Sítio São Felix é exemplo de respeito à vida marinha

Sítio São Felix

Sítio São Felix

Não é exagero dizer que o amor foi a base para a fundação, em 1993, da primeira fazenda de aquacultura orgânica do Brasil, idealizada pelo biólogo carioca Alexandre Alter Wainberg, um sujeito apaixonado por tudo o que envolve a vida marinha.

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Hoje, a Primar está sob o comando de Márcia Kafensztok, esposa de Wainberg, também carioca e formada em design gráfico. Os dois permaneceram juntos até a ocorrência de uma tragédia: um assassinato pôs fim à vida do esposo e à convivência de 30 anos.

Márcia Kafensztok: “Como não utilizamos ração, nosso camarão não deixa nenhum rejeito na água” — Foto: Jô Carvalho
Márcia Kafensztok: “Como não utilizamos ração, nosso camarão não deixa nenhum rejeito na água” — Foto: Jô Carvalho

A Globo Rural visitou o Sítio São Felix, sede da Primar, localizado em Tibau do Sul, litoral sul do Rio Grande do Norte. Na entrada, o portão de madeira marrom exibe algumas certificações e prêmios que a empresa já conquistou, sinal de reconhecimento das boas práticas, que têm sido a marca da trajetória da companhia.

São 42 hectares e nove viveiros, que fornecem 43 toneladas de camarão ao ano, e também um estoque de 35 mil ostras. O Sítio São Felix adota o sistema de cultivo multitrófico integrado, em que os criadores povoam os viveiros com espécies que têm diferentes exigências alimentares, em um arranjo que busca equilíbrio e sinergia positiva entre os organismos.

A criação desse ecossistema natural protege a biodiversidade, diminui o estresse dos animais e também a ocorrência de doenças. “Como não utilizamos ração, nosso camarão não deixa nenhum rejeito na água”, conta Márcia.

Hoje, a Primar produz mais de 40 toneladas de camarões por ano e tem um estoque de 35.000 ostras — Foto: Jô Carvalho
Hoje, a Primar produz mais de 40 toneladas de camarões por ano e tem um estoque de 35.000 ostras — Foto: Jô Carvalho

Nos cultivos convencionais, parte da ração vai parar no fundo dos viveiros, e a matéria orgânica que se acumula causa mau cheiro. Além disso, com o tempo, a ração que vai para o fundo do viveiro também pode degradar o solo. Na criação da Primar, esses problemas não ocorrem.

Márcia assumiu a gestão da fazenda em 2015, após a morte de Alexandre. Apesar do luto, ela entendeu que precisava dar continuidade ao legado do marido. Ele tinha paixão pela aquacultura, o que a esposa admirava. “Eu chorava sozinha, mas não parava de trabalhar. Tive uma rede de apoio muito grande de todos os funcionários, que me ensinaram muitas coisas. Muitos professores que tinham amizade com Alexandre também se ofereceram para apoiar voluntariamente nossa produção”, conta.

A operação da Primar começou com o cultivo convencional de camarões nativos. Nos dez anos seguintes, a empresa passou a atuar no monocultivo intensivo do camarão-do-pacífico, o Litopenaeus vannamei.

Sítio São Felix — Foto: Estúdio de Criação
Sítio São Felix — Foto: Estúdio de Criação

Em 2002, a Primar decidiu mudar a estratégia e centrar o foco na produção sustentável do crustáceo. Um ano mais tarde, obteve a certificação orgânica do Instituto Biodinâmico (IBD).

Na sequência, em 2005, a Primar deu mais um passo adiante e passou a cultivar ostras nativas da espécie Crassostrea gasar, que comprava de pescadores da região. A empresa avaliou, no entanto, que continuar com esse modelo de produção iria contra o propósito que decidira seguir.

“Se você ficar extraindo as ostras do mangue, uma hora elas acabam. Alexandre percebeu que não havia nada de sustentável nisso e, então, colocou na cabeça que iria montar um laboratório para reprodução. Foi uma iniciativa dele, feita com recursos próprios. Ele tomou empréstimo no banco e até se endividou”, recorda Márcia.

Sementes de ostras

A Primar inaugurou, em 2014, seu laboratório de produção de sementes de ostras. No local, cinco pesquisadores trabalham para aprimorar a reprodução do molusco. Invisíveis a olho nu e dispostas em um dos tanques instalados na sala, as sementes ganham forma, e seus movimentos ficam aparentes sob o microscópio.

Há no Brasil apenas duas estruturas voltadas a esse fim. Uma é a da Primar, e a outra fica na Universidade Federal de Santa Catarina, Estado que lidera a produção de ostras no Brasil. O laboratório também abriga 15 cepas diferentes de microalgas. São cinco espécies do organismo produzidas para alimentação das larvas de ostras.

Hoje, a manutenção dessa estrutura de ponta ocorre principalmente com recursos da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), agência pública que dá apoio a projetos inovadores. Os recursos custeiam o trabalho de pesquisadores e ainda dos 18 funcionários da Primar, todos contratados em regime CLT.

Laboratório abriga 15 diferentes cepas de microalgas, que vão alimentar as larvas das ostras — Foto: Jô Carvalho
Laboratório abriga 15 diferentes cepas de microalgas, que vão alimentar as larvas das ostras — Foto: Jô Carvalho

Mesmo com toda essa tecnologia na produção do molusco, a atividade tem seus gargalos. Um dos maiores é o descarte da concha, que vai para o lixo após o consumo do alimento. Para tentar mudar isso, a Primar desenvolveu um projeto para reaproveitar as conchas, que, após trituradas, podem virar peças para artesanato.

Também há o intuito de reaproveitá-las como matéria-prima para criação de tábuas, que poderão servir para a construção de casas.

Conhecimento

O amor de Alexandre Wainberg pela pesquisa marinha também está implícito nas centenas de livros sobre o tema que ficam na sala de onde Márcia administra a fazenda. A inovação é constante.

A Primar recebe estudantes e pesquisadores de diversas regiões do Brasil e até do exterior, que contam com alojamento exclusivo para apoio aos estudos. Estudantes já produziram 40 trabalhos de conclusão de curso a partir dos métodos de produção da empresa

Para manter vivo o sentimento do marido, Márcia revela que pretende criar, daqui a dez anos, um instituto de pesquisa na propriedade.

“O que a gente pode fazer com pesquisa dentro da água é muito mais do que se pode fazer na terra. Quando você produz proteína dentro da água, abre-se um leque de possibilidades para alimentar a humanidade. Já temos muitos estudos com gado e plantas, mas e no mar? Ainda há muita coisa para conhecer, e eu acredito que a busca por sustentabilidade passa pela pesquisa”.

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