Edição gênica avança na criação de nova geração de alimentos

Tambaqui sem espinhas, tilápia com 40% mais carne, leite de vaca hipoalergênico, boi da raça escocesa Angus resistente ao calor. Mudanças nos animais de produção que levariam décadas para acontecer naturalmente — ou que talvez nem se realizariam — já estão em testes em campo no Brasil graças à edição gênica, técnica que permite aos cientistas modificar sequências de DNA. Algumas dos resultados dessas pesquisas devem chegar ao mercado ainda nesta década.

A Embrapa tem usado a tecnologia conhecida como “CRISPR”, sigla em inglês de “repetições palindrômicas curtas regularmente interespaçadas em cluster”, afirma Alexandre Nepomuceno, chefe-geral da Embrapa Soja. Essa técnica usa um complexo de RNA (ácido ribonucleico, a molécula responsável pela síntese de proteínas nas células do corpo) e proteínas para buscar a sequência de DNA desejada, cortar e modificar a sequência em questão. “A edição genética se consolida como uma ferramenta-chave para aumentar a produtividade agrícola, adaptar animais aos efeitos das mudanças climáticas e reduzir o impacto de doenças na pecuária”, diz.

Na Embrapa Pesca e Aquicultura, em Palmas, estão em andamento duas linhas de pesquisa com tambaqui. Uma frente tem como foco desenvolver o peixe sem espinhas, para facilitar o processamento da carne. Outra linha busca peixes com musculatura maior. Em parceria com a Empresa de Pesquisa Agropecuária e Extensão Rural de Santa Catarina (Epagri), a unidade da Embrapa também testa a edição gênica para tilápias que tenham mais ganho muscular.

O tambaqui foi escolhido por ser a principal espécie nativa usada para aquicultura. Fernanda Loureiro de Almeida O’Sullivan, chefe adjunta de pesquisa e desenvolvimento da Embrapa Pesca e Aquicultura, diz que a pesquisa faz a edição gênica em uma cadeia de genes que atuam na calcificação dos tendões intermusculares. À medida que o tambaqui cresce, esses tendões se calcificam, dando origem às espinhas.

“Cada espécie tem uma reação diferente com a deleção da espinha. A carpa não perdeu capacidade natatória. Houve dificuldade inicial [para o peixe] subir até a superfície para comer a ração seca, mas depois [as carpas] se adaptam. Em outras espécies, não houve redução da capacidade natatória”, diz O’Sullivan, que cita pesquisas norueguesas similares.

Para o desenvolvimento de peixes com musculatura maior, a edição gênica envolve a neutralização do gene que regula a miostatina, que controla o crescimento. “No caso do tambaqui, a pesquisa é mais demorada porque o peixe entra na maturação sexual com dois anos de idade. Já a tilápia entra em fase reprodutiva a partir de seis meses”, afirma O’Sullivan. Ela diz que os animais foram desenvolvidos em laboratório e que exames de genotipagem já confirmaram a mutação genética. Agora é preciso acompanhar o crescimento dos animais e fazer a reprodução para saber se a mudança será passada para as próximas gerações.

A Embrapa Gado de Leite, em parceria com a Associação dos Criadores de Angus, desenvolveu com edição gênica, em Juiz de Fora (MG), um casal de bezerros da raça angus adaptado ao clima tropical. “Os animais da raça têm alta produtividade e carne de alta qualidade, mas não suportam muito calor. Fizemos a proposta de produzir animais com pelo mais curto. O gene que determina o pelo curto é encontrado em raças que desenvolveram naturalmente essa característica”, afirma Luiz Sergio de Almeida Camargo, pesquisador da Embrapa Gado de Leite.

Os bezerros nasceram com pelo curto, o que melhora a tolerância ao calor em comparação com os animais de pelo longo. Os pesquisadores produziram 16 embriões, implantados em 16 vacas em junho de 2024. Seis gestações avançaram, mas uma não chegou ao fim. Nasceram cinco bezerros, dos quais dois com pelo curto e 74% e 83% de edição no genoma. “É preciso gastar mais tempo em laboratório para aumentar a eficiência da edição gênica”, diz Camargo.

Segundo ele, com cruzamento natural, seriam necessárias cinco a seis gerações para alcançar a mesma característica obtida com a edição gênica. “Vamos escolher os melhores animais para gerar dez ou 12 animais no ano que vem. E, a partir dessa população, gerar a primeira geração de matrizes”, conta.

Mateus Pivato, diretor executivo da Associação dos Criadores de Angus, diz que os pesquisadores vão produzir mais animais com edição gênica para ampliar a linhagem e fazer posteriormente o cruzamento desses animais. “Vamos testar a partir dos cruzamentos o impacto real da tecnologia e avaliar também qual será o impacto sobre a resistência a ectoparasitas”, afirma. A pesquisa deve se estender por cinco a seis anos. Em trabalho com a Embrapa Pecuária Sul, a entidade também desenvolve animais que ganham mais peso comendo menos e até animais que emitem menos gás metano.

Outra pesquisa em fase de laboratório na Embrapa Gado de Leite é de vacas com mutação no DNA para gerar animais que produzam leite sem a proteína beta-lactoglobulina (BGL). O produto atenderá os alérgicos à proteína do leite.

Na pecuária suína, a Pig Improvement Company (PIC), subsidiária da britânica Genus, desenvolveu porcos resistentes à síndrome reprodutiva e respiratória dos suínos (PRRS, na sigla em inglês). A doença causa a morte precoce dos animais e aumenta a necessidade de antibióticos em 200%. Nos EUA, segundo a empresa, a doença gera perdas de US$ 1,2 bilhão por ano.

“Basicamente, a tecnologia desliga um segmento do DNA que permite ao vírus se ligar às células do animal para começar a se reproduzir. É uma mutação que na natureza acontece de forma esporádica e involuntária”, diz Alexandre Rosa, diretor superintendente da Agroceres PIC.

A PIC protocolou pedido de aprovação nos principais países produtores de suínos, incluindo o Brasil. A tecnologia já foi aprovada no país em 2024, nos EUA em abril deste ano, e recebeu aval também na Colômbia, Argentina e República Dominicana. China, Canadá e México estão na fase final de análise do pedido.

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