Produtores de camomila de Mandirituba, na Região Metropolitana de Curitiba (PR), estão se movimentando para aumentar a rentabilidade com a cultura. O município, que leva o título de Capital Nacional da Camomila, produziu 450 toneladas em 2024. A obtenção do selo de identificação geográfica (IG), em 2024, deu início a um movimento dos agricultores para ampliar a lucratividade em até 100%. A estratégia inclui a intensificação de boas práticas agrícolas, a melhora no manejo e o acesso a mercados.
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O produtor Tiago Samila é a terceira geração da família no cultivo da camomila na região. Ele preside a Associação de Produtores de Camomila de Mandirituba (Camandi), criada há quatro anos. Juntamente com a prefeitura e o Sebrae Paraná, a entidade atuou na conquista da IG para o produto. Ele conta que o cultivo começou no município há aproximadamente 50 anos, por imigrantes europeus das regiões da Polônia e da Ucrânia.
Um dos diferenciais da camomila de Mandirituba é a concentração de óleo na flor. De acordo com as especificações do produto, a erva medicinal produzida na região possui em torno de 0,7% de concentração em sua composição, percentual acima dos 0,4% necessários para o óleo de camomila ser considerado de qualidade.
O volume é atribuído a fatores genéticos e agronômicos, como a cultivar desenvolvida localmente e as condições ideais de cultivo e colheita. “Temos uma produção excelente e uma qualidade muito boa, agora vamos buscar novas oportunidades”, afirma Tiago.
O município reúne mais de 50 famílias de pequenos produtores dedicadas ao cultivo da camomila, com áreas de plantio que variam, em média, de 30 hectares a 40 hectares. A rentabilidade média, conforme Tiago, gira em torno de R$ 3 mil por hectare.
Ainda de acordo com ele, um dos maiores problemas na cadeia é a dependência de intermediários na comercialização, que absorvem parte dos lucros devido à falta de estruturas próprias de beneficiamento do setor produtivo.
Lupa
Aline Geani dos Santos, consultora do Sebrae, explica que desde a conquista da IG, em janeiro de 2024, várias ações vêm sendo planejadas em parceria com a Camandi. “Colocamos uma grande lupa no processo de produção e no produto, que é um motor para a economia e o turismo de Mandirituba”, comenta.
Ela destaca que além de assegurar a tradição do cultivo e melhorar a autoestima dos produtores, a identificação geográfica de procedência é uma oportunidade para agregar valor ao produto.
Entre as ações desenvolvidas estão a intensificação de boas práticas agrícolas, a melhora no manejo e o acesso a mercados, incluindo a aproximação com grandes compradores de ervas medicinais. O primeiro passo está sendo garantir a finalização do processo de produção, com embalagem própria e rotulagem da camomila desidratada, destacando o selo de IG.
“Dessa maneira, estamos encurtando a cadeia, para promover a venda direta ao consumidor final. Estima-se um aumento de lucratividade de 50% a 100%”, projeta a consultora. O produto deve chegar ao mercado no próximo ano e também deve ser lançada uma plataforma online para a comercialização.
Outra ação será aproximar os produtores de novos compradores. A consultora destaca que será feita uma conexão com o mercado, incluindo empórios e indústrias, e com empresas com potencial de exportação: “Trabalhamos com um caderno de especificações visando o mercado internacional, reforçando as boas práticas e a rastreabilidade”. Atualmente, há registros de apenas um produtor da região que exporta o produto para o Paraguai.
Também está em estudo a viabilização da extração do óleo de camomila, que pode garantir um alto valor agregado ao produto. “Devemos buscar parcerias com universidades e fazer visitas técnicas para conhecer o processo de extração de óleo”, acrescenta Aline.
Produtor
O produtor José Mário Claudino, que também integra a Camandi, cultiva camomila há mais de 30 anos. Atualmente, destina em torno de 80 hectares para o plantio. Ele faz a secagem da erva na propriedade e negocia a venda durante o ano, conforme os melhores preços. Para ele, melhorar a qualidade e a rentabilidade ajudará a fortalecer a cultura.
Ele também enfatiza a importância que o poder público vem dando à cultura, promovendo o interesse da comunidade em visitar a região: “Fica linda a lavoura, como um jardim”.
O circuito da camomila, criado pelo governo do Estado, faz parte da iniciativa Caminhadas na Natureza, promovida pelo Instituto de Desenvolvimento Rural (IDR-PR). Por meio do projeto, em torno de 2 mil pessoas visitaram as propriedades, em 2024, para conhecer os campos floridos e adquirir produtos da roça.
Joel Sebastião da Cruz, que atua como analista do IDR em Mandirituba, comenta que a interferência do clima – geada seguida de chuvas – deve gerar em torno de 30% de redução na produção da camomila deste ano no município. Os dados de produção ainda não foram computados.
Quando a planta perde a qualidade, ainda é possível aproveitar a produção na chamada camomila mista. Até o momento, o preço da camomila pago ao produtor se mantém estável, variando entre R$ 15 a R$ 18 o quilo da flor e R$ 7 e R$ 8 o quilo da erva mista.
Cruz observa que os produtores mais capitalizados costumam armazenar o produto desidratado para vender dentro de alguns meses, quando a tendência é de preços mais altos.
Ciclo
Considerada pelos produtores mais rentável e menos arriscada que o trigo como cultura de inverno, a camomila tem o plantio a partir de abril e a colheita entre junho e setembro. Aline, do Sebrae, comenta que também está entre os projetos melhorar o sistema de colheita da planta. Atualmente essa etapa é realizada com um trator de ré, com uma pá equipada com pentes que puxam as flores do caule.
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Trabalhadores ficam sentados na pá durante o processo para coletar e arrumar as ervas no equipamento. Conforme a consultora, o sistema é considerado relativamente perigoso. “Há chances de acidentes, além de os trabalhadores estarem sujeitos a picadas de abelhas, presentes nas lavouras. Por isso, vamos buscar uma solução para melhorar esse manejo”, revela.
Do campo, a camomila segue para as etapas de beneficiamento, que incluem secagem ou desidratação, limpeza e seleção, embalagem e armazenamento. O produto desidratado pode ficar armazenado por um ano.
O Paraná é o principal produtor nacional da cultura, conforme o Censo Agropecuário do IBGE de 2017. Em 2024, segundo o Departamento de Economia Rural (Deral), foram colhidas no Estado 1,1 mil toneladas da planta medicinal, que foi cultivada em 2,3 mil hectares. Desse total, 1 mil hectares foram plantados em Mandirituba.

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