A nova safra de cebolas no Sul do Brasil prometer ser farta e com boa qualidade. No entanto, os produtores catarinenses e gaúchos estão preocupados com os baixos preços da hortaliça, que não estão cobrindo os custos das lavouras, pressionando a rentabilidade da cultura neste ano.
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No Rio Grande do Sul, a área total prevista para a safra 2025/26 é de 4.040 hectares – o que, conforme o coordenador da Câmara Setorial, Fábio Martins, está de acordo com a média histórica do cultivo no Estado.
A colheita foi iniciada em outubro, e a previsão é de que termine em janeiro. A expectativa é que sejam produzidas 32 toneladas por hectare, resultando em uma oferta líquida de 118,9 mil toneladas da hortaliça.
No entanto, a rentabilidade dos produtores está pressionada, com um cenário de baixos preços oferecidos pela cebola, em um momento em que os custos de produção estão inflados pelas altas dos insumos e da mão de obra.
Em São José do Norte, principal município produtor do Rio Grande do Sul, com 1.440 hectares, os preços estão entre R$ 0,80 a R$ 1,00 o quilo para caixa 3 (bulbos entre 50 e 70 mm, que correspondem à maior parte da produção).
No entanto, esses valores não cobrem o custo de produção da cebola no município, que está perto de R$ 1,40 o quilo, afirma Martins. “Houve um forte aumento de produção de cebolas nos últimos anos no Nordeste, em Minas Gerais e Goiás, o que aumentou muito a oferta e derrubou as cotações”, comenta Martins.
Pesquisa realizada pela Emater/RS aponta que os produtores de cebola de São José do Norte, Tavares e Rio Grande têm desembolsado cerca de R$ 38 mil por hectare com compra de insumos e contratação de mão de obra para todas as etapas do cultivo.
“Quando começamos a fazer esse levantamento, há poucos anos atrás, esse valor era de, no máximo, R$ 17 mil, então chegamos a pensar que pudesse haver um erro. Mas validamos os dados com os produtores. A situação é que, mesmo que se tenha um preço de R$ 1,20 ou R$ 1,30 por quilo, ainda assim não será suficiente para cobrir os custos”, explicou o chefe do escritório municipal de São José do Norte da Emater/RS, Pedro Farias.
Essa situação preocupa produtores como Odirlem Oliveira, que também é presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de São José do Norte. Em sua área de sete hectares, ele deve colher 45 toneladas por hectare. Mas a rentabilidade não deve cobrir os custos.
Preço não acompanha alta na produção
A preocupação com a rentabilidade também afeta os produtores de Santa Catarina, Estado que lidera a produção nacional de cebola.
A projeção para a safra catarinense 2025/2026 é de uma colheita de 597 mil toneladas, aumento de 7,3% em relação ao ciclo anterior (556 mil toneladas), segundo a Empresa de Pesquisa Agropecuária e Extensão Rural de Santa Catarina (Epagri), o crescimento não se deve apenas à expansão de 1,41% na área plantada.
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“A região de Ituporanga, principal polo produtor de cebola do Estado, apresenta lavouras em excelente condição, resultado de um ciclo favorecido pelo clima e pelo manejo adequado”, aponta Lillian Bastian, analista da Epagri.
O valor pago ao produtor também tem sido em torno de R$ 0,80 a R$ 1 o quilo para a caixa 3, segundo Jorge Luiz Sardo, presidente da Associação dos Produtores de Cebola de Santa Catarina (Aprocesc).
Há 40 anos dedicado ao cultivo de cebola em Ituporanga, Arny Mohr espera que a lavoura com 20 hectares registre um crescimento entre 10% e 15% na colheita de 2025. O aumento na produção, porém, não veio acompanhado de uma reação nos preços para, pelo menos, cobrir os custos da safra, cenário que desanima o agricultor.
“O preço está péssimo, né? As primeiras cebolas foram vendidas de R$ 0,90 a R$ 1 o quilo, eu mesmo comercializei nesse valor, agora estamos comercializando de R$ 1,20 a R$ 1,30. A nossa produção está em torno de R$ 40 a R$ 50 mil por hectare, então, se colher 40 mil quilos por hectare, não tem como fechar a conta”.
Para Mohr, o preço adequado para quitar os custos de produção e não pressionar a rentabilidade deveria ser de R$ 2. “Abaixo disso, ninguém consegue continuar na atividade. Nós já viemos de um ano frustrado e estamos entrando em mais um ano frustrado”, lamenta.

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