Às vésperas da COP30, que será realizada em Belém, o Brasil tem a oportunidade de consolidar seu papel de liderança global na agenda climática, mostrando como o agronegócio pode ser parte da solução para a transição de baixo carbono.
Sabemos dos desafios e cenários adversos que permeiam nossa atuação e, por isso, da urgência em aplicar ações concretas, mensuráveis e com resultados significativos.
Segundo o estudo “Descarbonização do Agronegócio: Caminhos para reduzir emissões e promover sustentabilidade”, liderado pelo Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável (CEBDS), com participação da Tereos, Bayer, Syngenta, Nestlé, Amaggi e Citrosuco, atualmente o agronegócio responde por cerca de 30% das emissões líquidas de CO₂e do país, totalizando aproximadamente 480 milhões de toneladas.
Em um cenário sem novas ações de mitigação, considerando o crescimento projetado para o segmento, essas emissões poderiam atingir 650 milhões de toneladas de CO₂e até 2050. O aumento, porém, pode ser contornado desde que iniciativas sejam implementadas – e é aqui que a agricultura regenerativa se torna uma grande aliada.
A descarbonização do agronegócio não é utópica. É um caminho mais do que viável, pavimentado por alavancas já reconhecidas e consolidadas, além de economicamente atrativas.
O levantamento do CEBDS aponta que cerca de 80% da mitigação necessária (algo entre 400 e 500 milhões de toneladas de CO₂e por ano) pode ser alcançada por meio de práticas como o plantio direto e de cobertura, a integração lavoura-pecuária-floresta (ILPF), a expansão de pastagens de alto vigor e o aumento da produtividade do rebanho, ações essas já exercidas por produtores em grande parte do país.
Para alcançar a redução de 80%, a tecnologia é fundamental para ampliar estas soluções que otimizam a produção e reduzem o impacto ambiental. Os bioinsumos, por exemplo, mencionados no estudo como uma das 15 alavancas que contribuem para a descarbonização do setor, diminuem a dependência de fertilizantes nitrogenados sintéticos, reduzindo significativamente as emissões de óxido nitroso (gás potente de efeito estufa), o que promove maior produtividade no campo.
Da mesma forma, os fertilizantes especiais de liberação gradual minimizam perdas e aumentam a eficiência no uso de nutrientes. Já a agricultura digital, com o uso de drones e análise georreferenciada, permite decisões mais precisas e otimiza operações e o consumo de recursos.
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A agricultura regenerativa garante também maior resiliência climática — no caso de secas prolongadas, por exemplo — e reduz o risco da operação. É o que afirma o estudo “Resiliência para o futuro: um caminho viável para paisagens regenerativas no Cerrado”. Em outras palavras, sustentabilidade e rentabilidade caminham juntas, e é claro o ganho em produtividade e competitividade.
A ambição de grandes corporações, muitas delas signatárias de iniciativas como o Science Based Targets initiative (SBTi), também desempenha um papel importante. Ao estabelecerem metas robustas de descarbonização para suas cadeias de valor, criam um efeito cascata, incentivando e apoiando seus fornecedores, incluindo pequenos e médios produtores, a adotarem práticas mais sustentáveis. Afinal, a agenda climática não é apenas uma responsabilidade de grandes players, mas uma oportunidade para todos.
Essas soluções, além de ambientalmente eficazes, têm retorno financeiro positivo no médio prazo, o que torna a transição ainda mais viável para o produtor. O estudo demonstra que a descarbonização do agro é economicamente vantajosa, especialmente quando o investimento é acompanhado por condições adequadas de crédito, com prazos longos, carência e taxas acessíveis.
Entretanto, essa ainda não é a realidade da maioria dos produtores: apenas 15% das propriedades rurais possuem algum contrato de financiamento ativo, o que evidencia o desafio do acesso a recursos financeiros no campo e reforça a importância de ampliar o crédito verde e de longo prazo.
À medida que a COP30 se aproxima, o Brasil tem a chance de reafirmar sua liderança global em soluções concretas de descarbonização no agronegócio.
Ao unir governo, setor privado, academia e produtores em torno da inovação e da colaboração, temos condições únicas de transformar o nosso modelo produtivo e fortalecer um agro cada vez mais eficiente, sustentável e protagonista. É assim que garantiremos um futuro mais verde para as próximas gerações. Os caminhos já estão pavimentados. Agora, é o momento de agir.
*Pierre Santoul é CEO da Tereos no Brasil
As ideias e opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva de seu autor e não representam, necessariamente, o posicionamento editorial da Globo Rural

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