fernando Haddad (que o havia chamado de “vassalo“) devia “cuidar da economia” e defendeu que “questões ideológicas” fossem deixadas de lado e a situação fosse resolvida por meio de negociação, o que irritou o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL).

Qualquer tentativa de acordo sem um primeiro passo do regime em direção a uma democracia será interpretado como mais um acordo ‘caracu’, pois isso já foi exaustivamente tentado no passado
Eduardo Bolsonaro (PL-SP), deputado federal, nas redes sociais em 11/07/2025

Desde então, só houve entrevistas no interior. Em seis delas, Tarcísio abordou o tarifaço. Em outras cinco, nem isso. Nas ocasiões em que falou sobre o assunto, o governador reforçou que acredita na negociação, atribuiu ao Governo Federal a competência para fazê-la e tentou despolitizar o problema.

É a hora de deixar a política de lado, ver o interesse nacional, entender a natureza do movimento geopolítico que está em curso para que a gente busque o interesse nacional. Busque o interesse do país, vá para a mesa de negociação, deixando qualquer questão, deixando a ideologia, deixando diferenças de lado
Tarcísio de Freitas (Republicanos), governador de São Paulo, em entrevista coletiva em Rio Claro em 22 de julho

Na capital, governador “driblou” a imprensa. No último dia 23, em evento ligado à Sabesp, Tarcísio saiu pelos fundos do palco sem falar com jornalistas. Houve situação parecida após entrega de casas em Embu das Artes no último dia 17, quando o governador embarcou em um carro sem falar com nenhum repórter.

Realização de entrevistas foi informada “a jornalistas de todo o Estado”, afirma assessoria de imprensa de Tarcísio. Em nota, o órgão informou que, no dia 12, “o governador atendeu à imprensa, inclusive veículos da capital que se deslocaram até Cerquilho”, cidade a 146 km de São Paulo (SP).

A entrevista mais recente ocorreu no último sábado (26), em Itu, a cerca de 100 quilômetros da Capital. Além disso, o governador atendeu a todos os veículos de imprensa que estiveram presentes durante viagens à Região Metropolitana de Sorocaba, nos dias 24 e 25 de julho
Governo do Estado de São Paulo, em nota enviada ao UOL no dia 28

Ligação do tarifaço com padrinho de Tarcísio cria constrangimento para governador. Na carta em que explicou os motivos da medida, o presidente americano Donald Trump apontou uma suposta perseguição política contra Jair Bolsonaro (PL) como principal razão para as tarifas. Tarcísio foi ministro de Bolsonaro.

Medida é resultado de articulações do filho do ex-presidente. Nos EUA desde março, Eduardo Bolsonaro já admitiu que se movimentou politicamente para que o Brasil fosse alvo de sanções. Assim, ao criticar o tarifaço, Tarcísio se opõe a uma medida que é fruto de seus próprios aliados.

“A solução vai vir da compreensão”

Falas conciliatórias de entrevistas se repetem nos discursos. Desde o anúncio do tarifaço, Tarcísio fez 10 falas públicas. Em oito delas, o tema não foi abordado. Durante uma exposição de citricultores em Bebedouro no dia 21 e um painel para empresários na capital no último sábado (26), o assunto foi tratado.

“Aplicação de tarifas cria um mercado viciado”, disse Tarcísio a agricultores no interior. No evento, ele afirmou que as taxas tornam as “empresas dependentes do Estado” e disse que a solução do impasse “vai vir da compreensão”. “Não é possível que a gente não consiga conversar”, declarou à época.

Para empresários, governador falou que estado mantém contato de forma “profissional” e “silenciosa” com americanos para “sensibilizar para o tamanho do problema”. “Se a gente não botar a bola no chão, não agir como adulto e não resolver o problema, quem vai perder é o Brasil”, afirmou Tarcísio — irritando Eduardo.

É hora dos homens tirarem os adultos da sala
Eduardo Bolsonaro (PL-SP), deputado federal, nas redes sociais em 27/07/2025

Tarifaço entra em vigor na sexta (1º). Após anúncio, Lula (PT) disse que pode adotar Lei da Reciprocidade em caso de implantação das tarifas. Pela regra, os produtos americanos também seriam taxados em 50%. Na TV, o atual presidente chamou o tarifaço de “chantagem” e de “traidores da pátria” seus entusiastas.

Caso saia do papel, tarifa pode provocar uma queda de até 75% nas exportações de alimentos para o mercado norte-americano. O cálculo é do Centro de Estudos do Agronegócio da Fundação Getúlio Vargas. Carne, café e suco de laranja seriam os principais produtos afetados.

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