Falta de armazéns para grãos eleva trânsito rodoviário após a colheita

A falta de silos impacta a malha rodoviária dos principais eixos de escoamento agrícola. A situação é especialmente delicada no Centro-Oeste, que concentra quase a metade da safra nacional de grãos, e onde 47% do que é produzido não tem onde ser armazenado. Os silos da região têm capacidade instalada para 84,5 milhões de toneladas de grãos. Na safra 2024/2025, o déficit foi de quase 75 milhões de toneladas.

“Isso vem gerando uma série de impactos negativos em toda a cadeia”, diz Lucas Costa Beber, presidente da Associação dos Produtores de Soja do Mato Grosso (Aprosoja). Além de eventuais prejuízos aos grãos estocados de forma indireta, a falta de silos força produtores a escoar a produção imediatamente após a colheita. “Isso sobrecarrega a infraestrutura rodoviária em um curto espaço de tempo, causando aumento do tráfego de caminhões e congestionamento nas principais rotas de escoamento, provocando longas filas no recebimento de grãos nos portos e, consequentemente, atrasos na entrega da produção”, destaca Beber.

O cenário afeta os custos do produtor, avalia Maurício Lima, sócio-diretor do Instituto de Logística e Supply Chain (Ilos). “Por conta da dinâmica de mercado, o aumento acelerado na demanda acaba elevando os preços do próprio transporte rodoviário”, diz. Grandes volumes de cargas que têm baixo valor agregado – caso dos produtos agrícolas – teriam um custo muito menor se fossem transportados por longas distâncias via ferrovias, em vez do modal rodoviário, que hoje responde por mais de 62% dos embarques, cita.

A situação também não é do agrado dos transportadores, segundo Lima. “Em junho, os preços de frete rodoviário agrícola, partindo de Sorriso (MT) para o porto de Santos (SP), eram os mesmos de há dois anos, R$ 500 por tonelada”, conta ele. “O operador logístico tem dificuldades de cobrir os custos e alguns deles até estão saindo do setor de grãos”, assegura.

Em agosto, em relatório a investidores, a JSL reportou redução de 3% no crescimento da receita líquida do segundo trimestre de 2025 (R$ 2,4 bilhões) devido a impactos negativos no transporte de grãos. Ao Valor, a companhia informou que a queda não está ligada à disponibilidade de silos, mas a decisão estratégica que privilegia logística dedicada, “baseada em contratos de longo prazo e com rentabilidade adequada”. A companhia manteve atuação apenas em rotas específicas com retorno considerado satisfatório.

Para Francisco Queiroz, da Consultoria Agro do Itaú BBA, o crescimento acelerado da produção de grãos no Centro-Oeste, mais rápido que a armazenagem, exige organização estratégica da logística agrícola. “Operadoras têm papel fundamental nesse processo, não apenas como transportadoras, mas como parceiras na construção de soluções integradas”, diz.

Segundo ele, investimentos em armazenagem descentralizada e maior uso dos modais ferroviários e hidroviários e de tecnologia para gestão do escoamento podem ajudar a tornar a operação mais eficiente e rentável. “É preciso sair da lógica do transporte sazonal (período de safra) e avançar para parcerias estáveis, com contratos de longo prazo e previsibilidade”, diz.

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