O plantio de arroz está atrasado no Rio Grande do Sul, principal Estado produtor do cereal. E ainda que isso pareça um problema, na verdade é um alento ao setor. Com os preços no menor patamar em 14 anos, a perspectiva é que as chuvas que atrasam os trabalhos podem desestimular os produtores de semear parte grande das terras.
“Só assim teremos uma recuperação nos preços”, afirmou Denis Dias Nunes, presidente da Federação dos Arrozeiros do Rio Grande do Sul (Federarroz) ao Valor.
Nesta semana, a saca de 50 quilos foi negociada a R$ 58,36 no Estado, 50% inferior ao mesmo período do ciclo passado e o menor valor nominal desde setembro de 2011, segundo o Centro de Estudos em Economia Aplicada (Cepea).
Já os custos de produção estão entre R$ 70 e R$ 75 a saca. “Sabemos que os produtores têm que cumprir contratos e que os custos até caíram em relação a 2024/25, mas precisamos que reduzam ainda mais a área para enxugarmos os estoques e, pelo menos, empatarmos na rentabilidade”, afirmou. Na temporada passada, os custos ficaram próximos a R$ 90 por saca.
A alternativa para os que se encontram nas terras baixas do Estado é a pecuária de corte. No norte do Estado, onde se planta soja e milho, a recomendação dos dirigentes é de abandono da rizicultura em 2025/26. “No norte, os produtores já estão muito endividados com os prejuízos da seca nas últimas temporadas e não suportariam mais perdas”, alertou.
Essa estratégia vai ser adotada pelo produtor Luiz Alberto Barbará Gonzalez, de Uruguaiana (RS), na fronteira com a Argentina. No ano passado, Gonzalez plantou 3,1 mil hectares com arroz. Nesta safra, reduziu a área em 15%, a 2,6 mil hectares. As terras que não serão semeadas com o cereal serão destinadas para pecuária. “Nas lavouras próprias vamos colocar gado, e o que é arrendado vamos devolver para o proprietário, que também vai ocupar com pecuária.”
O motivo da redução é justamente a preocupação financeira. “No ano passado, o produtor ganhava dinheiro quando o arroz estava a R$ 120 a saca. Agora, em Uruguaiana, estão pagando R$ 56, e com dificuldade para fechar negócio. Enquanto isso, o custo de produção está em R$ 75 a saca.”
Na região de Uruguaiana, os produtores enfrentam outra dificuldade: o frete. O município fica a 620 quilômetros do porto de Rio Grande, onde é escoada grande parte da produção gaúcha. “O valor do frete até Rio Grande fica de R$ 7 a R$ 8 a saca, praticamente 15% do valor do produto.”
Para Gonzalez, um auxílio que o governo pode dar aos rizicultores é o lançamento de mais operações de Prêmio para Escoamento de Produto (PEP), a fim de reduzir as perdas com logística.
“Estamos quebrando com o arroz em casa”, lamentou Clarissa Peixoto, CEO do grupo Pitangueira. “Tivemos uma margem negativa de 40% na última safra”, contou.
Em 2024, o grupo Pitangueira plantou mil hectares de arroz em Itaqui (RS) e Maçambará (RS). Nesta safra, a área foi reduzida em 50%. “Vamos substituir por capim e fazer pecuária onde deixamos de semear, e não sei nem se vamos retornar com o arroz.”
Os estoques estão em mais de 2 milhões de toneladas, e o consumo permanece entre 10,5 milhões e 11 milhões de toneladas. “A esperança é aumentar exportações”, diz Nunes, da Federarroz.

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