Sem alívio nas tarifas dos EUA, mel e pescado enfrentam concorrência e restrições de clientes

Setores do agronegócio que ficaram de fora da retirada parcial de tarifas dos Estados Unidos buscam resistir à concorrência e à resistência de clientes, de fecharem negócios sob o tarifaço. É o caso das cadeias produtivas do mel e do pescado, que têm o mercado americano como um dos mais importantes para suas exportações.

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Na semana passada, o governo de Donald Trump anunciou a retirada da “tarifa recíproca” de cerca de 200 produtos alimentícios. Entre os itens, estão café, carne bovina e água de coco. A medida vale apenas para os 10% impostos em abril. Os 40% adicionais, que passaram a vigorar em agosto, permanecem. No entanto, para o mel e o pescado, a cobrança se mantém em 50%.

O presidente da Associação Brasileira dos Exportadores de Mel (Abemel), Renato Luiz Cruz Azevedo, explica que a queda na demanda, devido às tarifas, coincidiu com a redução de oferta, por condições climáticas desfavoráveis. A situação ajudou a atenuar os efeitos negativos sobre as exportações.

Ele diz acreditar que há espaço para reverter a situação. Acrescenta que o mel brasileiro que vai para os Estados Unidos é um produto orgânico que não tem similar no mercado mundial.

“A taxação não foi reduzida. Entendemos que há interesses externos, mas também há margem para mudar, pois há negociações com outros países. Contamos que, até a regularização da oferta com a produção de verão, já possamos ter resolvido a questão tarifária”, afirma.

Os Estados Unidos são o principal comprador do mel brasileiro. De janeiro a outubro de 2025, o país comprou 26,1 mil toneladas, com um faturamento de US$ 87,6 milhões, informa o sistema ComexStat, do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC). O volume representa 85,1% no que o Brasil exportou no período. Nos primeiros dez meses de 2024, os americanos compraram 23,7 mil toneladas, o equivalente a US$ 61 milhões.

Entre agosto e outubro, já sob os efeitos do tarifaço, volume embarcado oscilou de 6,8 mil para 6,9 mil toneladas comparando 2024 e 2025. A receita cresceu 35% e chegou a US$ 24,6 milhões. A Abemel avalia que a manutenção de contratos da última safra contribuiu com o resultado, além de uma valorização do produto, que passou de US$ 2,65 para US$ 3,24 o quilo no período.

“Visto que a maioria dos produtores de mel é da agricultura familiar, precisamos de uma negociação suficiente para a próxima safra. Esse mel não pode ser estocado, por isso, também esperamos que o setor seja contemplado nas próximas reduções tarifárias”, afirma Sérgio Farias, presidente da Confederação Brasileira de Apicultura e Meliponicultura (CBA).

Com o tarifaço em vigor, a Índia aparece como potencial concorrente do Brasil no mercado americano. Há também o receio de que o consumidor local, eventualmente, troque o mel orgânico pelo convencional, reduzindo o peso do principal fator de resiliência do mel brasileiro.

“Parte dos clientes que ainda estão comprando o mel brasileiro já sinalizou que, se o aperto tarifário permanecer, vai desenvolver novas fornecedoras em outros países. Ainda assim, a expectativa dos clientes é de que isso não se sustente. Não é tão simples trocar, principalmente, substituir o Brasil, que produz 85% do mel orgânico no mundo”, diz Daniel Breyer, diretor financeiro da Abemel e sócio da Breyer.

Para os fornecedores brasileiros, buscar mercados alternativos aos Estados Unidos também não é tarefa simples, já que envolve questões regulatórias para produtos de origem animal. Outro caminho seria incentivar o consumo de mel pela população brasileira, que ainda é menor que o de americanos e europeus.

Sério Farias, da CBA, explica que a entidade já pediu para o governo federal fazer campanhas publicitárias de médio e longo prazo, com o objetivo de aumentar a divulgação do mel para consumo e processamento industrial no mercado interno.

“Se isso acontecer, haverá aumento de pelo menos de 30 a 40 mil toneladas de consumo interno. Isso deve ajudar a aliviar as tensões sobre as exportações”, afirma.

Exportações de pescado para os Estados Unidos somaram US$ 30,2 milhões no intervalo de agosto a outubro, queda de mais de 30% em um ano — Foto: Christian Braga/Oceana
Exportações de pescado para os Estados Unidos somaram US$ 30,2 milhões no intervalo de agosto a outubro, queda de mais de 30% em um ano — Foto: Christian Braga/Oceana

Pescados

No setor de pescados, o sócio da Compex Indústria e Comércio de Pesca e Exportação, Paulo Gonçalves, entende que o tarifaço atingiu fortemente todo o segmento. No início, por exemplo, precisaram baixar o preço para os fornecedores e tiveram resistência de outros clientes.

O empresário, com atuação no Ceará, avalia que o plano de socorro do Estado foi fundamental para manter os negócios. Outros setores do agronegócio cearense, como o de água de coco, afirmam ainda estar de fora do programa.

“Se não tivesse (a ajuda estatal), estaríamos produzindo menos da metade do que nós estamos produzindo hoje. Muita embarcação poderia ter parado de produzir porque já teria ficado inviável economicamente”, diz Gonçalves.

A expectativa é de uma prorrogação do apoio por mais 120 dias a partir do fim do prazo inicial, que é 5 de dezembro, enquanto se aguarda um acordo entre os governos brasileiro e norte-americano para reduzir ou reverter as taxas.

“Temos uma cadeia muito longa. São pessoas que precisam da pesca, tanto da produção quanto da exportação. Temos mais de 100 mil pessoas dependentes dessa pescaria. Então, é muito importante que o governo continue a nos auxiliar.”

Entre agosto e outubro de 2025, a cadeia produtiva de pescado no Ceará embarcou 18,3 mil toneladas, 13% a mais que em 2024, quando foram 16,2 mil. O valor, no entanto, caiu 12%, de US$ 111,1 milhões para US$ 97,3 milhões. No acumulado de janeiro a outubro, a queda é de 3% de um ano para outro, com o valor passando de US$ 88,1 milhões para US$ 85,3 milhões.

Gonçalves relaciona a queda no faturamento aos descontos que o setor concedeu para os clientes americanos continuarem comprando. “Nós já vínhamos aumentando a venda de pescados nos últimos meses, mas o preço caiu um pouco por causa da tarifa. Se a tarifa não tivesse existido, estaríamos com muito mais dinheiro entrando.”

Em nível nacional, as exportações de pescado para os Estados Unidos somaram US$ 30,2 milhões no intervalo de agosto a outubro, queda de mais de 30% em relação ao valor do mesmo período em 2024, de US$ 43,7 milhões. No acumulado de janeiro a outubro deste ano, houve crescimento de 10,3%, com o valor exportado passando de US$ 312,8 milhões para US$ 345,2 milhões.

Em relação à abertura de novos mercados, Gonçalves explica que é mais fácil para o segmento da lagosta do que o peixe costeiro. “A lagosta é uma especialidade, tem mais mercados consumidores. Já o peixe costeiro, que a gente chama de peixes tropicais, é muito mais complicado, porque se pesca em todos os oceanos e mares do mundo.”

*Sob supervisão de Raphael Salomão

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