Papo de que Lula tem de ligar já para Trump ou é burrice ou é vagabundagem

Lula já respondeu nas redes a uma fala que, por ora, é muito menos do que um aceno:
“Sempre estivemos abertos ao diálogo. Quem define os rumos do Brasil são os brasileiros e suas instituições. Neste momento, estamos trabalhando para proteger a nossa economia, as empresas e nossos trabalhadores, e dar as respostas às medidas tarifárias do governo norte-americano.”

Raquel fez a coisa certa, obviamente, como quase sempre acontece com dois-correguenses, ao indagar sobre a possibilidade de diálogo, até porque conseguiu captar como “O Homem que Tarifava” vê a questão. O debate estúpido é aquele que se assucedeu (sim, o dicionário abona) e também o que precedia a fala.

PODE CONVERSAR, MAS COMO?
Ora, é evidente que Lula pode conversar com Trump, até mesmo ligar para ele. Mas para tratar de quê? Poucas pregações são tão idiotas ou de má-fé como essa. Chefes de Estado não se falam, para lembrar o querido Guilherme Arantes, no mar da incerteza e sem nem mesmo um farol. Se há uma conversação, tem de ser sobre alguma coisa. Os últimos termos da relação política entre os dois países foram dados por Trump numa carta delinquente, em que trata o Brasil como um puxadinho no qual ele pode dar as ordens. Subordinou, sem reservas, as tarifas impostas ao Brasil a uma exigência feita o STF: que anule a ação penal que existe contra Jair Bolsonaro. Sei lá que ideia ele faz do país, mas alguém lhe deve ter dito que, por aqui, o chefe do Executivo pode bater o chicote, e ministros obedientes lhe farão as vontades. Ainda que fosse assim, por que Lula se mobilizaria por Bolsonaro? Ocorre que não é.

Um comunicado da Casa Branca no dia em que foi publicada a ordem executiva com o tarifaço ameaça o país até com uma intervenção militar ao afirmar que, na relação entre os dois países, Trump busca a paz por intermédio do uso da força. Isso é explícito. Nos, digamos, prolegômenos da ordem executiva do tarifaço, aparece, de novo, a questão Bolsonaro, somada à da defesa da impunidade para as “big techs”. Ainda que o pacotaço seja muito menos deletério do que se esperava, a agressão ao país é explícita. Como somos dos poucos países com os quais os EUA têm superávit, as tarifas saem do terreno do injustificável para o do absurdo. Vale dizer: tarifar um parceiro porque a relação é deficitária já é uma estupidez; sendo superavitária, é uma aberração.

OS MALANDROS
Pois bem: Lula haveria de telefonar para Trump por quê? Em nome da “ética da responsabilidade”, como sustentou o senador Eseridião Amin (PP-SC), que, não tendo, obviamente, lido Max Weber, daí a citação ignorante que fez, não leu também o “Manual do Perfeito Idiota de Direita Latino-Americano”? Ainda não está em livro, mas essa história está sendo escrita todos os dias.

Os que defendem com ênfase que Lula telefone já para Trump ou são tolos — e não sabem como funcionam as relações internacionais — u são safados. Esfregam suas mãozinhas sujas de ideologia vigarista, na esperança de que Trump submeta Lula ao “bullying” a que expõe todos os chefes de Estado com os quais falou, independentemente da riqueza ou pobreza do país; da influência maior ou menor do líder com o qual conversa; da importância regional ou mundial da naçãos que o interlocutor representa.

Zelensky foi transformado num ditador ingrato; Mark Carney, primeiro-ministro do Canadá, num cara que resistia a um negócio imobiliário fantástico: vender o seu país aos EUA; o primeiro-ministro do Japão, Shigeru Ishiba, virou “o japonês” (eles esqueceu o nome do homem) e foi, nas entrelinhas, acusado de ser meio alienado; Ursula von der Leyen, presidente da Comissão Europeia, aí em encontro na Escócia, virou uma garotinha assustada, enquanto ele, com as pernonas abertas, as mãos meio largadas entre elas, em sinal de impaciência, ia fazendo suas imposições; Cyril Ramaphosa, que preside a África do Sul, foi acusado de tolerar massacres de fazendeiros brancos, e os casos a que Trump se referia eram do Congo; Joseph Boakai, presidente da Libéria, foi elogiado por seu inglês porque Trump, obviamente, ignora a origem daquele país e as iniquidades dos EUA que marcam sua história.

Os idiotas talvez não saibam de nada disso. Mas os espertalhões, que sonham com frêmitos gozosos se Trump humilhasse Lula, ah, estes sabem muito bem! Ademais, destaco: humilhação que seria impossível porque, por óbvio, Lula responderia. E aí vem o golaço da abordagem que fez o “New York Times” da entrevista concedida pelo presidente brasileiro: ele é o único chefe de Estado que desafia Trump porque sua história lhe permite fazê-lo.

REUNIÃO APENAS PARA CELEBRAR O JÁ DECIDIDO
“Ah, Reinaldo é contrário a que Lula fale com Trump! Que radical!” Não. De jeito nenhum! Peço licença para citar aqui um político que pertence à tradição do conservadorismo brasileiro no tempo em que ele anda conseguia ser bom, pensar e ponderar. Não estava escondido no chinelão cheio de chulé — ele próprio disse tê-lo — de Jair Bolsonaro: reunião serve apenas para sacramentar o que já foi decidido. Estou me referindo a Tancredo Neves.

Assim que o Brasil chegar à forma final de um acordo com os EUA, Lula pode falar com Trump. E, ainda assim, se o acordo for positivo também para o Brasil. Conversa privada, sem transmissão ao vivo.

Entendo que haja pessoas com dificuldade de entender o que é autonomia, especialmente aquelas que, curtidas e deformadas pelo “dolce far niente” do “PAItriarcado”, nunca precisaram trabalhar para ganhar a vida.

Vão estudar como se dão as relações diplomáticas. Ou consultem um analista para saber o que é independência moral. De resto, encerro lembrando: ficando tudo como está, é claro que o Brasil terá de retaliar. E deverá fazê-lo com inteligência, em pontos estratégicos, onde mais doa aos EUA. Sem essa de “tarifa por tarifa”: há também quem torça por isso porque seria ruim para a economia brasileira. E, nesse caso, alguns vagabundos, que não têm nem coragem nem autonomia para criticar as tarifas de Trump, poderiam posar de salvadores da pátria, preparando, ao mesmo tempo, editais malandros para vendê-la.

Essa é a natureza do jogo.

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