O cenário de juros altos e crédito cada vez mais seletivo persistirá em 2026 e vai exigir mais produtividade e uma rígida gestão no agronegócio. Essa foi a principal avaliação de lideranças do setor no CBN Talks – Desafios do Agro, evento realizado pela CBN e pela revista Globo Rural em parceria com o sistema Faesp/Senar, nesta quarta-feira, 3, em São Paulo.
A sustentabilidade no setor, que pautou boa parte dos debates em 2025, ano em que o Brasil sediou a Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas – COP30, seguirá como exigência dos compradores e consumidores de alimentos e fibras no próximo ano. Outros fatores dentro da difícil equação para o agropecuarista são a incerteza política e a volatilidade econômica em um ano de eleições gerais no Brasil.
Para o presidente da Federação da Agricultura e Pecuária do Estado de São Paulo (Faesp) e do Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (Senar-SP), Tirso Meirelles, tudo que possa agregar valor e gestão na propriedade é importante para o produtor rural. Nesse cenário de crédito caro e escasso, Meirelles sugeriu que o produtor troque o investimento pelo “custeio com gestão” nas propriedades.
“O ano será muito complexo e o produtor precisará visualizar o que o mercado está precisando para gerir sua propriedade e os investimentos”, disse Meirelles.
No mercado de capitais, mesmo com a queda prevista na taxa básica de juros, o custo do crédito não deve cair, na avaliação de Felippe Serigati, economista e coordenador na FGV Agro. Ele lembra que a redução na Selic será seguida pela queda também na inflação e os juros reais seguirão elevados.
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“O custo de capital seguirá caro, o que demandará uma gestão financeira defensiva em um ou dois anos”, afirmou Serigati.
André Glezer, cofundador e CEO da Agrolend, que atua no financiamento do agronegócio, avaliou 2026 como um ano “extremamente difícil”, com variáveis complicadas. Além disso, segundo o executivo, as margens seguirão apertadas ao produtor, especialmente em soja e milho.
“É preciso focar muito em custo, em produtividade e eficiência, olhar para dentro de casa e agir com grau de conservadorismo alto”, disse Glezer. Segundo o CEO da Agrolend, o processo de consolidação por parte de empresas mais bem geridas seguirá naturalmente e “mesmo com ambiente difícil, área e produção crescerão”.
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Na mesma linha, Ingo Plöger, presidente da Associação Brasileira do Agronegócio (Abag), citou o financiamento do agro como um dos principais temas na agenda da entidade para 2026. Segundo ele, o ano eleitoral trará oportunidades para o setor produtivo apresentar sua agenda, assim como foi feito durante a COP30.
“Devemos ousar e trazer soluções de país e nação que se sobrepõem aos programas de governo. Precisamos aproveitar a mega avenida aberta pela COP30 e mostrar alternativas ao mundo dividido”, disse Plöger.
Marcello Brito, ex-presidente da Abag e enviado especial à COP30, reforçou a opinião de Plöger, mas foi mais crítico e direto em relação ao posicionamento setorial nas eleições. “Só espero que nosso segmento faça compromissos com o Estado brasileiro, já que na última eleição parte do setor fez compromissos partidários”, afirmou.
A “megaavenida” aberta pela COP30 manterá também as exigências ambientais e sustentáveis como um instrumento primordial na concessão de crédito. Para Dyego Santos, gerente-executivo de Soluções Agro da Serasa Experian, a questão ambiental se liga diretamente ao financiamento, com o crédito verde com taxa menor, e, na outra ponta, gera receita com o mercado de créditos de carbono.
“O financiamento hoje é destinado e atrelado à proteção ambiental”, afirmou Santos, lembrando que cerca de 30% da preservação ambiental no Brasil é garantida por propriedades privadas rurais, fator positivo para a obtenção de crédito.
Além da situação interna com o crédito atrelado às regras ambientais, a pressão internacional dos clientes pela sustentabilidade do agro brasileiro seguirá como um dos drivers do comércio externo em 2026.
“O Brasil enfrenta e seguirá enfrentando um grande desafio de natureza internacional: uma intensa narrativa contra o agronegócio brasileiro, majoritariamente construída e fundamentada em questões ambientais”, alertou a diretora de Relações Internacionais da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) Sueme Mori Andrade.
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COP30 ampliou visibilidade, mas divergências persistem
No mesmo painel, Ana Toni, CEO da COP30, elogiou a organização do setor na cúpula climática realizada em Belém (PA) no mês passado. “O agro se organizou de maneira incrível e a COP foi plataforma para mostrar o Brasil como solução climática e não como problema”, afirmou.
No entanto, ela criticou as divisões entre o “agro engajado” da cúpula do clima e o “outro agro representado pelo Congresso e preocupado com brigas políticas a partidárias”.
Ana citou como exemplo a derrubada dos vetos presidenciais pelo Congresso à Lei Geral do Licenciamento Ambiental na semana seguinte à COP30. A medida possibilitará, por exemplo, o autolicenciamento ambiental e pode ampliar, em 2026, a narrativa externa que questiona a sustentabilidade brasileira.
“É uma pena e tomara que isso mude, porque quem será impactado serão os produtores”, avaliou.
Por fim, o otimista José Roberto Mendonça de Barros, sócio da MB Associados, estimou que nem mesmo as incertezas geradas pelos Estados Unidos, que abalaram o agro brasileiro com o tarifaço em 2025, devem evitar que o Brasil se torne a maior referência no setor até a próxima década.
“A política americana vai trazer consequências ruins para os norte-americanos e consolidará o Brasil como o maior player global na próxima década”, disse.
Ainda segundo Mendonça de Barros, outro fator que favorece o país é a sanidade na agropecuária, mostrada pela reação e pelo controle rápido do primeiro foco de gripe aviária em um plantel comercial, em maio, no Rio Grande do Sul. “A gripe aviária mostrou um país confiável e com um sistema excelente de sanidade”, concluiu.

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