Tarifaço dos EUA abre espaço para Brasil acelerar acordos comerciais, diz analista

A ofensiva tarifária dos Estados Unidos, que atingiu exportadores brasileiros de alguns setores, começa a ser vista também como uma oportunidade de reposicionamento estratégico do Brasil no comércio internacional. Apesar das perdas pontuais — como no café, cujo preço ao consumidor americano já subiu 39% e deve ser incluído em breve na lista de exceções às sobretaxas —, o analista Carlos Cogo afirma que o movimento destravou conversas paradas há mais de duas décadas e pode acelerar acordos comerciais bilaterais.

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“O acordo com a União Europeia pode sair depois de 24 anos e ampliar em até 3% ao ano nossas exportações para o bloco”, afirmou o analista. “Todos os importadores estão em busca de realocar suas comprar para não depender dos EUA”, completou em palestra virtual promovida pela Associação Brasileira das Indústrias de Máquinas Agrícolas (Abimaq).

Sobre o tarifaço, Cogo acredita que o Brasil pode abrir mão de algumas tarifas para acelerar as negociações. “Praticamos tarifas de importação de 8% a 10% em setores onde já somos altamente competitivos e não precisava. No fim de abril, o governo brasileiro chegou a zerar tarifas de importação para uma lista de commodities, como o açúcar. A medida passou praticamente despercebida, reflexo da posição dominante do país nesses mercados.”

Fertilizantes

Se, de um lado, o tarifaço estimula novas negociações, de outro, evidencia vulnerabilidades históricas. O Brasil importa cerca de 90% dos fertilizantes que consome — insumo que representa até 25% do custo de produção de algumas commodities. A Rússia sozinha responde por quase um terço do volume importado, cerca de 14 milhões de toneladas por ano.

As tensões renovadas entre Washington e Moscou, com novos ataques verbais do ex-presidente Donald Trump, voltaram a comprometer a segurança das operações no setor. “É impossível substituir rapidamente esse fornecimento. Temos de negociar com os russos, ao mesmo tempo em que buscamos recalibrar a matriz de fornecedores e investir em biofertilizantes”, avalia Cogo.

Nos últimos 12 meses, o preço internacional dos fertilizantes disparou até 40% em dólar, pressionando a rentabilidade de culturas como soja, milho e café. O tema já entrou no radar de outros grandes players: a Índia, que também sofreu com a alta, voltou a negociar com fornecedores estratégicos, e a China mantém conversas bilaterais para reduzir riscos. “O Brasil, por enquanto, ainda não sinalizou movimentos concretos nessa direção.”

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