Já virou um mantra no agro brasileira a frase “o Brasil pode produzir mais grãos sem desmatar um único hectare”. Neste ano, em sintonia com o mantra, o governo federal lançou o Caminho Verde Brasil, programa que pretende restaurar 40 milhões de hectares de áreas de pastagens degradadas em áreas agrícolas ou de integração lavoura-pecuárias. O leilão é feito pela Ecoinvest. O cálculo é que o país pode recuperar para a agricultura pelo menos 40 milhões de hectares de pastagens.
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Em 2021, a Syngenta e o Itaú BBA lançaram essa mesma ideia com o programa Reverte, conquistaram o primeiro cliente no Mato Grosso e iniciaram a recuperação de uma área de pasto arrendada de 4.000 hectares. Passados seis anos, o Reverte, voltado a produtores de grande escala, alcançou 279 mil hectares (50% no Mato Grosso e o restante dividido em 10 Estados) e projeta acelerar para chegar a 1 milhão de hectares em 2030.
De olho nessa meta, o Itaú BBA estuda usar sua expertise para fazer o Reverte dentro do Ecoinvest. “Seria uma espécie de casamento com o objetivo de alavancar o crescimento para o nosso projeto”, diz João Adrien, head de ESG Agro da instituição. A ideia é que novos projetos do Reverte possam ser atendidos com recursos do Ecoinvest.
O programa federal tem critérios socioambientais mais rigorosos por envolver dinheiro público e deve ter operações bem maiores que as do Reverte. Um cálculo inicial do banco estima que a demanda por conta da tecnologia aplicada na recuperação pode ficar entre R$ 10 mil e R$ 30 mil por hectare.
Conheça o Reverte
“Hoje o Brasil tem um ativo de biodiversidade, de florestas preservadas, que sem dúvida nenhuma é riquíssimo e importantíssimo para o nosso país. Temos condição de avançar com a agricultura, ajudar o produtor a lidar com as questões de mudanças climáticas e cumprir o papel de provedor de alimentos sem desmatar um hectare de floresta”, diz Jonas Oliveira, gerente de sustentabilidade da Syngenta.
Segundo ele, alcançar mais sustentabilidade socioambiental na produção agrícola é fundamental, mas isso não existe sem a viabilidade econômica. Por isso, a Syngenta foi buscar um parceiro que pudesse garantir o financiamento ao produtor para recuperar seu solo, sabendo que muitas vezes no primeiro ano do processo vai ter uma produtividade aquém da média e só a partir do terceiro ano vai começar a colher os frutos do investimento.
“A parceria com o Itaú BBA visou criar uma linha de crédito específica para o programa, com condições especiais, principalmente de prazo, para que o produtor consiga ter fôlego financeiro para transformar a área degradada em agricultura rentável.”
O banco financia a recuperação dos pastos degradados em até 10 anos com prazo de carência de 3 anos e taxas “um pouco” menores que a dos financiamentos privados voltados para o agro, sem concorrer, no entanto, com as taxas do Plano Safra. O custo estimado para recuperação de 1 hectare, que era de R$ 7.000 no início do programa, subiu para R$ 16 mil.
Além do valor para o investimento, o produtor pode acessar também uma linha anual de custeio de R$ 5 mil por hectare.
Segundo o executivo do Itaú BBA, o banco decidiu se unir à Syngenta porque identificou lá atrás que existe um grande potencial na agenda de conversão de áreas degradadas, seja para garantir que o setor agropecuário consiga aumentar a produção utilizando as áreas já abertas, ou otimizando o que já existe de recursos econômicos e naturais disponíveis.
Recentemente, a instituição chegou a R$ 2 bilhões financiados no Reverte e projeta chegar a R$ 10 bilhões até 2030. O crescimento do programa, diz Adrien, depende muito da conjuntura macroeconômica, da taxa de juros e do preço das commodities. Traduzindo, a adoção sobe em anos de bons preços dos grãos e cai em anos como 2025, de baixa rentabilidade para o produtor.
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Adrien, economista e produtor de grãos no interior paulista, afirma que o Reverte já tem critérios socioambientais bem arrojados porque visa justamente garantir aumento da produção com conservação e sustentabilidade, um de seus pilares centrais.
Para ter acesso ao financiamento, o banco exige que todas as áreas do produtor tenham Cadastro Ambiental Rural (CAR) e não tenham desmatamento ilegal desde 2008. Além disso, a área a ser recuperada não pode ter sofrido nem desmatamento legal desde 2018 e o agricultor precisa ter experiência nas culturas que pretende plantar na área.
“Alguns produtores que nos procuram interessados em participar do Reverte só descobrem na análise dos documentos que estão com alguma pendência ambiental, como o CAR suspenso, embargo de área ou alerta de desmatamento. Nesses casos, o banco oferece os serviços de uma equipe de especialistas para ajudar o produtor a se regularizar.”
Nos anos de financiamento, o produtor se compromete a aplicar boas práticas agrícolas na área e precisa apresentar as contrapartidas, como notas fiscais comprovando que usou os recursos para recuperação da área contratada. Ele tem a assessoria agronômica da Syngenta, mas é livre para adotar as tecnologias que preferir.
O financiamento do Itaú BBA, braço de atacado do banco que foca nas grandes empresas, não está disponível para pequenos e médios produtores. Adrien, que já integrou o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento na gestão de Teresa Cristina, diz que é preciso ter escala para participar do Reverte. Há casos de áreas menores contratadas a partir de 600 hectares, mas a média é de 2.000 a 3.000 hectares.
*A repórter viajou a convite da Syngenta

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