Produtor pode multiplicar semente de soja para uso próprio? Confira mitos e verdades sobre o tema

Com o início do período de semeadura da soja em várias regiões do país, os produtores dão início a uma nova safra e a uma das etapas mais decisivas do ciclo produtivo. A escolha da semente, da variedade e do momento ideal para plantar tem impacto direto na germinação, no vigor das plantas e na produtividade final da lavoura. É também nessa fase que surgem as principais dúvidas sobre o que realmente faz diferença no campo.

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Para esclarecer o que é mito e o que é verdade sobre as sementes de soja, os pesquisadores Fernando Henning e José de Barros França Neto, da Embrapa Soja, em Londrina (PR), e os representantes da empresa Satis, Marcos Marchioro e Jair Unfried, explicam, em entrevista à Globo Rural, os principais fatores que determinam a qualidade e o desempenho das sementes no campo.

Toda semente certificada é igual?

Mito.

Segundo Fernando Henning, da Embrapa Soja, todas as sementes certificadas precisam atender a padrões mínimos de qualidade — germinação de pelo menos 80% e pureza de 98%. No entanto, o pesquisador destaca que há diferenças significativas entre lotes e empresas: muitas trabalham com sementes acima de 90% de germinação, o que garante maior vigor e desempenho no campo.

Além da germinação, que é obrigatória por lei, o teste de vigor é um diferencial importante para prever como a semente vai reagir em condições adversas, como falta de chuva ou calor excessivo.

A semente mais cara garante mais produtividade?

Mito.

O preço nem sempre está ligado ao desempenho agronômico. De acordo com Henning, o valor pode refletir fatores comerciais, royalties de tecnologia e disponibilidade no mercado — mas a produtividade depende de compatibilidade da cultivar com a região e do manejo.

Antes de comprar, o agricultor deve avaliar se a variedade é recomendada para o seu ambiente de cultivo, conversando com um engenheiro agrônomo e verificando o folder técnico da cultivar.

A semente salva tem o mesmo desempenho da certificada?

Mito.

Para Marcos Marchioro, gerente de Negócios da Satis para MT/RO/PA, o uso de semente salva ainda é comum por questões culturais e pela falsa percepção de economia.

“O produtor confia no material que ele mesmo colheu e acredita estar economizando, mas subestima as perdas invisíveis causadas por menor vigor, falhas no estande e disseminação de patógenos”, explica.

Enquanto as sementeiras adotam padrões rigorosos de armazenamento e resfriamento, garantindo a qualidade por até dez meses, a semente salva sofre com variações de umidade, contaminação e danos mecânicos durante a colheita e o armazenamento.

Além disso, o agricultor que usa sementes próprias deixa de ter acesso a novas cultivares geneticamente melhoradas, perdendo ganhos em produtividade e resistência a pragas. Na prática, o “baixo custo” da semente salva pode acabar sendo anulado pelo aumento de replantio e pela redução da produtividade final.

O produtor pode multiplicar semente para uso próprio?

Verdade — mas com regras.

A legislação brasileira permite o uso de sementes salvas para uso próprio, desde que o produtor siga as exigências da Lei de Proteção de Cultivares e da Lei de Biossegurança.

O controle é feito pelo Ministério da Agricultura e pelas próprias empresas detentoras das tecnologias, que monitoram o uso indevido por meio de testes genéticos e rastreabilidade das notas fiscais.

Quanto maior a germinação no laudo, melhor o desempenho no campo?

Parcialmente verdade.

Henning explica que a germinação alta indica potencial, mas o desempenho real depende também do vigor da semente — ou seja, da capacidade de emergir e crescer bem sob condições adversas.

Sementes com alto vigor formam plântulas mais uniformes e resistentes, resultando em melhor estande e maior produtividade.

A qualidade da semente é decisiva para o estande inicial?

Verdade.

A fase inicial define o sucesso da lavoura. Sementes de alta qualidade, com boa germinação e vigor, garantem emergência uniforme e plantas mais produtivas. Segundo a Embrapa Soja, o investimento em qualidade é altamente responsivo em produtividade, especialmente quando o clima e o manejo estão dentro das condições ideais.

Escolher a variedade correta é a melhor estratégia?

Verdade.

Cada região tem suas particularidades de clima, solo e janela de semeadura. Escolher a cultivar adequada é o primeiro passo para uma safra produtiva.

“Assim como ninguém compra uma máquina sem entender suas especificações, a escolha da variedade precisa de análise técnica e acompanhamento agronômico”, reforça Henning.

Sementes transgênicas dispensam cuidados no manejo?

Mito.

Mesmo com tecnologia incorporada, o manejo segue essencial. O controle de plantas daninhas, pragas e doenças continua sendo necessário, e o monitoramento constante da lavoura é o que garante o retorno do investimento.

O manejo da semeadura influencia mais do que a tecnologia isolada?

Verdade.

O sucesso da lavoura depende do conjunto de fatores — qualidade da semente, preparo do solo, regulagem da semeadora e manejo fitossanitário. Até mesmo o tamanho das sementes (classificação por peneiras) interfere na plantabilidade e na uniformidade de emergência.

“A agricultura é uma indústria a céu aberto. Cada detalhe conta para garantir o estande ideal e aproveitar todo o potencial produtivo da cultivar”, afirma Fernando Henning.

O manejo pode reduzir ou aumentar diferenças entre lotes de sementes?

Verdade.

De acordo com Marcos Marchioro, o manejo é essencial para qualquer lote, mas fatores ambientais e do solo — como chuva, temperatura, fertilidade, cobertura e práticas fitossanitárias — apenas atenuam, sem eliminar, as diferenças de vigor.

Em ambientes mais desafiadores, sementes com problemas fisiológicos apresentam desempenho inferior. Por isso, sementes de qualidade oferecem maior segurança ao produtor diante de condições fora de controle.

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